QUALIDADE NA TV

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001


ASPAS

LAÇOS DE FAMÍLIA
João Gabriel de Lima e Marcelo Camacho

"A novela que hipnotiza o país", copyright Veja, 10/01//01

"A criança que Helena carrega no ventre é mesmo filha de Pedro, o Don Juan rural que se jacta de domar cavalos e mulheres no pasto de seu haras? Ou será do lamuriento Miguel, o livreiro sensível que quando fica deprimido vai para casa chorar na cama? Conseguirá Camila, que sofre de leucemia e precisa fazer um transplante de medula, encontrar um doador compatível? Quem será esse doador? Íris, a virgenzinha fogosa que está louca para conferir a maciez do gramado de Pedro? Ou o bebê de Helena, que ainda nem nasceu? E a prostituta Capitu? Entregará seu coração ao vacilante Fred, o grande amor de sua vida? Ou acabará nos braços do brucutu Orlando, o empresário que pode proporcionar-lhe uma vida de luxo e riqueza? Há várias receitas de novelas, mas a mais trivial - e antiga - é aquela que planta uma série de interrogações na cabeça do espectador para depois fornecer as respostas aos pouquinhos, ao longo de infinitos capítulos. É o caso de Laços de Família, o maior sucesso dos últimos tempos no horário das 8h da Globo (na verdade, ao redor das 9 da noite). Mais de 32 milhões de brasileiros assistem a ela. Quanto mais o entrecho mirabolante se retorce, provocando surpresas, lágrimas e confusões, mais os índices de audiência sobem. A persistir nessa toada, Laços de Família, cujo final está previsto para 2 de fevereiro, deverá atingir a média final de 46 pontos no Ibope, tornando-se o folhetim de maior audiência da emissora desde 1997, quando A Indomada marcou 48 pontos de média. É um feito e tanto, já que a partir daquele ano o horário nobre se transformou em palco de disputa acirrada entre os canais de TV aberta, com a ascensão de Ratinho, hoje no SBT, e outros programas populares. A novela também proporcionou à Globo seu maior pico de audiência em 2000. No capítulo em que Camila teve seu cabelo raspado, exibido em 11 de dezembro, 79% dos televisores ligados do país estavam sintonizados no folhetim.

O êxito de Laços de Família é o triunfo de um gênero e do estilo de um autor. O gênero é o folhetinzão desbragado, aquele marcado pelos parentescos desconhecidos que só se revelam no final, pelas paixões em cadeia no gênero Pedro-que-amava-Tereza-que-amava-Raimundo e pelas epopéias médicas com jeito de seriado americano. Além disso, várias situações que fizeram sucesso em novelas recentes reapareceram em Laços de Família, às vezes em dose dupla. Em Por Amor, também de Manoel Carlos, uma mãe, também chamada Helena - todas as protagonistas do autor têm o mesmo nome -, interpretada por Regina Duarte, se sacrificava pela filha. Em Laços de Família há duas mães exemplares. A Helena de Vera Fischer, que abre mão do amor de Edu (Reynaldo Gianecchini) em favor de Camila (Carolina Dieckmann), e a Capitu de Giovanna Antonelli, que se prostitui para garantir o futuro do filho pequeno. Em Explode Coração, de Glória Perez, o romance entre uma mulher madurona e um quase-adolescente, vividos respectivamente por Renée de Vielmond e Rodrigo Santoro, provocou uma tremenda identificação com a audiência feminina (60% dos espectadores de novelas são mulheres) e fez o ibope estourar. Laços de Família mostrou dois casais similares: Helena-Edu e Alma (Marieta Severo) e Danilo (Alexandre Borges). O drama de Ataliba Timbó (Paulo Gorgulho), que sofria de impotência sexual, mobilizou os espectadores em Fera Ferida. O Viriato de Laços de Família, interpretado por José Victor Castiel, padece de mal semelhante. Mudaram apenas as estratégias das mulheres para estimular os maridos. A de Viriato recorre a danças sensuais. A de Timbó preferia a culinária afrodisíaca.

Laços de Família, como já se disse, é também a vitória do estilo de um autor: o realismo de Manoel Carlos, que nada tem a ver com as novelas de conteúdo político-social que pipocaram na esteira da redemocratização do país. No time de novelistas da Globo, cada um tem uma especialidade. Gilberto Braga é o cronista do grand monde, com seus personagens milionários que vivem em mansões cinematográficas. Benedito Ruy Barbosa é o craque dos dramas rurais, ambientados em fazendas próximas a paisagens exuberantes. Manoel Carlos, por sua vez, é o artífice das tramas em que a grande protagonista é a classe média. Em suas novelas não há uma disparidade grande entre ricos e pobres. Todos são mais ou menos remediados, mais ou menos parecidos com o grosso dos telespectadores das novelas da Globo. ‘O sujeito que acompanha as minhas tramas gosta de reconhecer ali situações parecidas com as que ele vive e personagens semelhantes aos seus próprios parentes. Eu me empenho para que ele não se decepcione’, diz Manoel Carlos. Enquanto na maior parte das novelas se tem a impressão de que todo mundo vive num ócio permanente - os personagens só aparecem em cenas de amor ou futricando a vida alheia -, nas de Manoel Carlos eles são mostrados indo à padaria, abrindo uma conta no banco ou dirigindo o carro para ir ao trabalho. A pesquisa qualitativa sobre Laços de Família encomendada pela Globo demonstra que o autor acerta em cheio ao aproximar a novela do cotidiano mais comezinho. Segundo esse levantamento, uma das maiores razões para o sucesso do folhetim é o fato de o espectador achar a trama verossímil e os personagens críveis.

Colocar esse tipo de enredo de pé exige, ao contrário do que possa parecer, uma complicada engenharia. ‘Dirigir uma novela de Manoel Carlos é um desafio, porque a infra-estrutura é sempre maior do que nas outras’, avalia Ricardo Waddington, titular dessa função em Laços de Família. A novela tem três vezes mais locações externas do que o usual, o dobro de personagens e figurinos e cerca de 50% a mais de metros quadrados de cenários (veja quadro). Tudo para que os personagens realmente comprem pão na esquina e freqüentem todos os cômodos de suas casas. A obsessão de Manoel Carlos pelo realismo é tanta que já virou até piada na Globo. Comenta-se que, se um funcionário da emissora bater dois segundos de papo com o autor no elevador, corre o risco de ter algum episódio de sua vida levado ao ar. A brincadeira não está tão longe assim da verdade. Certa vez, o veterano galã Paulo Figueiredo, que interpreta Rodrigo em Laços de Família, pediu licença das gravações para fazer uma cirurgia de próstata. Manoel Carlos concedeu, mas pediu autorização para fazer com que o personagem tivesse o mesmo problema médico. Algo parecido ocorreu com as coadjuvantes Inez Viana, que vive Márcia, secretária da clínica de Helena, e Arlete Heringer, que faz Marta, funcionária do haras de Pedro. A primeira teve um descolamento de retina. A segunda fez uma operação para corrigir a miopia. Nos dois casos, por arte do autor, os problemas médicos reais das atrizes apareceram nas personagens fictícias da novela.

O sucesso de Laços de Família também se explica pelos ‘factóides’ que contribuíram para turbinar a audiência da novela. Antes mesmo da estréia, o folhetim já estava nas páginas das revistas de fofoca por obra e graça da atriz principal, Vera Fischer. Numa viagem ao Japão para gravar cenas dos primeiros capítulos, a extrovertida estrela sapecou um beijo na boca do galã Reynaldo Gianecchini, seu namorado na ficção. A notícia foi divulgada e provocou uma saia-justa, uma vez que Giannechini tem uma namorada na realidade: a jornalista de televisão Marília Gabriela. Outro buchicho surgiu quando, numa cena gravada a bordo de um veleiro, o fortão Paulo Zulu exaltou de maneira enfática os atributos da beldade Helena Ranaldi. Ele não sabia, no entanto, que os microfones estavam ligados e, em terra firme, o diretor da novela, Ricardo Waddington, ouviu o galanteio. Detalhe fundamental: Waddington é marido de Helena. A notícia também ganhou destaque nos jornais. Waddington hoje minimiza o fato. ‘Quando eles atracaram, eu falei: 'Pô, Zulu, você, hein?' Mas no fundo eu sabia que era brincadeira’, desconversa. Coincidência ou não, o papel do modelo, que já era pequeno, diminuiu ainda mais na trama. O galã Gianecchini, aliás, também teve sua participação reduzida no entrecho. Como os dotes histriônicos do rapagão são escassos, estava difícil fazê-lo parecer convincente em situações de maior voltagem dramática. Manoel Carlos, evidentemente, dá outra versão para o encolhimento do papel de Gianecchini. ‘Desde que novela é novela, você não pode casar o galã antes do final, porque senão ele se apaga. Mas eu tive de fazer isso com o personagem Edu porque era conveniente que ele já estivesse com a Camila quando ela caísse doente’, justifica o autor.

Os outros três factóides que ajudaram a manter a novela no noticiário têm a ver com o teor apimentado da trama. Em Laços de Família, todo mundo faz sexo o tempo todo - Capitu com Fred na sala de visitas, Danilo com Ritinha no quarto da empregada, e Pedro com Cíntia e Helena, na grama e na cama de seu haras-abatedouro. Além disso, todo mundo briga o tempo todo, o que enseja cenas de uma certa violência. O juiz Siro Darlan, da 1ª Vara de Infância e Juventude do Rio de Janeiro, que adora aparecer na imprensa, achou que não poderia haver crianças convivendo num ambiente onde só se falava ‘naquilo’ e volta e meia rolavam sopapos. Por isso, proibiu que menores de idade aparecessem nas gravações. O veto durou três semanas, até que os advogados da Globo derrubassem a medida. O conteúdo da novela irritou também a Arquidiocese do Rio de Janeiro, que se recusou a ceder uma igreja para o casamento de Camila e Edu. O pretexto para a proibição foi que a personagem de Carolina Dieckmann estava grávida, o que contraria o princípio católico de que um casal só pode fazer sexo depois do matrimônio. Para contrariedade de Waddington e Manoel Carlos, foi necessário ceder um pouco na obsessão pela verossimilhança e construir uma capela de mentirinha nos estúdios do Projac. Por último, a Justiça determinou que Laços de Família não poderia ir ao ar antes das 9 da noite. Tanta confusão, é claro, acabou atraindo ainda mais espectadores.

Foram várias as tribulações, mas pelo menos de uma Manoel Carlos esteve livre durante Laços de Família: a reclamação dos atores do sexo masculino. Criador de personagens femininos fortes, o autor freqüentemente propicia a suas atrizes a façanha de ofuscar os atores. Foi assim em Por Amor, quando a Helena de Regina Duarte era muito mais interessante do que o Atílio de Antonio Fagundes, a ponto de o galã da Globo queixar-se publicamente. Na mesma novela, Odilon Wagner, intérprete de um homem de meia-idade que se descobria homossexual, também ficou chateado com o desenvolvimento de seu personagem. Seu drama foi embaçado pelo da esposa trocada por outro homem, papel que consagrou Angela Vieira. ‘Eu acho as mulheres dramaturgicamente muito mais interessantes do que os homens, o que posso fazer?’, defende-se Manoel Carlos. Tony Ramos e José Mayer, até onde se sabe, não chiaram ainda em Laços de Família, mas bem que poderiam. Um faz o bonzinho politicamente correto, que escapa por pouco de se tornar um chato de galochas, e o outro, o machão estereotipado, daqueles que exaltam o próprio desempenho na cama e depois dão uma risadinha cínica. O Pedro de José Mayer acha até mesmo que mulher gosta de apanhar - chegou a agarrar Íris e aplicar umas palmadas em seu traseiro. Já a Helena de Vera Fischer é uma mulher capaz de grandes gestos por amor à filha. Da mesma forma, a Capitu de Giovanna Antonelli esmaga o Fred de Luigi Baricelli. Enquanto o irmão pateta de Camila passa o tempo todo repetindo chavões como ‘o passado não importa’, ela pondera as vantagens de largar definitivamente a prostituição para se juntar ao homem que ama. A decisão é difícil. Teria de se contentar com um padrão de vida inferior e correr o risco de ser abandonada, mais tarde, por um homem ciumento. É uma personagem madura, valorizada pela interpretação de Giovanna Antonelli, de longe a maior revelação da novela.

A criação de Capitu, a primeira ‘prostituta de família’ a aparecer na história das novelas, é a grande novidade de Laços e lustra de maneira exemplar a carpintaria realista de Manoel Carlos. Para compô-la, o autor encomendou uma pesquisa sobre prostitutas de alto nível. Constatou que a maior parte delas faz universidade e ganha bem, mas quando elas abandonam a prostituição e se casam têm dificuldades para adaptar-se à nova rotina, por causa do ciúme do marido e da queda no padrão de vida. Mais: 90% das entrevistadas pela Globo eram mães solteiras. A começar por esse detalhe, Capitu segue ponto por ponto o figurino. ‘A personagem parece real porque várias de suas falas saíram da boca de gente de carne e osso’, diz Manoel Carlos. Prostitutas são comuns em telenovelas desde a simpática Ninon de Claudia Raia, em Roque Santeiro, mas é a primeira vez que aparece uma que poderia ser irmã, prima ou filha do espectador de classe média. Essa é a razão da polêmica que Capitu levantou logo nos primeiros capítulos, semelhante à causada pelo personagem Sandrinho (André Gonçalves) em A Próxima Vítima - o primeiro homossexual a ser mostrado sem estereótipos. Como as novelas são assistidas pela família toda, oferecem combustível para a discussão na sala de jantar sempre que temas tabus são tratados. No caso de Capitu, Manoel Carlos lançou mão de um truque para angariar a simpatia dos espectadores. No início, ela parecia ser uma moça fútil, que se prostituía para comprar roupas de grife e freqüentar restaurantes caros. Como isso causava certa desconfiança em relação à personagem, o autor a transformou em uma mulher capaz de sacrificar-se em favor do filho pequeno e dos pais idosos. Bingo! Não há como não gostar de Capitu.

A Zona Sul carioca é famosa por hospedar um estilo de vida mais liberal do que o do resto do país. Por essa razão, costuma ser o cenário de novelas que lidam com temas tabus. Quando isso não ocorre, surgem problemas. Na época de O Rei do Gado, causou estranheza o fato de a filha de um pai severo do interior, Lia (Lavinia Vlasak), levar o namorado Pirilampo (Almir Sater) para dormir em casa. Centenas de cartas chegaram à Globo, alertando que isso poderia ser comum em Ipanema, mas não numa fazenda do interior. Para não correr o risco de cometer discrepâncias entre cena e cenário, Manoel Carlos preferiu ambientar 100% de sua atual novela no bairro carioca do Leblon, onde mora há 31 anos. Ou, para ser mais exato, em seu quarteirão. Toda a ação de Laços de Família se passa nas cercanias do apartamento de Manoel Carlos e nos lugares que ele freqüenta. O autor não pode citar o nome da pizzaria, da padaria, da livraria, da farmácia e da locadora de vídeo cujas fachadas aparecem diariamente no folhetim, porque, pelas regras da Globo, os estabelecimentos teriam de pagar uma taxa de merchandising acima das possibilidades de um pequeno comerciante. Mas faz questão de colocar nas falas de seus protagonistas os nomes de pessoas que realmente existem - o padeiro, o pizzaiolo, o dono da locadora - e de louvar uma certa salada de atum que faz parte do cardápio da cantina da livraria onde ele costuma almoçar. ‘Para falar a verdade, não ligo muito para as pesquisas qualitativas da emissora’, confessa Manoel Carlos. ‘O que conta mesmo é o que o pessoal aqui do bairro comenta comigo. Por eles, sei se estou agradando ou não.’ Os índices de audiência demonstram que Laços de Família não agrada apenas no Leblon, mas no Brasil inteiro. Prova de que, apesar de o Rio de Janeiro às vezes parecer avançado demais em questões de comportamento, o país ainda é fascinado pela paisagem e pelo jeito de ser da mais charmosa cidade brasileira."

 

J.G.D.L. e M.C.

"Quanto mais realista melhor", copyright Veja, 10/01//01

"As novelas escritas por Manoel Carlos são mais realistas que as de outros autores. Veja o que se faz em Laços de Família para torná-la mais parecida com a vida real:

A novela tem cerca de dezoito locações externas por semana. A média dos folhetins da Globo é de seis. A idéia é mostrar os personagens freqüentando lugares como restaurantes, bancos e padarias, o que os aproxima do cotidiano dos espectadores.

Os atores usam aproximadamente doze figurinos por semana, o dobro do usual. Isso ocorre porque o autor faz questão de apresentá-los em diversos momentos do dia: de pijama ao acordar, de roupa de trabalho, produzidos para sair à noite etc.

O folhetim tem oitenta personagens, contra uma média de quarenta nas novelas das 8 da Globo. Esse número é inflado pelo imenso elenco de apoio. Manoel Carlos faz questão de dar voz aos médicos, jornaleiros, porteiros, padeiros etc. com quem os personagens convivem.

Laços de Família tem 4 500 metros quadrados de cenário nos estúdios do Projac, contra uma média de 3 200 das outras novelas globais. O motivo é que as cenas são gravadas em vários cômodos da casa dos personagens - cozinha, banheiro, quartos -, quando o costume é que o cenário primordial seja a sala de visitas.

O custo do capítulo é de 100 000 reais, cifra que corresponde à média orçamentária das novelas das 8 da emissora. O fato de ela ter mais figurinos e locações externas é compensado pelo baixo custo dos cenários de classe média. Ou seja, não é preciso criar ambientes suntuosos, como os que costumam aparecer nas novelas de Gilberto Braga."



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