QUALIDADE NA TV
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000
HUMOR SUSPEITO
Entretenimento ou descalabro?
Gilberto Haddad Jabur
É natural que recrudesça a capacidade das emissoras televisivas de tornarem engraçado o monótono, de tonificarem a graça das coisas e da própria vida sob o rótulo do entretenimento ou através do véu da comédia saudável, em tributo ao riso e à diversão. Nada de condenável nisso, e somente nisso, há. Há, sim, diversa mas não infreqüentemente, um ponto-limite ao deboche, ao motejo e à galhofa. Fazer rir higieniza a mente.
Mas não é em obséquio a essa louvável finalidade que restrições salutares, cujas raízes se deitam em costumes apreciáveis, não mereçam observância e acatamento. Escrevo rememorando um programa de televisão há pouco difundido, em torno das dez da noite, que teve a incrível habilidade, comum aos poderosíssimos gestores da mídia, de reunir um sem-número de renomados cantores (e até artistas) cujas preciosas cordas vocais, embora ritmassem chacotas, verdadeiras trovas burlescas, transpareciam um canto de louvor que, pela entonação e cadência dignos de um concerto entre intérpretes solidários com algum tipo de mal social, mereceria múltiplos aplausos, se apenas visto e não ouvido. Parecia mesmo que, sob o influxo de vozes singulares, pretender-se-ia entoar alguma divindade, porquanto o ato mostrava-se tão sério que se apresentava como admirável e único.
Acredite o leitor que eram as seguintes (essas mesmo!) algumas da palavras que compunham a insólita canção: "(...) não solte pum no elevador, porque eu não agüento o fedor; não solte pum no elevador, porque eu não agüento o fedor; não solte pum no elevador, porque eu não agüento o fedor".
Tal o refrão qual a nossa indignação. Quando a produção televisiva, em nome de um esquisito humor ou de uma malcriada comédia, é apta a reunir, em coro, renomes da música e das telas para transmitir - durante mais de cinco minutos - uma mensagem, entre outras de similar status, como aquela transcrevemos, em horário que não nos parece dos menos nobres, é porque realmente o indigitado programa, apelante da caçoada e do ridículo, não se arrima em nenhuma finalidade saudável de entretenimento; não se sustenta de olhos postos em propósitos louváveis de diversão com inteligência nem criatividade, mas pretende, tão-só, só mesmo, inovar sem mensurar nenhum dos edificantes princípios que o art. 221 da Constituição Federal contempla felizmente.
(*) Mestre e doutorando em Direito pela PUC-SP, professor de Direito Civil na PUC-SP, autor de Liberdade de pensamento e direito à vida privada (Editora RT).
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