ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000


OMBUDSMAN
Renata Lo Prete

"No topo dos erros", copyright Folha de S. Paulo, 10/12/00

"Muitas reportagens contêm um erro ou dois, mas a essência do que dizem sobrevive. Em algumas, porém, as falhas são tantas, e tão graves, que o resultado como um todo fica comprometido.

No segundo grupo se inscreve o caderno Top of Mind, feito a partir do levantamento anual do Datafolha que identifica as marcas mais lembradas pelos consumidores em diversas categorias de produtos.

O especial publicado na quinta-feira trouxe, logo na página inicial, um texto de cunho didático intitulado ‘Entenda como é a pesquisa’.

Os jornalistas não devem ter entendido. Dali em diante, simplesmente ignoraram o alerta sobre a ‘margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos’, o que gerou toda sorte de conclusões equivocadas.

A marca apresentada como líder entre as cervejas estava, na verdade, em empate técnico com outras duas.

O mesmo gráfico que desmentia o título permitia ver que o movimento mais expressivo, na comparação com o levantamento de 99, era o da terceira marca, que subiu o bastante para se juntar às demais no topo.

Também nas categorias de tênis, computadores e chocolates, o jornal proclamou vitória de marcas empatadas com concorrentes. No primeiro caso, três dividiam a liderança. No segundo, quatro.

Entre os chocolates, a manchete destacava a ‘tradição’ da marca A. Ao lado, o quadro a exibia estacionada em relação à pesquisa anterior, enquanto indicava para a marca B um crescimento de cinco pontos percentuais.

O contraste mais gritante entre título e números se deu na categoria dos supermercados. A rede anunciada como líder aparecia no gráfico atrás de três, embora dentro da margem de erro.

O efeito foi ainda mais constrangedor porque, das marcas citadas, apenas a beneficiada pelo erro publicou anúncio no Top of Mind.

O próprio nome do caderno, extraído do jargão publicitário, indica sua vocação para atender, antes de mais nada, a estratégias comerciais e institucionais do jornal e de anunciantes. Não é ilícito que seja assim.

Mas esse transgênico jornalístico só tem alguma serventia para o chamado leitor comum se consegue extrair da pesquisa dados interessantes sobre a movimentação das marcas no mercado.

Isso só é possível com rigor na leitura dos números e disposição para encontrar neles algo além dos nomes dos ‘vencedores’, duas preocupações que a edição não teve.

Tomando os chocolates como exemplo, basta um pouco de bom senso para perceber que quando a linha de A não se mexe, e a de B sobe de maneira expressiva, geralmente é na segunda que está a notícia.

Na noite de sexta-feira, em resposta a meu questionamento, a Redação reconheceu o fiasco. ‘A quantidade de erros cometidos no tratamento dos dados comprometeu a divulgação dos resultados do Top of Mind’, disse o editor de Dinheiro, Vinicius Torres Freire.

Não faz um mês, ocorreu outra falha primária em apresentação de números do Datafolha. O jornal afirmou que havia crescido a rejeição dos paulistas à privatização do Banespa.

Para chegar a essa conclusão, comparou pesquisas realizadas em universos diferentes -uma apenas na cidade de São Paulo, outra na capital e no interior.

Neste caso, o erro não contaminou todo um caderno. Mas saiu como segundo destaque na Primeira Página.

Além do constrangimento, a proximidade dos dois incidentes deveria provocar reflexão sobre os mecanismos encarregados de zelar pela confiabilidade da informação.

Em um jornal, enganos dessa magnitude raramente têm um único autor. São produzidos por um misto de descuido e inércia em várias instâncias de decisão.

O ‘erramos’ do dia seguinte foi puro eufemismo. ‘O caderno não esclareceu o critério de desempate utilizado pelo Datafolha.’ Na realidade, nem mencionou tal critério, que consiste na totalidade de citações de determinada marca.

E, mesmo com sua aplicação aos resultados, permanece equivocada a maior parte das conclusões que a Redação tirou ao não levar em conta a margem de erro. Foram minimizadas como ‘outras incorreções’.

Apesar de seus defeitos, a nota desinformou menos do que a matéria publicada no mesmo dia, em Dinheiro, como complemento (seria impossível dar conta de tudo no ‘erramos’).

‘A pesquisa apresentou diversos erros por causa dos vários empates na primeira colocação, segundo a margem de erro da pesquisa’, dizia a abertura desse texto.

Primeiro, um prêmio para quem encontrou sentido na frase. Depois, se o jornal estivesse disposto a ser rigoroso teria extraído daí um novo ‘erramos’.

Nem a pesquisa apresentou erros, nem eles se deveram aos vários empates na primeira colocação. Foram todos cometidos pela Redação ao manipular os números do Datafolha.

Aos olhos do leitor, pior do que uma grande trapalhada é a tentativa de empurrar a responsabilidade para os outros.

Unidade de desinformação

Como Chacrinha, certos textos vieram para confundir, não para explicar. Tome-se esta nota publicada quinta-feira no caderno Equilíbrio:

‘Que barrigudo tem mais chance de desenvolver problemas cardíacos não passa de um mito. Isso não é verdade. ‘O excesso de gordura na barriga pode causar problemas como hérnia de hiato, mas não afeta diretamente o coração. A obesidade é um fator de risco sempre, não importa se é localizada ou não’, explica o endocrinologista Cyro Guimarães’.

Espanta a quantidade de dúvidas que algo tão curto pode suscitar. O que não é verdade? Que barrigudo tem mais chance de desenvolver problemas cardíacos ou que isso não passa de um mito? Se obesidade é um fator de risco ‘sempre’, como a localizada (no caso, na barriga) não seria? Fator de risco para quê? Para não falar nos leitores que ignoram o que seja hérnia de hiato.

Por certo existem respostas para todas essas perguntas, mas nenhuma está no texto.

Às vezes, na tentativa de enfeitar, o jornal consegue apenas ser obscuro.

É prática da Folha quantificar, para efeito de avaliação interna, as ‘unidades de informação’ de suas páginas. Notas como a do barrigudo deveriam ser computadas em outra categoria, a de ‘unidades de desinformação’."




MÁRIO COVAS
Walter Ceneviva

"Ética no sofrimento de Covas", copyright Folha de S. Paulo, 9/12/00

"São incomuns as ocasiões em que vários segmentos profissionais são envolvidos em dilemas éticos a contar dos mesmos fatos. A aplicação apropriada do conjunto dos deveres morais, impostos aos praticantes de diversas profissões, é variada. Na normalidade dos casos envolve condutas individuais, o que não tem acontecido no tratamento do governador Mário Covas, no qual é possível distinguir os médicos, seus auxiliares em geral - em particular os técnicos (laboratoristas e outros) -, os dirigentes hospitalares. Mas não pára aí. Servem de exemplo os jornalistas, os parlamentares, os servidores públicos e até advogados que aconselham os diretamente envolvidos.

Antes de tratar da matéria ética, vale a pena lembrar que o artigo 154 do Código Penal brasileiro considera crime (punível com detenção de três meses a um ano, ou multa) a revelação, sem justa causa, de segredo do qual o agente tem ciência em razão da função, ministério ou profissão e cuja revelação possa produzir dano a outrem. O artigo 325 condena a pena de seis meses a dois anos o servidor público que revelar fato que deva permanecer em segredo, conhecido em razão do cargo. Incide nas mesmas penas aquele que facilita sua divulgação. Independentemente da disposição criminal, os médicos têm o dever de calar a respeito da doença de seus pacientes, na forma do artigo 102 de seu código de ética. São, porém, liberados se a revelação tem justa causa, é feita no cumprimento do dever legal ou autorizada, pelo paciente, como acontece com o governador.

Os veículos da mídia têm o dever ético de não ocultar fatos, salvo se valores mais altos intervenham, como acontece, por exemplo, nos sequestros em que se mostre imprescindível o silêncio para preservar a vida da pessoa sequestrada.

O jornalista deve ocultar sua fonte, quando ouvida sob reserva do sigilo. A garantia do jornalista é constitucional e consiste em não ser obrigado a indicar a fonte da notícia divulgada.

Em meu livro ‘Segredos Profissionais’, em que trato de todas as hipóteses usuais de sigilo e de sua defesa (Malheiros Editores, 160 páginas), escrevi que a determinação legal imposta a certos profissionais quer que percorram o caminho duplo de obterem a informação necessária para satisfazer os requisitos de seu trabalho e de não a revelarem a terceiros, seja qual for a relevância do conhecimento obtido, ressalvado o permitido em lei.

Observados os dois requisitos fica evidente que os médicos de Mário Covas não cometeram qualquer falta ética, discutindo em público as condições do governador. Médicos, especialistas ou não, ao concederem entrevistas, informando sobre aspectos científicos da evolução da cirurgia, também não. O código de ética permite o esclarecimento através da mídia, com informações de interesse social.

O médico tem norma deontológica (vale dizer, da ética de sua profissão) diferente da do advogado: este jamais pode revelar o segredo de seu cliente, ainda que autorizado por ele. O médico pode. O caso de Covas, como o foi, na Copa do Mundo, o do jogador Ronaldo, demonstra, ainda, que a intimidade das pessoas públicas está mais exposta do que a do homem comum. Mas mesmo as pessoas públicas são preservadas contra os excessos, sobretudo quanto aparecem na mídia. Na prática reconheço que os remédios jurídicos são fracos para impedir abusos, não parecendo possível corrigir o defeito a curto prazo."



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