ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001


BALANÇO
Carlos Alberto Di Franco

"Imprensa, um balanço", copyright O Estado de S. Paulo, 8/01//01

"A virada do calendário é sempre um convite à reflexão. Muitos leitores, aturdidos com a extensão do lodaçal que se vislumbra nos escândalos reiteradamente denunciados pela imprensa, cobram um balanço do desempenho ético da mídia. Todos são capazes de intuir que a informação tem sido pedra de toque do processo de moralização dos nossos costumes políticos. Alguns consideram que a imprensa estaria extrapolando o seu papel e assumindo funções reservadas à polícia e ao Poder Judiciário. Outros, ao contrário, preocupados com lamentáveis precedentes de impunidade, gostariam de ver repórteres transformados em juízes ou travestidos em policiais.

Um balanço sereno, no entanto, indica um saldo favorável ao empenho investigativo dos meios de comunicação. O despertar da consciência da urgente necessidade de uma revisão profunda da legislação brasileira, responsável maior pelo clima de estelionato e banditismo nos negócios públicos, representa um serviço inestimável prestado pela imprensa deste país. O ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, por exemplo, não é, como alguns imaginam, um solitário gênio do mal. Armado de notável desenvoltura na prática da delinqüência, ele aproveitou como ninguém as brechas do sistema.

Na verdade, foi um elo, certamente o mais expressivo, de uma disciplinada linha de montagem que dá suporte à indústria da corrupção. Setores do governo e da oposição, tiveram, voluntariamente ou não, alguma participação na aprovação dos créditos suplementares para a construção da sede do TRT de São Paulo. A denúncia, para além das gravíssimas evidências de corrupção que atingem o ex-juiz, levantou importantes questionamentos a respeito da fragilidade do esquema de elaboração, aprovação e execução do Orçamento. A imprensa não ficou no registro dos efeitos. Foi às raízes do problema.

Desnudou toda uma estrutura que precisa ser mudada. Caso contrário, crimes análogos reaparecerão com a mesma intermitência das febres tropicais.

A exposição da chaga, embora desagradável, é sempre um dever ético. Não se constrói um país num pântano. Impõe-se o empenho de drenagem moral. E só um jornalismo de buldogues, comprometido com a verdade, evitará que tudo acabe num esgar. Sabemos, todos, que há muito espaço vazio na cela ocupada pelo juiz Nicolau dos Santos Neto. É preciso avançar no trabalho investigativo, fazer o mapeamento completo do itinerário percorrido pela quadrilha. E, sobretudo, localizar todos os integrantes da gangue. Os meios de comunicação existem para incomodar. Um jornalismo cor-de-rosa é socialmente irrelevante.

A imprensa, sem prejuízo do permanente esforço de isenção, deve mostrar disposição para liderar. Trata-se de uma liderança ética que reclama um contínuo afã de autocrítica e de profissionalismo. Não deveríamos ter telhado de vidro. E temos. A mídia, festejada pela unanimidade nacional, necessita fazer um balanço honesto, precisa ter a coragem de promover a sua CPI interna. Alguns desvios éticos rondam as nossas coberturas: a frivolização da notícia, o vírus do engajamento e o descompromisso com a exatidão.

De algum tempo para cá, setores da grande imprensa manifestam preocupante ambigüidade ética. O que é sensacionalismo barato numa publicação popular é informação de comportamento nas respeitáveis páginas de alguns veículos da chamada grande imprensa. Biografias não autorizadas (ou difamação politicamente correta) e síndrome do boato compõem um retrato de corpo inteiro da indigência editorial. Nem mortos ilustres escapam ao esquartejamento moral. Best sellers de ocasião, apoiados no marketing da leviandade (o mercado editorial britânico tem sido pródigo no sórdido negócio) e sustentados pela repercussão da mídia, ganham status de seriedade. Nem Einstein, transformado por certo autor em mulherengo compulsivo, escapou à fúria do jornalismo de escândalo. O que interessa não é a informação. O que importa é chocar. Ao tentar disputar espaço com o mundo do entretenimento, alguns setores da imprensa estão entrando num perigoso processo de autofagia. Esquecem que a frivolidade não é a melhor companheira para a viagem da qualidade. Pode até atrair num primeiro momento, mas, depois, não duvidemos, termina sofrendo arranhões irreparáveis no seu prestígio.

Na outra ponta do problema, estão as freqüentes recaídas no anacronismo do engajamento informativo. A neutralidade não é sinal de bom jornalismo. É, freqüentemente, sintoma de covardia editorial. Mas a imparcialidade, árdua e difícil, é uma meta que deve ser perseguida. A batalha da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação, da preguiça profissional e da incompetência arrogante. A apuração de faz-de-conta é uma das maiores agressões à imprensa de qualidade. Matérias previamente decididas em guetos engajados buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não se apóia na busca da verdade, mas num artifício para transmitir um simulacro de imparcialidade. A preguiça profissional, falsamente atribuída às pressões do deadline, completa a obra: despenca-se na rotina da inexatidão.

Repórteres carentes de informação especializada e de documentação apropriada acabam derrapando no escorregadio terreno do jornalismo declaratório. Na ausência da pergunta inteligente, a ditadura das aspas ocupa o lugar da apuração.

O Brasil depende, e muito, da qualidade técnica e ética da sua imprensa. Não cabem, portanto, atitudes amadorísticas. A opinião pública espera que a mídia, apoiada no crescente aprimoramento dos seus recursos humanos e nas balizas éticas, prossiga no seu ânimo investigativo. (Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística, é representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil)"

 

PROGNÓSTICOS
Ivson Alves

"Picadinho", copyright Coleguinhas, uni-vos (www.coleguinhas.jor), 7/01//01

Milênio Novo

Ora, ora...Quer dizer que você não desistiu e resolveu encarar mais um milênio, hein? Beleza!. Vamos então voltar aos trabalhos com mais um picadinho à Coleguinhas (que, pra dizer a verdade, vai ser o prato principal daqui por diante, mas depois explico melhor).

TVE/MEC - Um pterodáctilo passou as garras nas redações da TVE e da Rádio MEC, detonando 16 profissionais de jornalismo (12 da TVE - oito da Geral e quatro do Esporte - e todos os quatro do departamento de jornalismo da MEC). Pouco antes, na quarta, havia sido demitida a gerente de jornalismo da TV, Tetê Muniz. E pelo que se diz, o pássaro vai voltar semana que vem e pode pegar até quem elaborou as listas da semana passada.

Este movimento parece mais do que um simples passaralho. Pelo que se comenta, a Radiobrás vai tomar conta das operações da TV - um interventor estaria vindo de BSB para sentar-se na cadeira de presidente - e, no processo, a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp) dançaria (até porque parece que por lá há um cheiro esquisito no ar...). Para quem não lembra, a Acerp foi uma das primeiras organizações sociais (um negócio esquisito que nem bem é ONG, nem bem é agência estatal) inventada pelo governo.

Se for confirmada a investida da Radiobrás, a questão passa a ser mais complicada. É que a Radiobrás é uma agência estatal de notícias e a TVE é uma televisão pública. Eu sei, eu sei, aqui na Botocúndia ninguém leva muito a sério esta diferença, mas não é por isso que ela deixa de existir, pelo menos no plano da teoria, certo? Agência estatal de notícias mandando em TV pública é coisa de levar lágrimas aos olhos dos saudosos dos bons tempos da Mãe Rússia... Mas a gente tem que olhar o lado do governo, não é? Do jeito que anda a brigalhada política, não se sabe como as coisas vão estar em 2002. Sei lá se o PSDB vai precisar de um palanque eletrônico próprio...

É claro que teria que ter gente pra montar e manter o tal palanque de pé. Esta gente já existe: o pessoal da TV que é funcionário público mesmo e não pode ser demitido. Assim, uma equipe mínima continuaria a existir mesmo que a Acerp leve um pipoco na testa. Esta equipe seria acrescida de profissionais recrutados através do concurso que há mais de dois anos a Radiobrás deseja realizar e que preencheria algo em torno de 300 vagas em diversas funções, principalmente no jornalismo. Este concurso tendo edital publicado ainda neste semestre, com prova realizada e homologação dos aprovados até o fim de 2001, permitiria montar uma equipe nova pra TVE a tempo de trabalhar no ano da eleição presidencial.

Bem, vamos ver. Tenho pra mim que esta novela está só no início...

Orwelliana - Agora, uma história leve pra desanuviar o ambiente.

Os editores de um jornal carioca receberam, como presente de fim de ano, uma garrafa de uma bebida importada muito cara. Um deles, chegado há pouco naquela redação, procurou o aquário:

- Ganhei uma garrafa de tal bebida como presente de Natal. O valor é muito acima do que é permitido pelas normas. Vou devolver, ok?

- Que é isso? Uma garrafinha só... Precisa devolver não - disseram.

Dois dias depois, a editora de um grupo de jornais vai ao aquário:

- Olha, alguns repórteres receberam cestinhas de Natal. Eles podem ficar com elas?

- De jeito nenhum! Está escrito que ninguém no jornal pode receber presentes acima der R$ xxx. Manda devolver.

Melhor Página 3 de 2000 e o futuro da coluna - A coluna Morte do Fontes e a falta de cabelos brancos nas redações foi escolhida como a melhor do ano passado com 19 votos (42%), seguida por As razões do assassinato de Sandra Gomide por Pimenta Neves, com 14 votos (31%). O número total de votantes foi de 45.

Cheguei a pensar em acabar com a coluna em sua versão web, passando a mandá-la só por mail. Como você sabe estou cansado e Andréa anda reclamando - com carretas de razão - que perco meus domingos com a Coleguinhas. E como a parte que me dá mais trabalho é a Página 3, me veio a idéia. Mas quem ouviu falar dela torceu o nariz e um dos Conselheiros me fez ver a situação pelo ângulo oposto. ‘Por que você não usa algumas daquelas notas que manda no email na Página 3? Isso facilitaria sua vida’.

Pois é isso que vou fazer, como você já pode ver nas notas abaixo. E é por isso que o picadinho vai ser o prato de resistência desta seção daqui por diante. Claro que as opiniões vão surgir, aqui e ali, mas não serão mais tão obrigatórias assim.

SBT avança - Com uma expansão de 16% durante o ano passado, o SBT passou a levar sua programação a 98% do território nacional, encostando na Rede Globo, presente em 99,8% dos municípios brasileiros. No primeiro dia de 2001, mais seis estações de TV no Pará aderiram oficialmente à rede de propriedade de Silvio Santos, aumentando para 108 as emissoras afiliadas, incluindo seis geradoras próprias e duas associadas. Com isso, o SBT fica com apenas cinco emissoras a menos que a rede da Globo, que tem 113.

As seis novas aquisições do SBT são retransmissoras mistas, que estão em processo de transformação para geradoras. São concessões que ainda poderão passar por licitação, mas seus controladores levam vantagem nesse processo. A Rede Record fechou o ano passado com uma rede de 63 emissoras (15 próprias e quatro associadas) e dez retransmissoras, o que permite uma cobertura de 90% do território nacional. A Rede Bandeirantes terminou 2000 com 33 emissoras, nove delas próprias.

Band News desafia Globo News - A Rede Bandeirantes está lançando o canal pago Band News. A estréia do canal está prevista para fevereiro na operadora DirecTV. O Band News está sendo criado para ser uma alternativa nacional à Globo News (presente nas operações NET e Sky, da Globo Cabo). O novo canal terá um único telejornal, de meia hora, que se repetirá o dia todo, mas incorporando, a cada edição, as últimas notícias. Todo o material jornalístico será produzido pelas equipes da TV Bandeirantes e do Canal 21, além da central de previsão do tempo do grupo. A Band está sendo negociando com operadoras independentes de TV paga que integram o grupo NeoTV, e poderá chegar também à TVA.

Museu Virtual da Imprensa - Projetado pela Associação Museu da Imprensa (AMI), o Museu Virtual da Imprensa, na cidade do Porto (Portugal), oferece aos interessados em história do jornalismo uma baciada de personalidades, notícias e documentos sobre mídia ao longo de sua existência. No site www.imultimedia.pt/museuvirtpress/, o internauta pode pesquisar sobre equipamentos, personalidades e história universal desde o nascimento da imprensa. Vale a visita.

Xeque no cheque - A confusão entre estas duas palavras já passou dos limites, pessoal...Pôr em xeque é assim, com ‘x’, ok?

Nepotismo - Macaco, olha o teu rabo...



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