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QUALIDADE NA TV
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000
ASPAS
CINQUENT’ANOS
Ubiratan Brasil
"A mostra sobre os 50 anos de fascínio da TV", copyright O Estado de S. Paulo, 5/12/00
"No dia 18 de setembro, quando se comemoraram os 50 anos da primeira transmissão de televisão no Brasil, 18 realizadores espalharam-se pelo País com um objetivo: retratar, com suas câmeras, a relação do brasileiro com a tevê e seu impacto real na vida das pessoas. ‘Conseguimos visões muito distintas, mas todas com uma conclusão comum: o brasileiro não é indiferente à televisão’, comenta Marcello Dantas, que encomendou os 18 filmes especialmente para a mostra 50 Anos de TV e +, que abre hoje para o público na Oca do Parque do Ibirapuera. Dantas é um dos curadores da exposição, ao lado do designer americano Ralph Appelbaum.
Totalmente virtual e apoiada em recursos tecnológicos de última geração, a megaexposição promove uma viagem pela história da televisão brasileira, além de apontar as pistas de como será o meio no próximo século. Para isso, o visitante terá à disposição 118 projetores de vídeo, 86 televisores, 82 servidores digitais, oito computadores, 630 caixas de som e o primeiro e único filme em HDTV (alta definição) hemisférico do mundo. Juntas, a Globo.com e a Associação Brasil 500 anos, parceiras na realização do evento, investiram R$ 3,5 milhões em equipamentos de altíssima tecnologia e esperam atrair 500 mil visitantes nos quatro meses em que a exposição ficar em cartaz.
‘É uma boa oportunidade para se perceber como a tevê faz do mundo uma aldeia’, comenta o videomaker e jornalista Marcelo Tas, um dos 18 realizadores convidados a registrar o impacto da tevê na vida das pessoas.
Seu filme, Zen TV, é uma curiosa colagem de imagens em que figuras conhecidas, como William Bonner e Marta Suplicy, surgem com os olhos fechados, em posições completamente relaxadas. Tas gravou toda a programação da televisão naquele 18 de setembro utilizando oito máquinas e selecionou aqueles décimos de segundo em que uma pessoa pisca. Apesar de contar com aparelhos modernos, o jornalista enfrentou dificuldades. ‘Foi quase impossível encontrar um momento de relaxamento do Silvio Santos, Hebe Camargo e Paulo Maluf’, comentou. ‘Eles são realmente comunicadores experientes e raramente modificam sua expressão.’
Novela egípcia - Tas é também o curador das imagens captadas de canais de 34 países, apresentadas em telas colocadas nas janelas redondas da Oca. Quem caminha ao redor desse piso assiste a programas tão distintos como um telejornal chinês e uma novela egípcia. ‘É uma prova de que, no mundo inteiro, a televisão faz parte da vida das pessoas’, acredita a videomaker Gabriela Greeb, realizadora do vídeo 50 Imagens por Segundo, outro dos 18 trabalhos encomendados.
Gabriela passou o dia do cinqüentenário da televisão brasileira em uma pequena cidade paulista próxima à divisa com Mato Grosso do Sul. Lá, fez descobertas memoráveis. ‘Em um sítio, havia uma casinha abandonada que, quando aberta, mostrou ter apenas um aparelho de televisão, que ainda funcionava’, comenta a cineasta, que utilizou o espaço como locação para seu trabalho. Gabriela percebeu que, em lugares não tão populosos, a televisão ainda é hipnótica, mas também sofre a concorrência da natureza, que oferece programas tão ou mais convidativos.
A mesma premissa orientou o cineasta Arthur Omar, que carregou sua câmera para a Amazônia, onde filmou Três Margens do Rio, elaborado trabalho que mostra a indiferença daqueles brasileiros à televisão. ‘Meus personagens são maiores que a tevê’, proclama Omar, responsável por belas metáforas, como mostrar as diversas ondas de um rio como o chuvisco da telinha.
Omar acompanhou os momentos em que uma comunidade amazônica assiste à tevê, ou seja, quando um motor que gera eletricidade é abastecido. Enquanto o motor funciona, as pessoas participam de atividades distintas: é possível tanto ver programas na telinha como uma sala de aula, que fica ao lado, ser iluminada. ‘Eles assistem a um litro de tevê por dia’, ironiza o cineasta, referindo-se à quantidade de combustível gasto diariamente. ‘Mas ninguém é escravo das imagens, pois, apesar da maioria gostar do programa do Ratinho, nenhum deles se preocupa em acompanhar até o final.’
Os habitantes da Amazônia vêem apenas metade da tela, por problemas de transmissão. Já os visitantes da mostra 50 Anos de TV e + têm à disposição justamente o oposto, O Futuro, de Gringo Cardia, um filme em alta definição.
Deitado em divãs equipados com alto-falante particular, o espectador mira o teto da Oca para acompanhar uma série de imagens em ritmo frenético, com uma narração sobre a necessidade que o homem tem de criar redes e fazer parte delas. O exemplo perfeito da televisão como a mídia para todos os sentidos. (50 Anos de TV e +. De terça a domingo, das 10 às 22 horas. Ingressos a R$ 8,00. Parque do Ibirapuera - Oca. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, tel. (0--11) 5549-9688. Até fevereiro)"
Fabio Cypriano
"TV fecha os olhos em seus 50 anos", copyright Folha de S. Paulo, 4/12/00
"Enquanto centenas de imagens televisivas sensibilizam a visão de quem entra na exposição ‘50 Anos de TV e +’, que abre para o público amanhã, as imagens de três pessoas dormindo são projetadas numa sala escura, bem no centro da mostra.
Essa é a maneira de o videoartista Bill Viola sinalizar que a melhor forma de manter a individualidade na aldeia global é fechar os olhos, talvez a melhor maneira de comemorar os 50 anos da televisão brasileira. Precisou um gringo nos dizer isso. Nascido em Nova York, Viola é um dos mais festejados artistas contemporâneos que trabalham com vídeo. Ele foi um dos 25 selecionados pela National Gallery de Londres para reler obras de seu acervo. O time contou também com Louise Bourgeois, Lucian Freud e David Hockney, todos figuras de proa na história da arte no século 20.
‘Acho incrível que a Globo esteja patrocinando essa exposição e fico feliz que minha obra esteja aí’, contou Viola por telefone à Folha, de seu estúdio em Los Angeles, onde vive. O artista já esteve duas vezes no Brasil, uma vez em São Paulo e outra no Rio. Convidado para participar de um seminário em janeiro de 2001, parte dos eventos relacionados à exposição, Viola provavelmente não virá. ‘Tenho de estar no Japão nesse mês e ainda preparar uma nova exposição para abril, em Londres.’ Leia, a seguir, os melhores trechos da entrevista.
Folha - Sua instalação ‘Limiar’ estabelece uma contradição com o bombardeio de informações da mostra ‘50 Anos de TV e +’...
Bill Viola - Acho que os curadores escolheram ‘Limiar’ porque nesta obra é relevante a condição que os meios de comunicação criam em nossas vidas, ou seja, a descontinuidade entre nossas vidas interiores, na mais privada e silenciosa forma, e a nossa vida pública. O desenvolvimento tecnológico da mídia cada vez mais tira o tempo de o indivíduo estar com ele mesmo.
Folha - Por isso tudo, parece contraditório que uma obra sua participe de uma mostra que celebra a história da TV no Brasil...
Viola - Devo confessar que eu não tenho muitas informações sobre a exposição. Eu cresci com a TV. É parte da minha vida. Ela começou um pouco antes de eu nascer, em 1951, e minha geração é a primeira que cresceu com a TV. Eu tenho uma relação de amor e ódio com ela. Eu não sabia que era uma mostra para celebrar a TV! Mas ela certamente mudou minha vida. Claro que ela é comercial, e a informação é muito controlada. Mas eu me lembro, quando era jovem, de ver Martin Luther King na TV, imagens do Vietnã... o que era muito forte. Mas acho muito simplista dizer que a TV é sempre ruim.
Folha - E, hoje, você assiste TV?
Viola - Não de fato. É claro que, com o andamento das eleições nos EUA, eu dou umas espiadas. Mas não vejo regularmente.
Folha - Qual a influência do videoartista Nam June Paik em seu trabalho?
Viola - Acho que todos somos influenciados por June Paik, mesmo os jovens que fazem videoarte. Ele foi o primeiro que percebeu que as máquinas de TV poderiam ser usadas por artistas de uma forma pessoal. Era uma idéia radical na época que ele começou, quando uma câmera custava US$ 100 mil e era do tamanho de uma geladeira. E ele fazia com isso manifestações políticas radicais.
Folha - Você trabalha com questões políticas, mas com um diálogo profundo com a pintura, não?
Viola - Estudei arte na universidade e me considero um artista filiado à tradição da pintura. A história política da pintura faz parte de toda cultura, suas manifestações religiosas, sociais, científicas. Trabalhar com imagens é trabalhar com conhecimento e filosofia. Meu interesse em política está relacionado com meu percurso pessoal, que é a tradição do autoconhecimento, da libertação do indivíduo. Os sentimentos são controlados por instituições, ir contra isso é um ato político.
Folha - Suas obras nos transmitem algo transcendente a elas. Você acha que essa é a função da arte?
Viola - Sem dúvida, é o tipo de arte que me interessa. Há obras que existem puramente pelo prazer visual. Mas, para mim, o poder da arte, qualquer que seja o estilo, é quando você entra num museu, um dos poucos lugares em nossas vidas atualmente onde o indivíduo dialoga com você sem nenhum controle político, corporal etc.. Arte contemporânea tem a ver necessariamente com a visão individual. Pode-se concordar ou não, mas, independentemente da forma como a exposição possa ser organizada, o que diz o catálogo, a explicação do curador, a imprensa, a obra de arte é uma criação individual. Com isso, arte é o único lugar de liberdade absoluta atualmente. O que não aconteceu no renascimento, por exemplo. Michelangelo era o Spielberg da época, que, em vez dos estúdios, trabalhava para a Igreja.
Folha - Quem organiza a mostra é a Globo, a mais poderosa instituição de comunicação no Brasil...
Viola - Bem, eu espero que o interior de minha obra seja o coração escuro da exposição. As pessoas que estão dormindo lá representam o espírito escondido, que anda pressionado por milhares de informações que nos bombardeiam constantemente. Nossa única alternativa é fechar os olhos para tudo isso."
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"Mostra promove celebração tecnológica", copyright Folha de S. Paulo, 4/12/00
"Abre amanhã para o público a mostra ‘50 Anos de TV e +’, na Oca, no parque Ibirapuera. A mostra, resultado de uma parceria entre a Globo.com e a Associação Brasil + 500, é uma celebração tecnológica dos 50 anos da TV brasileira.
Com curadoria de Marcello Dantas e Ralph Appelbaum, a mostra é quase virtual. De peças em exibição, há somente as 50 TVs da ‘Torre de Babel’, instalação que tem desde o primeiro receptor trazido por Assis Chateaubriand até telas planas de computadores atuais.
Tudo o mais é projeção, como os astros globais vistos nos pilares da Oca. No subsolo, há o módulo ‘Passeio por 50 Anos de TV’, com cenas da história da nossa televisão. No primeiro andar, estão as salas ‘Limiar’, de Bill Viola, e ‘TV EU’, de Carlos Nader. Na cúpula da Oca, há ‘O Futuro’, de Gringo Cardia, o primeiro filme em HDTV (TV de alta definição) hemisférico no mundo, segundo os organizadores. (Exposição: 50 Anos de TV e + Onde: parque Ibirapuera - Oca (av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Ibirapuera, São Paulo, s/tel.) Quando: a partir de amanhã; de ter. a dom., das 10h às 22h; até 25/02/2001 Quanto: R$ 8 (inteira) e R$ 4 (meia))"
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