POLÊMICA N’O GLOBO
Colunistas e leitores participam
de debate sobre tortura e terrorismo
Luiz Antonio Magalhães
Os leitores do jornal O Globo participaram na semana passada de um surpreendente debate sobre tortura e terrorismo. A polêmica surgiu a partir de um artigo publicado no dia 6 de janeiro pelo colunista Olavo de Carvalho, intitulado Tortura e terrorismo. Três dias depois, o também colunista Márcio Moreira Alves desferiu uma dura resposta ao colega, acusando-o de ter defendido a prática da tortura no primeiro artigo. A réplica de Carvalho, ainda mais forte, saiu no sábado, dia 13.
Polêmicas entre jornalistas não são tão raras. Basta lembrar o embate entre o falecido Paulo Francis e o então ombudsman da Folha de S. Paulo Caio Túlio Costa, hoje diretor do UOL. A sequência de artigos acabou culminando na saída de Francis da Folha.
No tiroteio entre os colunistas do Globo, dois fatos surpreendem. Em primeiro lugar, o tema é dos mais delicados. Se o artigo de Carvalho trata da tortura "em tese" ou "filosoficamente", a leitura de Márcio Moreira Alves do primeiro texto joga a discussão em outro patamar: "O senhor Olavo de Carvalho não defende tortura e torturadores em abstrato. Refere-se ao Brasil e ao seu passado recente sob a ditadura militar. O seu artigo é uma participação no debate surgido com a demissão de três agentes da Abin, sucessora do SNI, suspeitos de terem participado de sessões de tortura ao tempo em que essa perversão era uma política do Estado e facilitava a promoção de seus praticantes na hierarquia militar."
Em outras palavras, Márcio traz a discussão para o "mundo real", não se furtando de desferir uma pesada acusação ao colega: "Nenhum desses antigos ideólogos da direita, no entanto, ousou defender publicamente um crime hediondo e covarde como é a tortura. Foi preciso esperarmos a decadência final do pensamento direitista no Brasil para que isso acontecesse. Sábado, o senhor Olavo de Carvalho, que se intitula filósofo, publicou aqui no Globo um artigo contrastando a tortura com o terrorismo e defendendo tortura e torturadores."
Acusação foi rebatida por Carvalho, que no seu segundo artigo deixou a filosofia de lado e partiu para o ataque, procurando desmoralizar seu oponente: "mas, enquanto os meus problemas começavam, os do sr. Moreira terminavam: naquele momento ele embarcava para Paris, onde, instalado numa bela cobertura em bairro elegante, pôde desfrutar com tranqüila segurança as glórias hauridas no arremedo teatral de heroísmo com que dera um gran finale à sua carreira de histrião parlamentar. Por isso nunca pude admirar aquilo que ele imagina ser a sua coragem, e que Benedito Valladares descreveu melhor como uma aptidão de bancar o Tiradentes com o pescoço dos outros", escreveu Carvalho, referindo-se à cassação do mandato de deputado federal de Márcio Moreira Alves.
Não faz tanto tempo assim que o regime militar acabou. Algumas cicatrizes já se fecharam, mas há muitas que permanecem abertas, especialmente no que diz respeito aos porões da ditadura. É preciso coragem para abordar um passado que muita gente prefere esquecer. Com a publicação do artigo de Márcio, o jornal carioca deu uma prova de que coragem não lhe falta. Ponto para O Globo.
A segunda atitude surpreendente foi a publicação de nada menos do que 21 cartas de leitores sobre o tema nos dias 10 e 11 de janeiro. O assunto dominou praticamente dois terços do espaço da seção de cartas do jornal desses dias. Feitas as contas, foram 11 leitores escrevendo em apoio a Olavo de Carvalho, quatro que se manifestaram de forma "neutra" ou condenando os dois colunistas e seis dando suporte às críticas de Márcio Moreira Alves.
Tudo somado, o fato é que O Globo mostrou um louvável espírito democrático, tão mais louvável porque o passado do jornal não autoriza a imaginar debates desse quilate em suas páginas. Resta agora acompanhar o desenrolar da discussão e principalmente o seu desenlace: é fácil começar uma polêmica, difícil é terminar.
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