QUALIDADE NA TV

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001


ASPAS

VERA LOYOLA
Marta Góes


"A escalada de Vera Loyola, de nova rica a estrela de TV", copyright Jornal da Tarde, 8/01//01

"‘Perua carioca ganha programa na televisão’, estampou, curto e grosso, um jornal de São Paulo, na última sexta-feira, sobre a estréia de Vera Loyola na CNT, em fevereiro. Perua não é definição que deixe uma mulher feliz - ou, pelo menos, as mulheres comuns. Mas Vera Loyola, 54 anos, está longe de ser como a maioria e, mesmo os mais maldosos têm de admitir, nem sequer como perua ela é comum. Uma camada protetora a deixa impermeável ou, até, blindada, contra as farpas que volta e meia parecem alcançá-la em sua vertiginosa corrida para a celebridade. Vera não se deixa abater por pouco e, o que é mais curioso, sabe transformar eventuais cotoveladas em mais munição para o seu projeto fama. Os resultados não poderiam ser melhores.

Na semana passada, ela acertou os últimos detalhes de seu contrato com a CNT para apresentar um programa semanal, no horário das 22 h. Aceitou também um convite insólito do programa Casseta & Planeta, para uma participação especialíssima: vai com a equipe ao Xingu entrevistar índios de uma tribo, naquele quadro dedicado a missões impossíveis. ‘Eles me explicaram que a idéia é que integrantes da primeira sociedade brasileira, que foram os índios, conversem com uma representante da última sociedade, que são os emergentes’, ela explica, perfeitamente à vontade diante do risco altíssimo de deboche que a mera proximidade dos cassetas sugere.

De olho no palco ‘Eu não tenho medo de humor inteligente, e eles são muito engraçados’, afirma Vera, que jura que adorou quando eles a chamaram de Barbie. ‘Me senti duplamente homenageada. Primeiro porque eles lembraram de mim, depois porque me compararam à Barbie, que é o máximo’. Não bastassem tantos holofotes, ela ainda foi sondada por um representante da produção da peça Dias de Riso, que vai ser montada por Marília Pêra, no Rio, para fazer uma ponta de alguns minutos, no papel de uma dama que não desgruda de um cachorrinho. Como era de se esperar, Vera adorou a idéia. A produção, no entanto, ainda está meio reticente. ‘Foi uma idéia que passou pela cabeça da Marília, num certo momento, mas não tem nada acertado, ainda’, diz uma assistente. Mas se a idéia voltar às cogitações de Marília, ela vai ter não apenas uma dama muito à vontade em seu papel, mas também uma cachorrinha acostumada ao grande público. A cadela Pepezinha, como se sabe, recebe com frequência para aniversários e, por enquanto, um casamento. Tornou-se um dos mais eficientes temas de marketing de sua dona.

As iniciativas de Vera, sejam elas dar festas para cachorro, fazer comentários ardidos ou forrar automóveis com retalhos de tapetes persas, provocam ondas de adesão e de rejeição. No caso da cachorrinha, ela recusou peremptória a obrigação que logo lhe quiseram impor de gastar seu dinheiro com crianças, e não com animais. ‘Ninguém deve se envergonhar de amar os animais e o fato de ter dinheiro não me torna responsável por quem não tem.

Isso é obrigação do Estado’, ela estabelece. Se torcem o nariz, ela aciona o fator blindagem. Não se importa. ‘Se for para continuar fazendo sucesso, podem me odiar, tudo bem.’

Língua afiada Tudo bem, no caso dela, não quer dizer engolir desaforo. Vera é adepta confessa do estilo bateu-levou. Foi assim que ela reagiu na famosa festa em que Carmem Mayrink Veiga declinou o convite de um fotógrafo para uma pose ao lado de Vera. ‘Não estou aqui para ser fotografada com você, mas sim com Marita Martins (sogra de Luís Estevão), que é uma pessoa educada’, fuzilou Vera em plena festa, para espanto e delícia dos convidados. A rusga deu uma oportuna turbinada em sua notoriedade. Até aquele momento, em meados da década de 90, ela era o símbolo da ‘Sociedade Emergente da Barra da Tijuca’, categoria criada pela colunista Hildegard Angel, de O Globo, para falar da nova população afluente, em geral instalada na Barra, que ainda não aparecia em colunas sociais.

Nome nacional A partir daí, com a repercussão que a história provocou, Vera se tornou uma celebridade nacional. Seu nome nunca foi incluído no livro Sociedade Carioca, uma publicação anual editada pela tradicional Helena Godim, que deixa muita gente sem dormir às vésperas de cada reedição. ‘O livro é dela, ela cita quem quiser, mas aquelas pessoas não saem em nenhum outro lugar, e eu, minha filha, dou autógrafo na rua e já apareci até no New York Times!’ Foi em 1999, numa reportagem sobre o Rio de Janeiro.

‘Há muito tempo que Vera Loyola deixou de se limitar ao perfil da socialite para ser uma formadora de opinião, uma personalidade nacional’, explica Claudio Magnavita, diretor de Comunicação da CNT. ‘Foi por isso que pensamos nela para um programa de nossa linha de show.’ Com sua autoconfiança característica, ela também tem razões para apostar em uma boa atuação diante das câmaras. ‘Eu sou uma pessoa muito autêntica, digo tudo o que penso. Além disso, não tenho rabo preso, posso perguntar o que quiser’, enumera.

O programa vai ter um tom inteiramente pessoal, desde o cenário - ‘com tapetes persas, naturalmente’, ela adianta -, até os figurinos - vou usar longos e jóias, sim, porque eu adoro’ - e, sobretudo, as entrevistas e os temas. ‘Vou estar no vídeo representando o povo’, acredita Vera. ‘Vou perguntar tudo o que o povo gostaria que eu perguntasse’, garante.

De Fernando Henrique, por exemplo, que ela pretende convidar, vai querer saber a que horas, afinal, vamos colher o que ele vem plantando há tanto tempo. De Marta Suplicy, que ela conheceu num programa de Ana Maria Braga, se pode provar que está disposta a mergulhar de cabeça em suas pesadíssimas tarefas. ‘Ela é uma mulher elegante e inteligente. Mas é marinheira de primeira viagem ‘, avalia.

Bill quem? O que perguntar ao rapper M.V. Bill, cujo vídeo foi recolhido pela Justiça carioca, sob a acusação de fazer apologia do tráfico?... Bem, ela teria primeiro de descobrir que história é essa. Rappers não estão entre os personagens prediletos de Vera, mas ela não se aperta. ‘Ah, sou inteiramente contra as drogas’, despista.

Pode-se imaginar que Carmen Mayrink Veiga não será vista no sofá de Vera Loyola na televisão. Embora em seu livro Totalmente Vera Loyola, ela afirme que há muito perdoou a papisa do society carioca pelo desdém que lhe dedicou, diz que nem viu o livro A Etiqueta Completa de Amy Vanderbilt (Editora Nova Fronteira), com comentários de Carmen. Mesmo assim, não gostou: ‘Acho regra de etiqueta uma bobagem. Eu sou mais vanguarda’. Entre as regras que Vera aboliu de sua prática está a proibição de passar batom à mesa. ‘Imagina se eu vou ficar com aquela cara desmaiada horrível, que a gente fica depois do jantar. Puxo meu batonzão e passo. Um gesto tão bonito, tão feminino...’"



Volta ao índice

Qualidade na TV – próximo texto

Qualidade na TV – texto anterior



Mande-nos seu comentário




Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você