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QUALIDADE NA TV
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001
ASPAS
Carlos Reis
"Riscos de adaptar Os Maias", copyright Folha de S. Paulo, 7/01//01
"Num determinando momento de ‘Os Maias’, Pedro da Maia irrompe pelo quarto de Maria Monforte e conta um acidente de caça: um tiro por ele disparado acertara num participante na caçada, exilado italiano refugiado em Portugal. É nesse contexto que Pedro desabafa: ‘Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz íntimo, de confiança! Até a gente se ria. Mas não, zás, logo o outro, o de cerimônia...’.
Não se sabe o que pensaria Alencar dessa hipótese, mas isso pouco importa. A questão que agora desejo abrir se coloca assim: o que seriam ‘Os Maias’ se as coisas tivessem acontecido como Pedro da Maia deseja, quer dizer, se o tiro tivesse mesmo acertado em Tomás de Alencar? Certamente o romance seria bem diferente ou até, para sermos mais drásticos, nem sequer haveria romance.
Isso desafia ainda um outro exercício, mais arriscado e de desfecho imprevisível: o exercício de reescrita de ‘Os Maias’, a partir da confirmação daquela possibilidade, ou seja, tendo o tiro acertado em Alencar. Nada impede que alguém o faça, alguém que, desse modo, estará ousadamente a repensar (e a reelaborar) uma parte da memória cultural portuguesa, naquele aspecto preciso em que essa memória cultural se constrói também a partir da relevância canônica de um relato com o alcance e com a projeção de ‘Os Maias’. Nada que nunca tenha sido feito (mas não, que eu saiba, em relação a ‘Os Maias’), sendo sabido que um discurso pós-moderno se enuncia também em razão da provocatória interrogação da legitimidade das grandes narrativas que estruturam o nosso imaginário, resultando essa interrogação na resposta (por vezes paródica) dada por uma nova narrativa, uma nova interpretação do que parecia sedimentado, e pelo recurso, nessa resposta, a linguagens, a pontos de vista, a desenvolvimentos da história (e mesmo da História) e a imagens radicalmente subversivas.
Desvio do tiro
Não são obrigatoriamente dessa ordem os problemas que se colocam quando refletimos acerca da adaptação a outra linguagem de um romance como ‘Os Maias’. Mas isso não impede que, no campo de ação dessa linguagem, se postule a possibilidade de movimentos como o daquele desvio de tiro, sobretudo quando estamos não perante uma adaptação, no sentido mais rigoroso e ‘servil’ do termo, mas perante uma obra inspirada em ‘Os Maias’. É assim que se anuncia a série de 44 episódios, em produção pela Rede Globo, a partir de um roteiro de Maria Adelaide Amaral, que estréia na terça-feira.
Antes de prosseguirmos, convém lembrar que tentativas de adaptação (assim mesmo assumidas) de ‘Os Maias’ foram já feitas e mesmo, antes de mais, pelo próprio Eça de Queirós. No espólio queirosiano que está na Biblioteca Nacional há um manuscrito que é a tentativa do escritor para estruturar, em traços largos, uma versão teatral de ‘Os Maias’ que ficou, aparentemente, sem outra continuidade que não fosse a escrita de um diálogo dramático, já consistente enquanto tal; depois disso, José Bruno Carreiro escreveu uma adaptação para teatro, representada pela primeira vez quando do centenário do nascimento do escritor, em 1945; e, há alguns anos, Ferrão Katzenstein assinou uma realização televisiva do romance, em quatro episódios, realização salvo erro fundada na peça de Bruno Carreiro. Tanto num caso como no outro as críticas estiveram longe de ser eufóricas.
Quanto ao cinema, nada. Faltou certamente, até hoje, a capacidade de investimento financeiro, mas também de dimensão produtiva e de criatividade artística para passar à tela o enquadramento epocal, a densidade dramática e mesmo, em alguns aspectos, a beleza plástica de uma história como a de ‘Os Maias’, que desafiaria um Visconti de outros tempos (o de ‘O Leopardo’) ou o Scorsese de ‘A Idade da Inocência’.
No caso da televisão e da Rede Globo em particular não falta investimento, como não falta dinâmica à produção nem exigência artística. Trata-se, como se sabe, de uma das mais poderosas empresas privadas de televisão do mundo; mas, pelo fato de a Globo ser uma entidade com propósito comercial, uma série inspirada em ‘Os Maias’ resulta inevitavelmente de delicados equilíbrios entre exigência artística e pragmatismo econômico, ou seja, necessidade de captar audiências. Nada que tenha impedido a Globo de, a par de telenovelas de puro divertimento e de vasta recepção, ter produzido também telenovelas ou séries de fundo histórico com grande rigor e refinada qualidade artística: foi o caso de ‘A Muralha’, recentemente exibida em Portugal e assinada pela mesma Maria Adelaide Amaral que é também autora do roteiro de ‘Os Maias’.
Identificação epocal
E, contudo, no caso de ‘Os Maias’ não basta dispor de um bom roteiro. Por razões que não vêm ao caso, tive oportunidade, nos últimos tempos, de acompanhar alguns aspectos da produção de ‘Os Maias’. Posso, por isso, testemunhar o cuidado quase obsessivo que está a ser posto na reconstituição de cenários, de adereços, de figurinos e de tudo o mais que pode incutir à realização (de Luiz Fernando Carvalho) uma autenticidade e uma identificação epocal acentuadíssimas.
Para além disso, pude visitar o centro de produção da Globo, instalado nos arredores do Rio de Janeiro, uma espécie de ‘cidade’ constituída por um impressionante conjunto de equipamentos e de recursos humanos, com uma dimensão e com um profissionalismo desconhecidos entre nós. Foi aí que tive um encontro de trabalho com os cerca de 50 atores que formam o elenco de ‘Os Maias’, a maioria deles figuras consagradas em telenovelas comerciais, que fazem da participação nessa produção um momento de refinamento artístico que em outros casos não lhes é exigido.
Pois bem: o que mais me impressionou nesse encontro foi o interesse e a concentração com que todos estão a procurar (nesse e noutros encontros de trabalho similares) interpretar ‘Os Maias’, isto é, aprofundar, antes de mais, a leitura do texto, indagar os seus sentidos, particularmente no que toca às personagens; seguem-se aulas de expressão corporal e de dicção, visando diretamente aos protocolos sociais e discursivos do tempo histórico do romance; só depois se está pronto para enfrentar a câmara.
Ignoro se em casos similares ocorridos em Portugal são ou foram chamados estudiosos das obras e das épocas em causa (sejam elas quais forem) para intervenções como a que me foi solicitada. Provavelmente entre nós se entende que isso não é necessário; no caso de aqui falo, posso testemunhar a total concentração e mesmo a surpreendente humildade de atores (alguns com muitos anos de carreira) dispostos a escutar a exposição feita, a questionar e a opinar acerca do que ouviram. É caso para dizer que, por uma vez, o jornalista Melchior de ‘A Capital!’ falava a verdade quando aplicava um certo adjetivo a um determinado ator: ‘O estudioso ator Cordeiro’.
Missão impossível
É claro que, com tudo isso (ou apesar de tudo isso), ‘Os Maias’ na televisão enfrentam os riscos de uma missão impossível. Antes de mais, haverá por certo uma resistência inicial do espectador português (como aconteceu com ‘O Primo Basílio’, há anos) relativamente ao sotaque brasileiro com que nos falarão Afonso da Maia e Eusebiozinho, Maria Eduarda e Palma Cavalão, Carlos Eduardo e João da Ega; penso, contudo, que a habituação (a competência narrativa, se pode dizer) do espectador de telenovelas e de séries brasileiras rapidamente neutralizará esse ‘handicap’.
Mais arriscadas são outras opções cujos efeitos, de momento, não é possível antecipar. Ao reescrever os seus ‘Maias’, Maria Adelaide Amaral não desvia o tiro para acertar em Alencar, mas anda perto; com efeito, se sabe já que aparecem também, nesses ‘Maias’, Teodorico Raposo, Artur Corvelo e uma ou outra espanhola saídas de ‘A Relíquia’ e de ‘A Capital!’. As explicações (mais do que justificações) que logo ocorrem têm que ver com a necessidade de ‘enganchar’ o espectador em episódios e em figuras mais burlescas, mais cômicas e mesmo mais vistosas (é o caso das espanholas) do que as que se encontram em ‘Os Maias’.
A isso se deve também acrescentar outra coisa: perante um roteiro escrito a partir de um romance subintitulado ‘Episódios da Vida Romântica’, pode não ser tão chocante como à primeira vista parece (e parece mesmo) a integração de outros ‘episódios’ representando, por meio de personagens provindas de outros relatos, a mesma ‘vida romântica’ que em ‘Os Maias’ (no romance) se acha ilustrada.
Eça de Queirós, não o esqueçamos, chegou a projetar um conjunto de 12 novelas, com a designação de ‘Cenas da Vida Portuguesa’. ‘Os Maias’ e ‘A Capital!’ deveriam integrar essa série; e nela as personagens não teriam que ficar cativas da história que lhes cabia, pois a composição de ‘cenas’ poderia implicar uma circulação de figuras, de relato para relato, como a que caracterizava os modelos balzaquiano e naturalista (designadamente zoliano) de séries romanescas em que se ilustrava a vasta e multifacetada vida social oitocentista. São essa vida social e a atmosfera mental e cultural envolvente que, sem prejuízo da fidelidade à intriga, têm que ser contempladas quando uma série de televisão se inspira num romance consagrado. Se isso for conseguido, estará ganha uma parte importante do desafio.
O romance ‘Os Maias’ (que está sendo relançado pelas editoras Nova Alexandria e Ediouro) constitui a cúpula da ficção queirosiana, momento criativo culminante em que o romancista, como ele mesmo disse, quis pôr tudo o que em si tinha como artista. Essa série, numa outra linguagem, num outro tempo e também à luz de valores, de critérios e de expectativas receptivas que não são já os do século 19, pode revitalizar o romance, junto do público imenso que consome ficções televisivas. Se for assim, estará, em parte, cumprida a segunda missão impossível, não menos arriscada do que essa outra missão impossível que é a que consiste em ensinar ‘Os Maias’ na escola. Para além disso, confirmar-se-á que a televisão (e particularmente a televisão brasileira) pode prestar um grande serviço à língua e à cultura portuguesa, não só por ser uma televisão falada em português, mas sobretudo (e antes de tudo) por ser televisão bem-feita. (Carlos Reis é diretor da Biblioteca Nacional de Portugal e autor de, entre outros, ‘Estudos Queirosianos’ (Editorial Presença))"
Gabriela Goulart
"Estréia encurtada", copyright Jornal do Brasil, 12/01/01
"Não foi gratuita a impressão de que o o primeiro capítulo da série Os Maias, que começou a ser exibida terça-feira pela Globo, pareceu mais lento e arrastado do que se esperava - mesmo com a rubrica do diretor Luís Fernando Carvalho, conhecido por seus planos longos. Anunciado como especial e programado para ir ao ar com duas horas de duração, o capítulo acabou dividido entre o primeiro e o segundo dia da série, entrou na grade com apenas uma hora e provocou o aumento do Jornal nacional e a antecipação do Jornal da Globo. A Globo afirma que a redução estava prevista e foi intencional para apresentar a estética da série. Fontes ligadas à direção da emissora, no entanto, garantem que não houve tempo para finalizar o capítulo especial de estréia.
De acordo com a Central Globo de Comunicação (CGCom), isto aconteceu porque o diretor da série queria um primeiro capítulo conceitual e estético, que apresentasse a linguagem da série e o especial com duas horas de duração acabaria por contar a história. Talvez isto tivesse resultado em melhores números de audiência para a série - anunciada como grande investimento da emissora, com custos oficiais de R$ 220 mil por capítulo. No primeiro dia, a superprodução registrou 32 de média com pico de 34. Na quarta, a média caiu para 25, apenas três pontos apenas na frente do Show do milhão, do SBT.
Autora da adaptação da obra de Eça de Queirós, Maria Adelaide Amaral achou o resultado bonito, ‘mas um pouco lento’. ‘O primeiro capítulo que escrevi foi ao ar ontem. Mas achei tudo belíssimo. Acho que os ajustes estão sendo feitos e vai ficar cada vez melhor. Principalmente depois do terceiro capítulo’, afirmou."
Simone Mousse
"Com a bênção de Eça", copyright O Globo, 9/01//01
"Um sinal dos céus. A partir dele, a autora Maria Adelaide Amaral teve certeza de que tinha mesmo que escrever a minissérie ‘Os Maias’, adaptada do romance homônimo de Eça de Queirós. Semanas antes de a produção chegar a Portugal para começar a gravar, ela e o diretor-geral da minissérie, Luiz Fernando Carvalho, viajaram à Europa para escolher as locações. Os dois foram ao Vale do Douro, onde o corpo do escritor português está enterrado, para, segundo a autora, ‘pedir permissão para escrever a minissérie’.
- Enquanto eu estava rezando diante de seu túmulo, pedi que me desse um sinal de que abençoaria o nosso trabalho - conta ela. - Quando me voltei para ir embora, a primeira lápide que vi tinha escrito o seguinte nome: Adelaide de Jesus. Coincidência ou não, o fato é que a visão do nome Adelaide soou como uma espécie de ‘vão em frente’. E fomos!
A adaptação de Maria Adelaide para a televisão, como ela mesma garante, foi fiel à obra original:
- Preservamos o espírito queirosiano, embora algumas alterações tenham sido feitas na narrativa para adequar ‘Os Maias’ à linguagem de teledramaturgia. A novidade é a inclusão de outras duas obras de Eça na minissérie: ‘A relíquia’ e ‘A capital’. Elas serão a válvula de humor da minissérie.
Uma caravana brasileira aportou em Portugal para dar vida ao romance, publicado pela primeira vez em 1888. A minissérie, que estréia terça-feira na Rede Globo, às 22h, teve cenas gravadas em Lisboa, Coimbra e Sintra. Mais de cem profissionais passaram seis semanas na Europa para dar mais veracidade às descrições presentes no livro. ‘Os Maias’ é a primeira produção da Globo a passar tanto tempo fora do Brasil. Para Luiz Fernando Carvalho, foi fundamental ir a Portugal.
- Acredito que a viagem foi uma forma de tentar imprimir um teor realista à minissérie. Procurei me aproximar do projeto do Eça de Queirós - explica ele, que usou filmes de Luchino Visconti como referência na conceituação da linguagem da trama.
Maria Adelaide conta que foi a Portugal ver os cenários descritos por Eça em ‘Os Maias’ e em outros romances:
- Viramos Lisboa de cabeça para baixo. Estivemos em Sintra, Coimbra e Douro. Fomos a Póvoa de Varzim e à Vila do Conde, lugares onde Eça nasceu e foi batizado.
A minissérie será apresentada simultaneamente em Portugal pela emissora SIC (Sociedade Independente de Comunicação). O custo da produção é de R$ 220 mil por capítulo, 10% a mais do que normalmente a Globo gasta com suas minisséries.
A saga da família Maia será contada em 44 capítulos e tem um elenco de peso: Walmor Chagas, Stênio Garcia, Ana Paula Arósio, Fábio Assunção e Eva Wilma, entre outros. Raul Cortez será o narrador, representando Eça de Queiroz. Sua voz, em off, aparecerá em vários momentos da trama.
- Usamos um narrador para que o público não se esqueça de que é o Eça que está contando a história - diz a autora.
O cuidado com a retratação do romance e com a composição dos personagens começou meses antes das gravações, com palestras de especialistas em Eça de Queirós.
- As palestras abriram um universo de novas e preciosas informações sobre o autor e a sua obra - conta Maria Adelaide.
Está prevista a volta de integrantes do elenco ainda este mês a Portugal para gravar mais cenas. Todas as locações tiveram que ser adequadas às condições do século XIX, no qual se passa a história. O figurino da minissérie, com 2.500 quilos de roupa, obedeceu ao processo descritivo e detalhista de Eça na apresentação de seus personagens. A tradicional casa da família Maia, o Ramalhete, teve como fachada um antigo casarão abandonado, datado de 1788, em Lisboa. Lá foi gravada a primeira cena da minissérie."
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