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QUALIDADE NA TV
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000
ASPAS
MEXICANIZAÇÃO GLOBAL
Clarisse Meireles
"Disputa pelo brega", copyright Isto É, edição 1627
"Nada de olhar sedutor, sorriso perfeito e corpo cheio de curvas emoldurado por roupas sensuais. A atual sensação nas tevês hispânicas é uma moça feíssima, com um par de óculos fundo de garrafa e um horrendo aparelho nos dentes. Para completar o susto, usa uma franja bizarra e figurinos para lá de ultrapassados. Seu nome é Beatriz Pinzón, ou simplesmente Betty, a feia. Betty é protagonista da novela colombiana Yo soy Betty, la fea, produzida pela emissora RCN, que começou a exibi-la em outubro do ano passado. A novela é o que se pode chamar de fenômeno. Além da Colômbia, é exibida nos Estados Unidos, Chile, Argentina, Bolívia e Equador, entre outros países. No momento, é a maior audiência do Canal 13, do Chile, e do Telemundo, canal americano voltado para o público latino. Mas o melhor deste frenesi é que, numa estratégia de marketing contra o SBT - que costuma arrebanhar ótimas audiências com novelas enlatadas do gênero -, a Rede Globo, sentindo o cheiro do sucesso, numa ação inesperada apressou-se em comprar Yo soy Betty, la fea por apenas US$ 100 mil, preço aproximado de um capítulo do folhetim das oito.
No entanto, a operação da Globo - que desde a década de 60 não negociava uma novela estrangeira - não dará chance aos brasileiros de conhecer a saga da economista desprovida de beleza, que conquista o coração do dono da empresa onde trabalha graças à sua inteligência e sensibilidade. Emprego só conseguido, diga-se, por ter mandado seu currículo sem uma foto anexada. Mesmo de posse dos 260 capítulos, a Globo quer manter Betty, la fea engavetada. No máximo irá adaptá-la, como afirma Luís Alberto Simonetti, diretor de vendas internacionais da Rede Globo. ‘O projeto ainda está muito prematuro, mas acho que tem cara de novela das sete. Agora, exibir no original, nem pensar. Teria que ser dublado, o que soa absurdo, não é a cara da Globo’, diz ele. A manobra radical, portanto, só confirma que havia uma preocupação da emissora com a possibilidade de este grande hit chegar às mãos do SBT, cuja direção nega o interesse por Betty. Dizem estar satisfeitos com o pacote de novelas comprado da Televisa.
Rumores à parte, deve-se destacar o mérito da colombiana RCN de subverter a máxima de que numa novela a protagonista deva ser linda de morrer. Ana María Orozco, a atriz que interpreta Betty, sem a maquiagem da personagem está a quilômetros da feiúra. Mas ao desempenhar o seu papel, redime as feinhas. Também recuperou o prestígio da beleza interior. Resta saber se, para manter o amor do chefe bonitão, Betty, a feia, não vai apelar para os mesmos recursos das starlets brasileiras e se transformar em Betty, a siliconada."
RAUL GIL & JABACULÊ
Ricardo Valladares e Rogerio Montenegro
"O sucesso custa caro", copyright Veja, 6/12/00
"O famigerado jabaculê não é nenhuma novidade nas televisões. Funciona assim: para tocar num programa de auditório, um músico oferece uma ‘lembrancinha’ ao apresentador, ou então se sujeita a condições impostas por ele. Não é uma prática ilegal, mas também não tem nada de ética. O espectador é ludibriado, já que não é informado de que o artista pagou para subir ao palco e receber elogios de um formador de opiniões. De vez em quando alguém abre o bico e cria uma bruta confusão em torno do assunto. Foi isso o que aconteceu na segunda-feira passada, no programa do radialista Paulo Lopes, da Globo AM. Durante uma entrevista, o sertanejo Zezé Di Camargo acusou o apresentador Raul Gil, da Rede Record, de ser ‘jabazeiro’. Raul revidou no dia seguinte, afirmando que Zezé ‘só poderia estar bêbado ao dizer aquilo’. Será?
Aberta a brecha, outros artistas se dispuseram a dizer que Raul Gil cobra mesmo. Ricardo Maia, ex-cantor do grupo Polegar, atualmente em carreira-solo, afirma que Wagner Sales, empresário de Raul, pediu um ‘acerto’ de 6.000 reais para escalá-lo na programação de um sábado. ‘No Polegar eu fiz muitas caravanas de graça para o Raul’, esbraveja Maia. ‘É um absurdo pagar agora.’ De Alagoas surgem duas acusações. O comerciante Elzio Leal, pai de dois integrantes do obscuro grupo de pagode Malcriados, diz ter negociado no começo do ano, com o produtor Renan Torres, que faria contatos em nome de Raul Gil, uma apresentação na Record pelo valor de 21.000 reais. Músicos de outra banda de axé, a Cobra Criada, afirmam que o mesmo Renan Torres cobrou 15.000 reais para agendar cinco apresentações. ‘Ele colocou a gente no ar uma vez, em fevereiro, mas depois não conseguiu mais’, reclama o empresário do grupo, André Normande.
A direção da Record diz que vai apurar as denúncias. Raul Gil se defende. ‘Esse tal de Cobra Criada tocou aqui por indicação dos bispos’, afirma. ‘Eu só apresentei a atração que os donos da emissora recomendaram.’ Ele reconhece que aceitou jabá uma vez, nos idos de 1978, na extinta TV Tupi. Depois disso, ‘nunca mais’, apesar de a tentação ser forte. Quanto à acusação de Zezé Di Camargo, Raul acredita que tudo se deva a um mal-entendido. É que em 25 de novembro ele recebeu em seu palco, como convidado do quadro Para Quem Você Tira o Chapéu?, o homem do sapato branco Jacinto Figueira Júnior. Este último criticou Zezé Di Camargo como sendo ‘mão de vaca’. Raul não se preocupou em colocar panos quentes na história.
Quase todos os apresentadores famosos já enfrentaram denúncias de jabaculê. Chacrinha e Bolinha tiveram esquemas expostos. ‘Mais recentemente correram boatos sobre Alberto Luchetti (ex-diretor do Domingão do Faustão), Roberto Manzoni (diretor do Domingo Legal) e Ratinho’, lembra o próprio Raul. Tudo sempre acaba em pizza, até porque os artistas e suas gravadoras não têm interesse em fechar portas na televisão. No final da semana passada, como era previsível, a briga de Zezé Di Camargo e Raul já havia amainado. Num encontro, os empresários de ambos decidiram que ninguém mais comentaria o caso. O pessoal do jabá agradece."
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