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QUALIDADE NA TV
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000
ASPAS
LAÇOS versus JUSTIÇA
Cristian Klein
"Justiça do Rio autoriza volta dos menores ao elenco da novela Laços de Família", copyright Folha de S. Paulo, 9/12/00
"Crianças e adolescentes que estavam proibidos de integrar o elenco da novela ‘Laços de Família’, da Globo, voltarão a gravar. A emissora obteve a autorização depois de pedir ao Ministério Público do Rio que suspendesse a proibição na Justiça.
O Ministério Público, que move ação contra a novela desde setembro, aceitou as argumentações na tarde de anteontem. Em seguida, a 1ª Vara da Infância e da Juventude ratificou o entendimento entre as partes.
O juiz-auxiliar Leonardo de Castro Gomes alterou a liminar que ele mesmo havia concedido ao Ministério Público no dia 5 de outubro. Mas a restrição ao horário da novela não foi modificada. A emissora ainda está obrigada a exibir ‘Laços de Família’ após as 21h.
A Globo enviou documentos ao Ministério Público, incluindo a declaração de frequência e o boletim de bom rendimento escolar dos atores mirins. A emissora também argumentou que o trabalho de crianças e adolescentes é sempre acompanhado por psicólogos, nutricionistas e pelos pais.
O Ministério Público aceitou o pedido ‘desde que (os menores) não assistam ou participem de cenas que contenham conotação sexual, exaltação da violência urbana ou doméstica, apologia ao crime ou a produtos que possam causar dependência química, discussões enfurecidas, favorecimento à prostituição ou qualquer outra situação não-mencionada que venha a pôr em risco o seu desenvolvimento físico ou psicológico’.
O juiz Leonardo de Castro Gomes concedeu o alvará permitindo o trabalho das crianças em jornada máxima de seis horas, até o limite das 22h.
O autor, Manoel Carlos, já escreveu as cenas em que o bebê Bruninho, filho da personagem Capitu (Giovanna Antonelli), volta à trama. Adriana Beltrão, mãe dos bebês Natã e Andrey, de 1 ano e 4 meses, que se revezam no papel, comemorou o retorno dos filhos às gravações. ‘Muitas pessoas nos deram apoio’, disse .
A 1ª Vara, no entanto, não pensa em voltar atrás na autuação contra Adriana e seu marido, Sandro Beltrão. ‘O entendimento entre a Globo e o Ministério Público não os isenta do que aconteceu’, disse o comissário Válter Gonçalves.
O casal é acusado de ter permitido que seus filhos repetissem uma cena 19 vezes, em revezamento, e de autorizá-los a participar das gravações do casamento dos personagens Edu (Reynaldo Gianecchini) e Camila (Carolina Dieckmann), que teriam durado das 17h às 3h numa locação externa.
Os outros menores que voltam à novela são Júlia Maggessi, 2 (Nina), Carla Diaz, 10 (Raquel), Samuel Melo, 11 (Tide), e Max Fercondini, 15 (Fábio).
O imbróglio jurídico entre a Globo e o Ministério Público poderá terminar na próxima terça. É quando as partes se encontram na 1ª Vara da Infância e da Juventude para tentar acordo. A Globo se comprometeria a obedecer um ‘termo de ajustamento de conduta’ e o Ministério Público retiraria a ação civil pública contra a emissora."
Carlos Chaparro
"Laços de Família, retórica do sexo", copyright America Online (www.americaonline.com.br), 6/12/00
"Imagine a seguinte situação: na sala onde a família assiste às telenovelas da noite, o filho de sete anos volta-se para você e pergunta: - Papai, o que é sexo oral?
Seria certamente uma situação inusitada, desconcertante. Mas que, em tempos de ‘Laços de Família’, poderá acontecer a qualquer momento. Poderá acontecer? Ora, ora, já acontece. Ouvi há dias, de pessoa confiável, o relato de um caso real em que o episódio se deu tal como se descreve acima. Não custa admitir que constrangimentos semelhantes ocorram por aí, em lares onde crianças estão sendo submetidas, pela televisão, a narrações recheadas de sexo e sexualidade, em dosagens cada vez mais intensas. E sem a mínima prudência educativa, quer na forma quer nas intenções.
Poder-se-á dizer, e com certa razão, que telenovelas do tipo ‘Laços de Família’ não são pensadas nem feitas para crianças. E que, portanto, terá de pertencer às famílias, sob critério delas, a responsabilidade de proteger a infância contra conteúdos inadequados. Com esse argumento, autores, diretores e atores lavam as mãos, louvando a sagrada liberdade de expressão.
Mas as coisas não são tão simples assim. Excluir as crianças das preocupações de quem inventa e faz telenovela não as retira dos sofás das salas. Nem as afasta do acesso à sexualidade abusiva e abusada da novelística de autores como Manoel Carlos, que escreve a atual novela das oito.
Mesmo que limitemos aos adultos o círculo dos envolvidos, não são poucas nem raras as reações de rejeição ou incômodo familiar, diante dos exageros para lá de eróticos que até recentemente deram tom e volume a ‘Laços de Família’. Sei de casas de veraneio e repouso onde se desfizeram as reuniões de famílias nas salas de TV, na hora da telenovela, por causa do mal-estar coletivo produzido pelas alongadas cenas de beijos lascivos, nos quais a língua de Vera Fisher, em incursões caprichosamente delineadas e detalhadamente filmadas, se tornou a mais exposta atração da história, ao longo de vários capítulos.
Por essas e outras, o ministro da Justiça (provavelmente apoiado em manifestações de protesto recebidas de pessoas, famílias e instituições incomodadas) chegou a propor que a novela mudasse para horário mais tardio, para afastá-la de crianças e adolescentes. Ao mesmo tempo, por causa de uma decisão judicial em que houve pleno direito ao contraditório, criou-se a polêmica em torno do trabalho de crianças na novela. Os dois fatos levaram a Globo a usar os seus artistas numa campanha em que, no papel de vítima, denunciava ameaças institucionais de censura, encenação conspiratória sem o menor sentido.
A verdade é que aquela foi uma fase de ‘Laços de Família’ em que o autor e o diretor da novela optaram claramente por uma estética de sacanagem, moldada ao gosto e à linguagem de certos grupinhos de Ipanema. Esqueceram eles que, para além de Ipanema, existe o Brasil por onde se espalham os 40 ou 50 milhões de telespectadores que garantem audiências e lucros às telenovelas. Nesse Brasil tão complexo quanto amplo, os valores e padrões são outros, bem diferentes dos de Ipanema.
O Ibope deve ter detectado os sinais de rejeição pipocando aqui e ali, na audiência brasileira. Do mesmo jeito, o mercado internacional tem dado à Globo, ultimamente, sinais concretos de que prefere telenovelas que não tenham a permissividade sexual como principal argumento. Por causa disso, a Globo vem perdendo fatias do mercado mundial para telenovelas mexicanas, mesmo sendo elas técnica e artisticamente inferiores às brasileiras.
Muito mais pela audiência ameaçada do que pelas eventuais pressões objetivas ou subjetivas do governo, de repente, e sem explicações, as incursões libidinosas da língua de Vera Fisher desapareceram da novela. Nas semanas mais recentes, sobre os ‘Laços de Família’ parece ter caído um manto de prudente recato. Em vez da retórica exacerbada do sexo, temos agora dramas humanos contados em lágrimas.
Fica assim comprovado que, além de desejável, a reação crítica do telespectador constitui-se o mais eficaz inibidor dos abusos da televisão. E essa é razão mais do que suficiente para se exigir que, nas políticas educacionais, para a cidadania do futuro, se delegue à escola a responsabilidade de formar cidadãos\ aptos para uma relação crítica com a televisão e as demais mídias.
Em termos mais imediatos, e no caso concreto de ‘Laços de Família’, espera-se que Manoel Carlos tenha enfim descoberto que uma telenovela não é somente uma obra de técnica e arte (quando o é), para a diversão, muito menos um texto que só compra quem quer. É principalmente discurso irradiado em difusão aberta, uma intervenção na sociedade que atinge milhões de pessoas, com a clara intenção de influenciá-las. Por cujos efeitos, portanto, o autor do discurso tem de sentir-se responsável.
Nas inevitáveis reflexões das madrugadas de insônia, alguma vez Manoel Carlos pensou (por exemplo) que, com os muitos e fáceis dólares mostrados em cenas de revelação da personagem, pode ter incentivado a criação de Capitus no Brasil real? E que essa pode ser hoje uma preocupação dramática de muitos pais? (Carlos Chaparro é professor de jornalismo da Universidade de São Paulo - USP)"
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