QUALIDADE NA TV

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000

 

ASPAS

CINQUENT’ANOS
Joaquim Ferreira dos Santos

"Trêfega cinqüentona", copyright no. (www.no.com.br), 7/12/00

"Você pode chamar as cartas ou pedir a ajuda dos universitários, mas por favor responda rápido. Cinqüenta anos depois de a televisão ter estreado no Brasil, a sigla TV significa:

1. Tenho Vergonha.

2. Tremendo Visual.

3. Tremenda Vigarice.

4. Tudo Verdade.

5. Tudo Vento.

Cinco livros estão sendo lançados este mês sobre essa Trêfega Vestal cinqüentona. Como não há consenso na resposta, é melhor você não arriscar o seu milhão e pedir nova pergunta ao Sílvio Santos. Tomara que ele não complique as coisas e pergunte a diferença entre ser barbalho, magalhães ou gallerani.

Definitivamnete, o mundo era mais simples e sem chuviscos quando um naco de bombril na antena bastava para espantar fantasmas.

Os intelectuais, capitaneados por Eugênio Bucci, estão no livro A Tv aos 50 - Criticando a Televisão Brasileira no seu Cinquentenário (Editoria Fundação Perseu Abramo, 201 págs., R$ 24), uma coleção de artigos. Eles vieram estragar a festa, fazer anticomemoração, soltar o pum no elevador. Acham que todos os programas, das espadas que o Falcão Negro enfiava embaixo do braço do vilão Dary Reis ao chocalho de serpente da pulseira do Sinhozinho Malta, tudo foi feito com a finalidade única e exclusiva de vender produtos e colocar em marcha por aqui a sociedade de consumo. Falta TV pública, reclama o ensaio de Laurindo Lalo Leal Filho. Ao estimular o consumo e o prazer a qualquer preço, a TV incentiva o gesto violento, continua Maria Rita Kehl. Eugênio Bucci vai mais: ela, a Trêfega Vestal, parece contemporânea ao devorar influências estrangeiras e reciclá-las numa perspectiva nacional. Mas, garante Bucci, essa antropofagia televisiva é apenas o lado lógico do capital. Nada de libertação. Mas, repressão.

TV aos 50 não é recomendado para quem já conseguiu ficar por mais de 10 minutos sintonizado no Flash do Amaury Jr. Dê o livro de presente apenas àqueles amigos que têm saudade das aparições do Glauber Rocha no Jornal da Vanguarda, da Tupi. Um dos intelectuais diz no livro que é importante pensar nas características da palavra como um lugar de instabilidade da verdade. Bobagem, não se impressione com o palavrório. Aquela gotinha de suor que escorre em close no corpo da garota de biquíni, o arrepiante comercial da Brahma, aquela gota tem mais consistência e sentido do que qualquer instabilidade da verdade. O livro vale quando mistura informação e crítica, como no bem documentado ensaio de Inimá Simões sobre a censura nos tempos da ditadura. Erasmo Carlos foi denunciado como comunista por um araponga paulista por ter terminado a apresentação de uma de suas canções - Gatinha Manhosa? Me Acende? - com os punhos cerrados. Pior: o câmera que fechou os punhos em close também foi investigado. Tom & Jerry? Suspeitíssimos. Conteria o desenho mensagens subliminares perigosas à manutenção da paz e da tranqüilidade no país? A resposta do agente encarregado da investigação acalmou os belicosos. Não, muito pelo contrário. Significava, ah bom, a vitória do bem sobre o mal.

O livro mais festivo da safra é o de José Bonifácio de Oliveira, o Boni. Ele armou uma espécie de sofá da Hebe em 50/50 (Editora Globo, 325 págs.). Chamou 50 pessoas que considerou importantes na história dos 50 anos e pediu que cada uma contasse sua experiência. O resultado é quase sempre divertido, todo sempre a favor. Maurício Sherman lembra o tempo dos estúdios sem ar condicionado. Os cadáveres suavam. Os ricos em suas mansões suavam. Os russos na neve suavam. Max Nunes lembra Chacrinha dando um abraço tão forte num mágico que este imediatamente falou ao ouvido dele - e de milhões de telespectadores: ‘Mataste meu pombinho’. É também a oportunidade de nomes fundamentais na trajetória do veículo, mas nunca lembrados para entrevistas, como Joe Wallach, Mario Fanucchi, Luiz Eduardo Borgerth, Jorge Adib e Almeida Castro, prestarem contas do que ia nas salas de administração. Adilson Pontes Malta, responsável pela implantação do Projac, o monumental estúdio da Globo em Jacarepaguá, viu muita coisa e conta: um dia, histérico, o Boni quebrou o LP 2001-Uma Odisséia no Espaço, na cabeça do Risadinha, coitado, o operador de controle mestre. Como foi que depois disso tudo a Globo chegou à quarta rede mundial? Bem, isso é mais uma pergunta para os universitários.

Televisão é muito educativa, dizia Groucho Marx, porque sempre que alguém ligava uma ele pegava o livro. Agora, por um daqueles milagres que a gente torce para que salve também a Camila da leucemia, pode-se tentar ficar inteligente sem perder de vista, por exemplo, aquela deliciosa empregadinha, mulatinha, claro, que saracoteia na casa da Vera Fischer, em Laços de Família. Ela está, junto com Tia Nastácia, Mamãe Dolores, Toni Tornado, Ruth Cardoso e outros no livro A Negação do Brasil - O Negro na Telenovela Brasileira, de Joel Zito Araújo (Senac, 323 págs., R$ 24). Joel também não comemora os 50 anos, porque sabe que, negro, iria ralar na cozinha para que os brancos se divertissem no salão. Foi assim desde 64 até 97 em 174 novelas produzidas pela Globo e Tupi. Só papéis de escravos, empregados, mães de santo, sacis, capangas, motoristas, porteiros. Às vezes nem o papel de Pai Tomás dão aos negros. Em 1969, a Globo colocou Sérgio Cardoso para representar o próprio. O ator, branco, se pintava de preto e usava rolhas no nariz e atrás dos lábios para dar mais veracidade ao personagem. Os números recolhidos por Joel Araújo são intermináveis e chocantes: entre 80 e 97, 28 das 98 novelas da Globo não apresentaram qualquer ator negro. O padre preto de Pedra sobre Pedra, posterior, primou pelo particular.

E assim se passaram 50 anos e é justo, é justíssimo, como diria José Wilker, o prefeito Demóstenes em Fera Ferida, que se registre não só a alegria mas a dor desse período. João Loredo, um dos piooneiros do veículo, está lançando Era uma Vez a Televisão (Alegro, 264 págs., R$ 28,90). O clima é de nostalgia alto astral (que escola de humor foi o AEIOUrca na Tupi em 1965!) e curiosidades (você sabia que Luís Jatobá foi o primeiro rosto masculino a aparecer na televisão carioca?). Pelo lado da dor vem A Deusa Ferida - Por Que a Globo Nâo É Mais a Campeã Abosluta de Audiência, de Gabriel Priolli e Sílvia Simões Borelli (Summus Editorial, 264 págs., R$ 33). Onde foram parar os 16,5 pontos que a emissora perdeu nos anos 90?

Os autores acham que o ibope escapuliu pelo ralo junto com o desgaste do modelo novela-jornal-novela, a concorrência da TV paga, a navegação na internet e o aparecimento de novos hábitos socioculturais. É bom que seja assim. Novos canais, muitos livros e visões diferenciadas discutindo o que passa, passou e passará pela telinha. São 40 milhões de lares, quase 90% da totalidade nacional, ligados na televisão. Ela já foi a máquina de fazer doido, já foi criticada porque acabou com a janela. Aos 50 anos, quase a idade da Vera Fischer, a televisão acompanha o jeitão da musa. Já fez muita bobagem na vida, mas se o peito cai aqui, o silicone acerta ali; se o Ratinho baixa aqui, o Guel Arraes acerta ali; se o Gianecchini pisa na bola, ela pega o coroa peludão. O balanço é bom."



Patrícia D’Abreu

"Uma cinqüentenária na berlinda", copyright Jornal do Brasil, 2/12/00

"‘Este livro vem a público para ser uma anticomemoração’. A primeira frase de A TV aos 50: criticando a televisão brasileira no seu cinqüentenário resume o tom dos dez artigos coletados e organizados pelo jornalista e escritor Eugênio Bucci. Na contramão do ufanismo em torno de meio século de televisão brasileira, o livro reúne nomes como Esther Hamburger e Inimá Simões em uma proposta de reflexão crítica que passa longe da sinistrose em relação ao veículo. Mais que isso, a coletânea se destaca pela atualidade dos debates que propõe, como se antecipasse os questionamentos que, nas últimas semanas, mobilizaram o país no que diz respeito aos usos e abusos da TV nacional.

De início, Eugênio Bucci chama a atenção para duas premissas fundamentais na tarefa de pensar o veículo que responde pela atividade cultural básica do brasileiro: a função desestabilizadora do intelectual e o problema efetivo da participação da TV no processo democrático e na formação do imaginário nacionais. É isto o que abre as portas para que Gabriel Priolli aponte as diversas identidades nacionais excluídas pela televisão no artigo ‘Antenas da brasilidade’, que também desafia a TV a focar com responsabilidade seu imenso potencial na formação de uma identidade brasileira.

Ao abordar a nova dimensão da televisão após o golpe militar de 1964, o artigo ‘Nunca fui santa’, assinado por Inimá Simões, ilumina o debate atual em torno da suposta censura alardeada pelas emissoras abertas. ‘O sucesso das novelas diárias passa a gerar uma audiência cativa que cresce em progressão geométrica, com o caminho facilitado pela decisão do governo militar de montar uma infra-estrutura básica no setor de comunicações, que termina a médio prazo por universalizar a recepção de TV, encarada como instrumento estratégico desde o primeiro momento do novo regime’, explica Inimá. Eugênio Bucci, em ‘Antropofagia patriarcal’, complementa o debate, discutindo como o imaginário produzido pela TV segue a ditadura do capital, reprimindo em vez de libertar identidades.

Em ‘Política e novela’, as duas premissas apontadas por Bucci são levadas a cabo através da análise do gênero televisivo mais popular do país. Ao relembrar e reler a trajetória de O rei do gado - novela das 20h da Globo assinada por Benedito Ruy Barbosa que incorporou a luta pela reforma agrária, em 1996 - Esther Hamburger aborda as interpenetrações entre o ficcional e o cotidiano real e demonstra como o gênero participa da formação do imaginário coletivo e legitima os debates em pauta sem mobilizar ideologicamente o telespectador. ‘A intervenção explícita de O rei do gado no terreno da política institucional gerou repercussões expressivas. Mas essa incursão política não despertou reações viscerais entre telespectadores em suas casas. Temas controversos relativos a conflitos domésticos típicos da intimidade se mostraram mais apelativos. A maior parte dos telespectadores só expressou sua opinião sobre o problema agrário quando questionado’, analisa Esther. Em resumo, interessava menos aos telespectadores a luta da sem-terra Luana, ou do senador Caxias, que as brigas da perua Lea com o cafetão Ralf.

Longe dos símbolos sexuais, estrelas, tramas inesquecíveis e apresentadores lendários que escrevem o cinqüentenário acrítico da TV no Brasil, a coletânea de artigos aborda temas incômodos e seminais. A incomum excentricidade de um veículo que deveria se situar como prestador de serviço público; a deslavada vantagem que a televisão leva ao compartilhar a formação educacional dos indivíduos com a escola e a família; e sua participação na organização do espaço público da comunicação feita através da transformação do povo em massa de manobra dos setores dominantes são alguns dos temas avaliados e reavaliados. Ressalvando o ‘urgente e inadiável’ exercício de utilidade pública que toma forma através da crítica televisiva, Bucci resume: ‘Enquanto outros buscam motivos para festejar os êxitos, sucessos e astros da televisão brasileira - uma das maiores do mundo -, os artigos reunidos neste livro pensam problemas. A reflexão que eles propõem é o que mais nos falta’. (Patrícia D´Abreu é repórter da SuperTV do JB)



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