|
QUALIDADE NA TV
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001
ASPAS
OS MAIAS
Daniel Castro
"Globo abafa crise na minissérie ‘Os Maias’", copyright Folha de S. Paulo, 12/01/01
"O acidentado capítulo de estréia da minissérie ‘Os Maias’, a mais cara já produzida pela Globo, acabou afugentando o público. O segundo episódio, anteontem, teve média de 25 pontos no Ibope na Grande São Paulo, contra 22 do SBT. Os números frustraram a expectativa da emissora, de audiências superiores a 30 pontos.
Quando entrou no ar, às 22h17 de quarta, a minissérie registrou uma fuga de cerca de 1,7 milhão de espectadores na Grande São Paulo. A audiência da emissora caiu, em um minuto, de 52 pontos (com ‘Laços de Família’) para 39.
O capítulo de estréia foi acidentado porque o diretor da minissérie, Luiz Fernando Carvalho, não conseguiu finalizá-lo a tempo. O episódio foi ao ar com 20 minutos a menos e com problemas de sonorização -quase não se ouviam o narrador e os sons dos ambientes. O programa foi (e continua sendo) gerado diretamente dos estúdios, no Rio. Está sendo finalizado no dia em que vai ao ar.
Ontem, circularam rumores de que Carvalho teria sido afastado da direção, o que a Globo nega.
A emissora também nega que as gravações estejam atrasadas. Entretanto cenas do primeiro capítulo, mas que só foram exibidas anteontem, foram gravadas no último dia 4. Desde outubro, Carvalho vem gravando só três ou quatro cenas por dia, e algumas têm sido refeitas até 16 vezes, encarecendo a minissérie, que, oficialmente, custa R$ 9,7 milhões."
Cristian Klein
"‘Os Maias’ quer dar a Eça ares de cinema", copyright Folha de S. Paulo, 9/01//01
" A minissérie ‘Os Maias’ estréia hoje na Globo com uma missão especial: oferecer biscoito fino para as massas. A história, baseada no livro homônimo do escritor português Eça de Queirós, terá 44 capítulos. A direção é de Luiz Fernando Carvalho. A adaptação, de Maria Adelaide Amaral.
‘Quero fazer uma obra ‘assistível’, mas sem banalizar ou vulgarizar o romance. O maior objetivo é trazer o público para a minissérie. Não o contrário’, afirma Maria Adelaide Amaral.
No elenco da produção, encabeçado por Ana Paula Arósio e Fábio Assunção, há uma série de atores veteranos, como Walmor Chagas, José Lewgoy, Stênio Garcia e Myrian Muniz.
‘Gosto de textos que exijam do ator que eles conheçam a palavra, que não sejam só carinhas bonitinhas. Daí o peso do elenco’, justifica o diretor, Luiz Fernando Carvalho, cuja carreira ficou marcada por novelas visualmente bem cuidadas, como ‘Renascer’ (1993) e ‘O Rei do Gado’ (1996/1997).
Para Maria Adelaide Amaral, a linguagem da minissérie terá mais a ver com o cinema do que com a televisão. ‘O próprio Walmor (Chagas) disse que ‘Os Maias’ é Visconti vezes 44 (capítulos)’, contou, fazendo alusão ao cineasta italiano (1906-76).
A autora, que também escreveu a minissérie ‘A Muralha’, exibida no ano passado, afirma que é sempre difícil adaptar um romance. Mas a tarefa agora será mais complicada.
‘Com ‘A Muralha’, desloquei o tempo histórico, mudei passagens sem o menor remorso ou escrúpulo, porque é um bom livro, mas não se compara a ‘Os Maias’, que é uma obra-prima’, disse.
Trabalho refinado
Para Amaral, minisséries são oportunidades raras de realizar um trabalho denso. Geralmente pode-se gastar três, quatro dias para escrever um capítulo, enquanto um autor de novela tem apenas um dia.
A diferença de orçamento também garante melhor acabamento. O orçamento médio de um capítulo de novela é de R$ 100 mil. O de uma minissérie é o dobro: R$ 200 mil. ‘Os Maias’ estourou em 10% esse orçamento e custou quase R$ 10 milhões no total.
É a produção da Globo que passou mais tempo sendo gravada fora do Brasil. Durante seis semanas, o elenco e a equipe técnica estiveram em várias cidades de Portugal. Tudo para evitar ao máximo o clima artificial de estúdio.
‘Os Maias’, publicado em 1888, tem como pano de fundo a decadência da aristocracia portuguesa no fim do século 19. No centro da trama estão Carlos da Maia (Fábio Assunção) e Maria Eduarda (Ana Paula Arósio, de visual novo, com cabelos pintados de loiro e lentes de contato castanhas). Os dois se apaixonam sem saber que são irmãos.
O casal ignora o fato porque a mãe dos dois, Maria Monforte, (Simone Spoladore, em sua estréia na TV) abandona o marido, Pedro da Maia (Leonardo Vieira), levando na fuga Maria Eduarda e deixando o primogênito Carlos com o pai."
Esther Hamburguer
"Minissérie ‘Os Maias’ tem início com capítulo um pouco irregular", copyright Valor Econômico, 11/01/01
"Uma primeira sequência ousada, longa e contemplativa, um miolo de capítulo difícil e, ao final, a introdução de ação que promete. Assim, um pouco irregular, foi a estréia de ‘Os Maias’ anteontem. Uma adaptação literária de um clássico da literatura portuguesa, uma superprodução com pretensões cinematográficas, no atual panorama -de busca de alternativas para a teleficção-, o trabalho aposta na grandiosidade.
O olhar nostálgico e emocionado de Carlos da Maia (Fábio Assunção) sobre o casarão abandonado de seu avô, o patriarca da Maia, introduziu a minissérie com raro primor cenográfico e de iluminação. A memória do filho introduz a saga do pai, Pedro da Maia, cuja complexidade não conseguiu vencer as limitações da telinha. Reduzido à melancolia regada a muitas lágrimas, Pedro não cativa. Ao menos até que inicia o romance proibido que insemina a narrativa.
Com seis semanas de gravação além-mar, ‘Os Maias’ se passa no estrangeiro. Os da Maia se apresentam como os que acreditaram, mas não conseguiram, mudar um país, que não é o Brasil. No texto de Eça de Queirós, o Brasil, e principalmente as brasileiras, mãe e filha, vem carregado de significações exóticas que estruturavam a imaginação do império. Será interessante observar a antiga metrópole colonial representada em uma produção da ex-colônia, que, ironicamente, aliás, se especializou nas artes do espetáculo televisivo, invertendo o sentido do fluxo de produtos culturais.
Será curioso ver como os portugueses, ávidos consumidores dos produtos dessa economia, que desfrutam da manufatura de imagens ‘made in Brazil’, um pouco como consumiram a madeira, o açúcar, o ouro e o café da colônia, apreciarão a apropriação.
O desafio em uma adaptação literária para a TV é ir além das oposições básicas que estruturam a narrativa -e vale observar que dentre as inúmeras possibilidades de textos a serem adaptados, a escolha muitas vezes recai sobre obras de base melodramática.
Aquele olhar fatal que dá início ao romance, o apelido ‘a negreira’, a fala em que a jovem senhorita de peito arfante declara sua preferência pelas touradas espanholas, já que em Portugal haveria pouco sangue, são características que vão compondo a personagem mãe, em oposição ao caráter frágil e chorão do pai. Cabe aguardar que a caracterização se enriqueça, compondo um tecido capaz de especificar a profundidade dramática de um personagem em sua implicação histórica múltipla.
Mais do que o orçamento milionário, vale esperar a densidade dramática do texto de Maria Adelaide Amaral, a direção de Luiz Fernando Carvalho e a performance de um elenco que inclui Matheus Nachtergaele, José Lewgoy, Walmor Chagas e Myriam Muniz, atriz que honra, com sua presença, o universo da telinha."
Volta ao índice
Qualidade na TV – próximo texto
Qualidade na TV – texto anterior

|
|