QUALIDADE NA TV

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001


ASPAS

Beatriz Coelho Silva


"A refinada decadência burguesa", copyright O Estado de S. Paulo, 6/01//01

"A escritora Maria Adelaide Amaral convive com o universo de Eça de Queirós desde criança. Portuguesa de nascimento, conheceu sua obra aos 12 anos e conta que, por volta dos 18, já tinha lido tudo, ‘inclusive aqueles títulos desaconselhados para moças, como O Crime do Padre Amaro’. Por isso, ela sempre se considerou a pessoa mais adequada para adaptar Os Maias para a televisão e é seu trabalho que a Globo começa a exibir a partir de terça-feira, às 22 horas, em mais uma minissérie nacional. ‘Só que a Glória Perez tinha proposto antes’, conta a escritora. ‘Minha sorte é que ela desistiu porque resolveu escrever uma novela este ano.’

A adaptação começou em março do ano passado, quando Maria Adelaide terminou a minissérie A Muralha, outro trabalho de época, baseado no romance de Dinah Silveira de Queirós. ‘Li toda a obra do Eça, inclusive crônicas e sua correspondência, porque queria ser totalmente fiel a seu espírito e também à sua sintaxe’, conta a escritora. ‘Foi mais trabalhoso que difícil porque a linguagem teledramatúrgica tem regras próprias. Incluí, por exemplo, tramas e personagens de outros dois romances, A Relíquia e A Capital, num núcleo de humor, fundamental em televisão.’

Para a autora, esta mistura pode desagradar admiradores mais ortodoxos de Eça de Queirós, mas o risco era necessário porque, para acompanhar o desenrolar do romance de Carlos e Maria Eduarda, o público precisa de pausas para respirar. Maria Adelaide entregou a tarefa de trabalhar nesses núcleos a seus dois colaboradores, João Emanuel Carneiro e Vincent Villari, que escreveram também A Muralha, e fez a edição final do texto.

Voz de Eça - ‘Eles enriqueceram a história, mas eu escrevi os diálogos definitivos devido à minha intimidade com a sintaxe portuguesa, diferente da brasileira’, explica. ‘O sotaque dos atores, no entanto, é brasileiro porque o público não entenderia o idioma falado em Portugal.’ Depois de cortes e fusões, chegaram ao incrível número de 52 personagens. Maria Adelaide decidiu também que a voz do escritor narra a trama (função entregue ao ator Raul Cortez). ‘É para o público não esquecer de que é ele quem conta a história’, justifica.

Depois de ler uma série de estudos sobre a obra de Eça de Queirós, a escritora e o diretor Luiz Fernando Carvalho viajaram para Portugal, onde encontraram conhecedores ilustres do autor, como Carlos Reis, diretor da Biblioteca de Lisboa. Visitaram também os cenários onde a história se desenvolve. ‘Assim, viramos Lisboa de cabeça para baixo, estivemos em Sintra, Leiria, Coimbra, Porto e Douro, onde a quinta da família foi transformada na Fundação Eça de Queirós’, conta Maria Adelaide. ‘Fomos ainda à Vila do Conde e Póvoa do Varzim, onde o escritor nasceu e foi batizado.’

O estilo de Eça de Queirós, especialmente neste romance, facilita a adaptação e atrai o público. ‘Trata-se, na verdade, de um melodrama deliciosamente bem escrito, com um pano de fundo realista, que retrata impecavelmente a sociedade e os vícios morais portugueses no século retrasado’, adianta a escritora. ‘Essa junção de melodrama com realismo agudo torna o romance tão envolvente. Estou certa de que o público vai amar e, espero, que compre o livro correndo.’ Maria Adelaide conta que não foi influenciada por Eça como escritora, mas adquiriu um olhar semelhante ao analisar pessoas e fatos, especialmente da realidade portuguesa.

Para a escritora, Os Maias retrata a sociedade portuguesa do século 19 por meio de situações que cercam os personagens. Como o universo do romance é masculino e o público de televisão é feminino, Maria Adelaide decidiu ampliar alguns papéis vividos por mulheres. (Colaborou Ubiratan Brasil)"

 

Keila Jimenez


"Atraso e confusão na estréia de ‘Os Maias’", copyright O Estado de S. Paulo, 12/01/01

"Uma confusão provocada pela lentidão na edição do primeiro capítulo da minissérie Os Maias prejudicou o lançamento da superprodução da Globo.

Por volta das 20 horas de terça-feira, o diretor-geral da série, Luiz Fernando Carvalho, comunicou à direção da emissora que apenas 16 minutos do capítulo de lançamento estavam prontos para ir ao ar. Era menos da metade. O anunciado ‘capítulo especial de estréia’, teria uma duração de 50 minutos - sem contar intervalos. Por conta do atraso, pouco mais de 20 minutos foram ao ar.

A diretora-geral da Globo, Marluce Dias da Silva, desesperou-se e chegou a perder o controle emocional de um modo nunca visto desde que chegou à emissora, há três anos. Ela ordenou que a minissérie fosse ao ar do jeito que estava.

O perfeccionismo do diretor com o acabamento - usou recursos que dão ao videoteipe um aspecto de película - foi a justificativa apresentada à direção da emissora pelo atraso. Luiz Fernando Carvalho não conseguiu nem comparecer à festa de lançamento de Os Maias, na segunda-feira, no Consulado Português, no Rio. Envolvido com a edição de todas as cenas gravadas em Portugal, Carvalho virou a noite tentando editar e sonorizar o material.

Alavancado pela campanha promocional e pela expectativa habitual diante de uma estréia, o primeiro capítulo registrou boa audiência, mesmo com apenas 22 de minutos de exibição: foram 32 pontos de média, com 39 de pico. O segundo capítulo, no entanto, sofreu os efeitos da ressaca da estréia.

Igualmente anunciado como ‘especial’, não atraiu a mesma platéia da véspera, registrando 24 pontos de média, contra 22 do Show do Milhão, no SBT.

O blecaute que atingiu alguns bairros da zona sul de São Paulo, cidade onde se concentra a maior fatia do mercado publicitário, na noite de terça, veio bem a calhar. Serviu, para a Globo, como justificativa aos anunciantes sobre a frustrante estréia.

O atraso na produção da série não se resume ao trabalho de pós-produção. Até segunda-feira passada, a atriz Simone Spoladore ainda não havia gravado a cena em que sua personagem, Maria Monforte, deixa a história. Detalhe: a seqüência está prevista para o sexto capítulo.

Iniciadas em outubro passado, com boa frente em relação à estréia, as gravações correm em câmera lenta.

O efeito artístico compensa, é verdade - logo se vê pelo mérito de extrair expressividade nunca antes vista em atores como Fábio Assunção e Leonardo Vieira. Mas se a Globo oferece recursos cobiçados por qualquer cineasta, também exige um ritmo industrial que se reflete nos altos custos de seus espaços publicitários.

A Central Globo de Comunicação nega que a confusão tenha resultado em demissões."

 

Elena Corrêa


"Linguagem poética que remete à outra época", copyright O Globo, 11/01/01

"Não vai muito longe a diferença entre ler e ver uma obra de Eça de Queiroz. Pelo menos foi essa a sensação provocada anteontem na estréia da minissérie ‘Os Maias’, da Rede Globo, baseada no romance homônimo do escritor. As primeiras cenas mostram logo que a autora Maria Adelaide Amaral cumprirá a promessa de ser fiel ao original. O passeio de Carlos da Maia (Fábio Assunção) e João da Ega (Selton Mello) pela Casa do Ramalhete e o momento em que é descortinado o retrato de Pedro da Maia (Leonardo Vieira) dão a introdução perfeita da história ambientada no século XIX. A direção de Luiz Fernando Carvalho é inconfundível. Destaque para o jogo de luzes, passando de claro para escuro, no interior do Ramalhete, que deu um tom intimista ao momento dos personagens.

Mais uma vez dirigido por Luiz Fernando Carvalho, que o lançou na televisão como o coronelzinho de ‘Renascer’, Leonardo Vieira mostrou ter merecido a escalação para um papel de destaque na minissérie. E o diretor parece ter acertado em mais uma nova aposta: Simone Spoladore, que brilhou em sua primeira aparição em cena como Maria Monforte, espanando languidamente seu leque e lançando um olhar profundo a Pedro da Maia. Há cena mais folhetinesca do que aquela em que os dois se vêem pela primeira vez numa tourada? Mais tarde, na taberna, no lugar de vinho do Porto, o poeta Alencar (Osmar Prado) pede champanhe. Dá a conta de que se trata de uma produção luxuosa. O esmero no figurino e cenários agrada a qualquer telespectador que aprecie trabalhos de época. Principalmente sendo ela embalada pela cuidadosa trilha sonora, romântica e erudita.

A narrativa rebuscada pode despertar dúvidas sobre o entendimento de um público acostumado a textos populares. Mas, até que ponto deve-se subestimar a inteligência de cada um diante de uma atração de qualidade? Nesse ponto, ponto para a coragem de se brindar a sensibilidade que há em cada telespectador com uma história, acima de tudo, poética. Só deve-se ter cuidado para que a lentidão dos acontecimentos não afugentem os menos insones."



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