ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001


Daniel Piza

"Casagrande e senzala", copyright O Estado de S. Paulo, 7/01//01

"Casagrande marcou um golaço na transmissão do jogo entre Vasco e São Caetano no sábado retrasado, pela TV Globo, ao enfrentar o titubeio de jogadores e de seus companheiros de vídeo e dizer, com justiça, que o reinício da partida era absurdo, antes de mais nada pelo desrespeito às vítimas. Como não bastasse o protesto rápido e fundamentado contra o acinte do coronel Eu-rico Miranda, ele esteve à altura da ocasião para deixar nu o capachismo dos jogadores, que terminaram dando aquele show vergonhoso ao carregar a taça do título. Casagrande observou que, se ninguém der a cara para bater, os jogadores continuarão a ser fantoches de dirigentes, mesmo quando se trata de um ídolo como Romário que, segundo toda a imprensa, manda e desmanda no clube... Jogadores são trabalhadores, e como tal têm deveres e direitos (como exigir um calendário que não os consuma, a exemplo do que fizeram os jogadores de basquete da NBA); e muitos se tornam ídolos, que têm de assumir a responsabilidade de falar ao público, como Casagrande sempre assumiu.

A chamada ‘democracia corintiana’ de 1982 e 83, de que Casagrande participou ao lado de Sócrates, Vladimir, Zenon e Biro-Biro (apesar do renitente individualismo de Leão, lá no gol), foi caricaturizada como uma rebeldia meio juvenil, que dava aos jogadores direitos de fumar e beber, o que hoje, em época politicamente correta, soa detestável na boca de um atleta. Mas o que eles queriam acima de tudo, como lembrei em entrevista recente que fiz com Sócrates, era atribuir ao jogador a autonomia que deve ter como profissional, cidadão e ídolo, como protagonista que é desse amplo e rentável mercado do futebol, especialmente o brasileiro.

Os políticos e oportunistas que mandam nessa máfia justificam a submissão dos jogadores por seu despreparo, exploram sua mão-de-obra, reprimem sua liberdade com a exigência de concentração e a proibição de camisetas escritas e poses nuas. Como o policial que tinha medo da revolta da massa caso o jogo não continuasse (desmentido majestosamente pelos fatos), o argumento da ‘elite’ é sempre escudado pelo medo de atribuir responsabilidade ao indivíduo. Jogadores são tratados como membros de uma senzala, com o paliativo de serem hiper-remunerados, de serem tratados com ‘carinho’ pela Casa-Grande. Falta um Gilberto Freire para descrever o patriarcado do ludopédio canarinho.

Afinal, são os jogadores que fazem o espetáculo e que são chamados de mercenários e ameaçados de linchamento pelas torcidas, além de ludibriados pelo esquema internacional de compra e venda de passes, marcado por sonegações, lavagens e maracutaias diversas. Que surjam indivíduos capazes de articular e se articular contra a desorganização arrogante e cruel dos donos da bola, como Casagrande, é a única solução. Ele, por sinal, já foi criticado por ter cortado o cabelo e a irreverência para se enquadrar no padrão global, mas o fato de fazer o que faz em tal circunstância, conseguindo ainda se afirmar como um dos melhores comentaristas de futebol da TV (sabendo encontrar um ‘modus vivendi’ com as besteiras ufanistas de Galvão Bueno, as quais corrige sempre que pode), o torna ainda mais louvável. A rebeldia mais eficaz é a que encontra uma brecha dentro do sistema, e não fora dele.

Preconceito Futebol Clube - As questões ditas ‘de mentalidade’, menos associadas ao subdesenvolvimento material do País, não apenas o denunciam, mas também são parte integrante dele. A tibieza do debate de idéias no Brasil é inegável, mas tem mecanismos que nem sempre são reconhecidos. Um deles é o que se pode chamar de ‘política da compensação’. Se acredito que uma tendência da qual discordo tem prevalecido, apóio qualquer ato ou pessoa que for contra ela:

se Ronaldo é comparado com Romário e acho que Romário é melhor, faço de tudo para menosprezar os méritos de Ronaldo. Essa gangorra emotiva se liga a outro mecanismo, o do ‘clubismo’, segundo o qual minha turma tem mais vantagens do que a sua pelo simples fato de ser minha e não sua. Não existe conteúdo impessoal em nenhuma relação: tudo se resume a ‘de que lado você está?’, à ação entre amigos que é o ensaio da corrupção à moda da casa.

Dois produtos muito visíveis desses comportamentos, dessa rejeição do outro (ou da outra turma), são o bairrismo e o racismo. Virou-mexeu, aparece por trás de quase todos os argumentos o fato de que é preciso proteger a cultura de um Estado contra a de outro ou a do País. Baianos e cariocas brigam entre si pela primazia na indústria cultural, um em defesa de sua música sincrética, outro de sua civilidade descontraída; ambos brigam com São Paulo porque querem seu patrocínio, enquanto São Paulo acha que é superior a eles pelo simples fato de ter mais dinheiro ou ser mais ‘moderna’; gaúchos reclamam sua condição exclusiva em meio à balbúrdia nacional; paranaenses e pernambucanos se queixam das imposições do ‘eixo’, de uma suposta confraria entre Rio e São Paulo; e assim por diante, numa verdadeira Copa João Havelange da cultura.

Na bacia das almas, a questão racial continua vigorando como pivô da briga, seja porque a ‘mistura’ é deplorada (hoje mais tácita do que explicitamente) seja porque é exaltada (hoje mais explícita do que tacitamente). No mundo desenvolvido, entretanto, o que o pensamento civilizado quer cada vez mais é desvincular de vez o destino de uma nação de sua configuração racial, em defesa da diversidade humana. Enquanto os brasileiros acharem que ‘identidade’ cabe num uniforme em que essa palavra esteja escrita, preconceitos não serão despidos de verdade. E por isso, na alienação ao ‘país do futuro’ ou no fatalismo do ‘isto aqui não tem jeito’, uma modernidade em sua íntegra - progresso econômico com justiça social - não existirá. Quando um país tem mais idealistas que ideais, quem perde é a ação.

O reacionário revolucionário - Vinte anos da morte de Nélson Rodrigues, no mês passado, e seu prestígio não poderia estar maior. É consenso, por exemplo, que foi o maior cronista de futebol do País. Em O Futebol em Nélson Rodrigues (Educ), José Carlos Marques analisa seu estilo como barroco e, por isso mesmo, adequado ao futebol brasileiro. Não acho que a prosa de Nélson, exagerada, retórica, tenha parentesco com o barroco ou neobarroco hispânico de um Lezama Lima (o autor cubano, de Paradiso); talvez seja apenas uma mescla de esteticismo à la João do Rio e Eça de Queirós e oratória jornalística à moda da época. Mas a tese levanta uma série de perguntas que nossos estudiosos teimam em não fazer.

Claro que não se pode relegar o fato de que Nélson dizia muita besteira, inclusive sobre futebol, e era um conservador em todos os departamentos da vida, especialmente no amoroso. Mas foi esse seu desconforto com a vida moderna, com a irrefreável vocação humana e carioca para o pecado, que lhe deu intensidade para descrever o adultério suburbano e, por seu talento dramatúrgico, evocar sua presença em qualquer indivíduo. Nélson pegou sob a serpentina da afetuosidade brasileira um buzinaço de taras, complexos e perversões que se acumulam até explodir em drama não raro bufão. Mas sua obra está por ser estudada, depois de celebrada.

Por que não me ufano - Tediosa, a comemoração desta passagem de ano/década/século/milênio, embora seja melhor assim do que o festival de besteiras que assolou o réveillon anterior. Acho chato o clima de ‘solidariedade natalina’ (como se devêssemos ser solidários de acordo com o calendário), o número de artigos sobre religião (aqui no Brasil ainda acham que os Evangelhos são verdade histórica) e a mania de futurologia (nem Oscar Wilde acertou: ‘O século 20 vai acabar com todos os preconceitos’). Mas sobrevivemos - quer dizer, até o fim deste ano.

Aforismos sem juízo - A única coisa que um erro prova é que todo mundo erra."

 

Globo.com

"Resposta da TV Globo ao deputado Eurico Miranda", copyright Globo.com, 11/01/01

"Leia abaixo a íntegra do comunicado da TV Globo em resposta às críticas feitas pelo deputado federal Eurico Miranda em depoimento à CPI da CBF.

‘É mentirosa a afirmação do senhor Eurico Miranda de que a TV Globo seja responsável pelos problemas nos calendários dos jogos. Os calendários são montados pelos dirigentes esportivos e aprovados inclusive pela direção do Vasco.

No caso particular da Copa João Havelange, o senhor Eurico Miranda fez parte do Comitê Executivo desde o início, tendo estimulado o aumento no número de participantes dos 80 inicialmente propostos pelo Clube dos 13 para 116 clubes.

Também assinou documento em que, para atender aos interesses de disputar simultaneamente a Copa Mercosul e a Copa João Havelange, concordava que os clubes jogassem às terças, quintas e domingos. E foi quem, ainda no Comitê Executivo, propôs, para os dias 27 e 30 de dezembro, as datas das finais da Copa João Havelange.

O que acontece é que os times de futebol insistem em participar de mais competições do que as que cabem no calendário, tornando impossível o cumprimento das datas. Assim como o futebol, a Globo é prejudicada porque essas mudanças afetam o seu planejamento.

Ou seja, a Globo paga dezenas de milhões de dólares por um produto que não é entregue nas datas e horários combinados. O interesse da Globo é o mesmo do torcedor: queremos espetáculos de alto nível, pois só assim haverá boa audiência. E, para que isso ocorra, um calendário fixo e planejado é fundamental.

Sobre a final do dia 30, seguindo a sua tradição, a programação normal já estava atrasada e ficaríamos no ar o tempo que fosse necessário para a transmissão da partida.

A Globo lamenta que o dirigente tente culpar a emissora pela desorganização e falta de profissionalismo que ainda impera entre pessoas que usam o futebol em benefício próprio’.

Central Globo de Comunicação"



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