Se você acompanha ou participa do debate sobre o futuro da imprensa, eis um texto que, pela clareza, conexões e amplitude, merece o tempo que você levar para ler as suas 1.800 e tantas palavras.
Trata-se do artigo ousadamente intitulado “Como salvar a mídia”. O autor se chama Jason Pontin. Ele é editor-chefe da Technology Review, publicada pelo MIT – o famoso Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Cambridge, EUA – onde mantém um blog.
O artigo, diga-se desde logo, tem ao lado de suas inúmeras qualidades, entre as quais ser bem-informado e bem-escrito, um sério defeito: passa batido pelo problema da qualidade do jornalismo, em qualquer de seus formatos. Isso quando não desdenha dele, como ao defender uma política de mãos de tesoura para adequar as redações ao imperativo do lucro das empresas editoras – e dane-se o resto. Mas, enfim, julgue você mesmo.
Tradução, condensação e adaptação do blogueiro. O original pode ser lido aqui. Agradecimentos a Tony Knopp, do MIT, pela dica.
“Durante 300 anos, duas fontes correlatas de renda sustentaram a imprensa: assinaturas e publicidade. O sistema funcionava imperfeitamente. A maioria dos leitores eram caroneiros, lendo exemplares emprestados que outros haviam comprado; e pelo fato de ninguém saber ao certo quantas pessoas liam as publicações, ou como a publicidade influía nas suas decisões de compra, os anunciantes gastavam o seu dinheiro ineficientemente.
Mas enquanto os rendimentos das assinaturas e dos anúncios cresciam, o sistema funcionava. Por sua vez, o negócio editorial respaldava o ofício do jornalismo, o que, tudo considerado, era uma coisa boa. Nas sociedades abertas, revistas e jornais eram os mais importantes pontos de troca no livre mercado de ideias. As publicações informavam, instruíam, divertiam e deliciavam.
Mas a internet ensinou aos leitores que poderiam ler matérias quando quisessem e sem custos, e ofereceu às empresas meios mais eficientes para anunciar. Ambos passaram a gastar menos. Em consequência, o negócio da mídia adoeceu.
Nos últimos meses, as notícias sobre revistas e jornais, já aflitivas por muitos anos, tornaram-se alarmantes.
Tem sido moda perguntar: ‘Se o velho modelo faliu, o que haverá de funcionar no seu lugar? E responder: ‘nada. Nada funcionará’.
A teoria do crepúsculo dos deuses da mídia convencional tem uma formulação mais fraca e outra, mais forte. A versão mais suave diz que “a sociedade não precisa de jornais; o que se precisa é de jornalismo”.
Por isso, as próximas décadas assistirão a uma variedade de experimentos não lucrativos cujas fontes de financiamento serão, por exemplo, bolsas, patrocínios e dotações. Um dia, algum inovador tropeçará em algo que subsidiará confiavelmente as publicações do futuro.
A versão mais forte é que as próprias fontes de informação preencherão o espaço antes ocupado por jornalistas. Todo mundo será jornalista.
Ora, se as empresas de mídia não conseguem faturar e todo mundo é jornalista, segue-se que “amadores” e “fontes” serão parte de uma mídia descentralizada.
Isso tudo é asneira e ignorância. A ideia de que os profissionais envolvidos no negócio da mídia – redatores, editores, diretores de arte, diretores de marketing e vendedores de espaço – estão sendo derrubados por pessoas comuns, usando tecnologias digitais, resulta da confusão entre imprensa convencional e impressoras.
Na realidade, a vantagem comparativa da imprensa convencional não está na propriedade de impressoras, mas na colaboração de profissionais. Fazer bom jornalismo é um processo tremendamente trabalhoso, requerendo infra-estruturas mais dispendiosas do que qualquer impressora.
Essas infra-estruturas, graças às quais as publicações alcançam grandes e coerentes audiências, só podem existir dentro de organizações complexas – empresas, na maioria das vezes.
Algumas dessas infra-estruturas precisam ser reinventadas para a internet. Outras, particularmente as editoriais, continuam funcionando bem. Tenho certeza disso porque o número de leitores de jornais e revistas está crescendo. Claro que, com poucas exceções, esse crescimento é digital.
Para dar um exemplo, entre 14 milhões e 22 milhões de pessoas leem o nytimes.com todo mês; a circulação do Times impresso nos dias úteis é de apenas 1 milhão. Ao todo, a qualquer dia, 32 milhões de americanos leem notícias online. Esses números indicam consumidores satisfeitos. Naturalmente, há um bom negócio para a imprensa convencional no meio eletrônico. A questão absorvente é como pagar por aquilo que agrada a tantos.
É uma calúnia dizer que nem os administradores da imprensa convencional nem os seus jornalistas têm boas respostas para essa questão. Existem muitos donos de editoras [publishers] e editores idiotas, e suas publicações vão morrer. Mas há também muitos líderes espertos, conhecedores da tecnologia, e suas publicações vão prosperar. Embora os detalhes ainda estão em debate, as linhas gerais da mídia de amanhã estão ficando mais claras.
Consumidores, por exemplo, precisam pagar mais pelo que leem. Algumas das coisas que precisam ser feitas não podem ser feitas pela própria mídia. Não será fácil e poderá não acontecer – mas pode ser feito. Por partes:
Circulação, assinaturas, plataformas e frequência
1. A imprensa em papel está morrendo, mas ainda não está morta. Revistas e jornais precisam de uma estratégia para o setor de impressão mesmo ao se preparar para as plataformas digitais do futuro.
2. Durante muitas décadas, publicações eram superdistribuídas a leitores que, no fundo, não as desejavam, porque os seus publishers eram antigos vendedores de anúncios que esperavam ter lucros cobrando dos anunciantes as tarifas mais caras possíveis. Os assinantes se acostumaram a pagar muito pouco, porque os rendimentos da publicidade bancavam os custos de circulação. Os publishers devem cobrar mais de menos leitores por suas assinaturas.
3. Conteúdos pelos quais alguns leitores pagam em um meio (atualmente, impresso, em geral) jamais deve ser oferecido gratis a outros leitores em outro meio (eletrônico, em geral). Em vez disso, material editorial deve ser distribuído aos assinantes numa variedade de plataformas.
4. Assim como os publishers não deveriam se preocupar com quais plataformas os seus leitores preferem, desde que sejam rentáveis, eles deveriam lhes proporcionar a mais ampla escolha razoável de assinaturas. Um leitor deveria poder fazer uma assinatura para a vida inteira ou para um ano, um mês, uma semana, ou um dia. Se fizer sentido, um leitor deveria poder comprar um pacote de matérias, ou mesmo uma matéria. O preço de uma assinatura deve refletir a sua duração e as plataformas nas quais o produto é entregue.
5. A mais importante plataforma editorial do futuro serão provavelmente telas leves, finas e flexíveis, que usem tinta eletrônica. Isso porque o material distribuído a tais monitores será tão interativo como os dos atuais sites, mantendo embora as fontes, o desenho gráfico, as ilustrações e fotos da imprensa tradicional (uma gramática visual maravilhosamente rica na qual diretores de arte trabalharam ao longo dos séculos). Mas os publishers não devem ficar obcecados por plataformas: devem encará-las como meros canais de distribuição que beneficiam diferentes tipos de conteúdo. No curso da próxima década, deverão distribuir conteúdo editorial para além da web, a pequenos equipamentos como iPhone, para equipamentos maiores como o Kindle, da Amazon, para equipamentos que usam tinta eletrônica e para publicações impressas (ao mesmo por um pouquinho mais de tempo).
6. Impressão e distribuição física são caros. Por isso, enquanto continuarem imprimindo e despachando publicações, os publishers deveriam fazê-lo menos frequentemente. Revistas mensais podem ser impressas bimestralmente; revistas semanais, duas vezes por semana; jornais, só aos fins de semana.
Publicidade, patrocínio e classificados
1. Desde sempre, os publishers cobravam demais pelo espaço nas suas publicações impressas, seja por superdistribuí-las, seja por entregá-las a leitores indiferentes às mensagens publicitárias. Assim, os anunciantes se comportam racionalmente quando compram espaço online, mais eficiente e mais fácil de medir. Em vez de ficar ressentidos com os anunciantes, ou esperar que de algum modo recuperem o entusiasmo pela ineficiência e impossibilidade de contabilizar os efeitos dos anúncios. Nem o ressentimento, nem a esperança são estratégias de negócios.
2. Hoje em dia, os anúncios on line mais apreciados pelos anunciantes são as palavras-chaves e os de busca (os links patrocinados que aparecem junto aos resultados da pesquisa no Google e outros sites do gênero, ou são vendidos por empresas de busca e aparecem em outros sites). Os anunciantes gostam das palavras-chaves porque a sua efetividade não deixa margem a dúvidas: eles pagam por cliques ou transações. Gastos com palavras-chaves aumentaram 21% em 2008 e representam atualmente 45% da publicidade online. Em comparação, os anúncios expostos, ou banners, cresceram apenas 4%. Isso é um problema porque esse tipo de comerciais deveriam financiar a grande migração de leitores para a nova mídia. Mas eles só competirão com a publicidade de palavras-chaves só quando houver melhores instrumentos de medição de audiência. Espantosamente, ninguém sabe quantas pessoas visitam sites. Nenhum fornecedor desses dados é confiável. Os blogues exageram o seu público.
3. Além de estarem cobertos de divergências sobre o tamanho dos públicos na web, a publicidade de banners padece de profundos problemas estruturais que precisarão ser resolvidos antes que os anunciantes gastem nisso grandes somas.
4. Entre as mais promissoras formas de publicidade para as empresas de mídia são os anúncios sob medida – quando o publisher trabalha diretamente com um anunciante e a sua agência para criar uma campanha singular, ligada a um evento editorial específico, integrando todas as plataformas. Mas o problema é que muitos anunciantes, encorajados por um mercado publicitário deprimido, desejam borrar as fronteiras entre publicidade e material editorial.
5. Anúncios classificados, a não ser no sentido estreito de ofertas de emprego em publicações profissionais, já não fazem parte do negócio de publicar. Esqueçam deles.
Material editorial
1. Editores podem cobrar por conteúdo que seja singularmente inteligente; que se baseie em dados, investigação e análises autorizados; que ajude os leitores no seu trabalho, investimentos e consumo pessoal; ou que seja custosamente produzido. Tudo mais precisa ser gratis. A propósito, embora a qualidade do material redacional deva ficar à altura dos padrões mínimos de uma publicação, os editores não deveriam investir nisso tempo ou dinheiro demais: bom é o bastante.
2. Na maior parte das vezes, editores devem dar aos leitores o que eles dizem que querem. Isso exigirá uma mudança oceânica de atitude. À medida que subi na hierarquia de várias redações, fui encorajado a cultivar um suave desdém pelos leitores. Dizíamos a nós mesmos que eles não sabiam o que queriam. Mas a mídia eletrônica e as tecnologias sociaias tiveram um efeito paradoxal: de um lado, leitores decepcionados podem abandonar uma publicação com um clique de mouse ou um golpe de polegar; de outro, os mesmos fatores fortaleceram as sensibilidades dos leitores. Nossa regra no Technology Review é que cerca de 80% do que publicamos deve satisfazer as expectativas dos leitores, e o resto pode expandir suas mentes.
3. Uma das coisas que alguns leitores dizem querer é publicar comentários sobre matérias, assim como as suas próprias matérias em sites das empresas de mídia. Frequentemente, tais leitores querem poder se comunicar diretamente uns com os outros, por meio de tecnologias sociais. Esses leitores não são tantos assim, mas têm opiniões fortes sobre o assunto e ficam bravos quando suspeitam que os editores querem ser ‘porteiros’. Estes devem dar as boas vindas à participação do leitorado e abrir as suas redações ao mundo exterior. (Eu, por mim, adoro saber o que os nossos leitores pensam e sabem.) Considerado apenas como oportunidade de negócios, conteúdo gerado por leitores faz sentido: o conteúdo, em si, é gratis, os custos a ele associados se limitam à hospedagem na web e ao desenvolvimento do sistema pelo qual os leitores podem mandar seus textos, enquanto o conteúdo gera tráfego e impressões.
4. As redações devem ficar menores. Quão menores? A menos que um jornal ou revista tenha um patrono abonado, tem de dar lucro real e previsível. Se tiver um patrono, as perdas da publicação devem ser previsíveis e sustentáveis. Juntamente com outros gastos, orçamentos editoriais devem encolher até se tornar racionais, ou a publicação fechará. Aceitar isso será extremamente difícil para a maioria dos editores; só o seu próprio fim ou a quebra das empresas onde trabalham realmente os convencerá. As coisas mudam ou perecem, incluíndo organizações outrora acalentadas. Os atuais diários e revistas serão transformados ou substituídos por outras publicações, que terão novas formas e modos de negócios. Haverá uma grande e terrível faxina: pencas de jornais e revistas desaparecerão; os que sobreviverem ficarão muito reduzidos; e a maioria das pessoas empregadas como jornalistas ou profissionais de mídia terão empregos diferentes daqui a cinco anos. Ao mesmo tempo, milhões de ‘amadores’ e ‘fontes’ florescerão para enfeitiçar leitores. Mas quem quer que diga que a mídia-enquanto-negócio está morrendo está errado.”
Como eu ía dizendo outro dia, jornalistas americanos protestaram contra o pessoal de imprensa da Casa Branca por ter convidado um editor do site noticioso Huffington Post, Nico Pitney, para uma entrevista coletiva do presidente Barack Obama.
Protestaram não porque se tratasse dele, ou porque fosse um blogueiro, mas porque ao convite se seguiu a oportunidade de fazer uma pergunta ao presidente. Ficou a suspeita de que ele foi chamado para perguntar o que Obama queria responder. Normalmente, participam das coletivas apenas os jornalistas credenciados na sede do governo.
No bate-rebate que se formou, o público ficou sabendo que o presidente não escolhe os perguntadores ao acaso, mas de acordo com uma lista de nomes preparada de antemão pela sua assessoria.
Aqui, ó, portanto, para a igualdade de oportunidades entre os jornalistas participantes desses eventos.
As críticas procedem, mas, vindo de quem vêm, são de uma ingenuidade estonteante. Que jornalistas são esses que acham que o presidente dos Estados Unidos – ou, no caso, qualquer chefe de governo que conhece o caminho das pedras da comunicação pela mídia – chama uma coletiva para correr o risco de dizer o que não quer?
Coletivas existem, isso sim, para os entrevistados darem os seus recados, a cada vez, passando aos incautos a impressão de que estão sendo sabatinados pela sociedade, por meio da imprensa, numa periódica prestação de contas de seus atos.
A rigor, não tem mistério no que o New York Times, tentando fazer ironia, chamou “segredinho sujo” para se referir ao fato de que os presidentes quase sempre sabem o que lhes será perguntado nessas entrevistas.
Não porque os perguntadores sejam chapas-brancas, mas, primeiro, porque os assuntos na ordem do dia estão, por isso mesmo, na cara de quem quer que se interesse por ele; e, segundo, porque a preparação do entrevistado inclui não só uma pauta o quanto possível abrangente de assuntos com chances de pipocar na coletiva, como ainda um rigoroso aquecimento.
É o tal do media-training de que até o mais distraído dos leitores brasileiros decerto já terá ouvido falar, de tanto que a expressão aparece nas matérias sobre a preparação dos participantes nos debates da TV com os candidatos a cargos executivos.
Nesse exercício, gravado e filmado para avaliação posterior, os assessores se comportam como repórteres implacáveis e conhecedores das coisas, dando um jeito de fazer perguntas inesperadas até sobre os temas mais óbvios.
Por isso acaba sendo ínfima a chance de o entrevistado, na vida real, ser colhido por uma questão fora da curva, muito menos formulada em termos que sugerem que o repórter tem outro ás na manga se e quando tiver a chance de replicar a resposta recebida.
Contra isso, pouco podem os entrevistadores, já não bastasse o tanto de solenidade que cerca esses acontecimentos. É o oposto das entrevistas chamadas “quebra-queixo”, quando os repórteres tentam se valer de uma situação qualquer que estejam cobrindo para acuar a autoridade presidente com uma cacofonia de perguntas gritadas – o que há muitos anos o repórter Clovis Rossi, da Folha de S.Paulo batizou como “cenas de jornalismo explícito”.
O ritual das conferências de imprensa sempre dá margem a algum tipo de orquestração. Nos Estados Unidos, quando as coletivas começaram a ser transmitidas ao vivo – no governo Eisenhower (1953-1961) – e não havia media training, os próprios repórteres tomavam cuidado para não constranger o presidente. Alguns até confidenciavam ao assessor de imprensa o que pretendiam perguntar, se tivessem a oportunidade. O que era também uma forma de tê-la, e assim aparecer para milhões de espectadores ao vivo e preto-e-branco. (Nunca ninguém perdeu dinheiro apostando na vaidade dos jornalistas.)
Além disso, os presidentes sempre sabem quem, entre os repórteres credenciados, tende a fazer perguntas mais – ou menos – incômodas. E quem deve aos seus assessores o valioso favor de uma dica que terá rendido uma matéria exclusiva. E isso no melhor dos mundos, em que não se imagina um jornalista receber qualquer outro benefício dos poderosos.
Para tornar o jogo mais equilibrado – embora nunca tão equilibrado como seria bom para o interesse público –, um passo na direção certa é sortear os entrevistadores, quando eles são tantos que não haverá tempo para todos fazerem as suas perguntas.
Agora o que não tem remédio são os meios ao alcance do governante para fazer de cada entrevista do gênero um espetáculo em que ele se mostrará no melhor de sua forma. A própria data escolhida para o acontecimento é um desses recursos.
O presidente Lula foi muito criticado porque levou dois anos e quatro meses para dar a sua primeira coletiva – cujos participantes, por sinal, não puderam emendar uma segunda pergunta nas respostas recebidas.
Olhando em retrospecto: fez alguma diferença, para além do teatro chamado videopolítica, a demora de Lula?
Nem por isso tais coletivas são inúteis ou não devem merecer a atenção do público. O problema é que raramente a imprensa chama a atenção para o que nelas verdadeiramente interessa: as possíveis razões por que o entrevistado quis passar tal mensagem em tal ocasião, servindo-se da mídia como escada.
P.S. Acrescentado às 9h15 de 2/7
Ocupa uma coluna inteira na página A6 da Folha de hoje o melhor texto-guia sobre o esfarinhamento do Senado saído na grande imprensa. Intitulada “Crise no Senado continuará com ou sem Sarney”, a análise é do repórter Kennedy Alencar. Lá vai:
“A crise do Senado continuará grave com José Sarney na presidência da Casa ou fora dela. Motivos: ela se estende a outros senadores e possui raízes podres antigas em todas as esferas da instituição.
Sarney está na berlinda porque personifica como poucos os vícios do Senado e da tradição patrimonialista da política brasileira. Ele é o último grande oligarca do século 20.
Apesar do importante papel na transição da ditadura para a democracia em 1985, dono de um temperamento que dissipou e não alimentou crises, Sarney fez carreira política na base da troca de favores, com frequente confusão entre o público e o privado.
No entanto, senadores do DEM, PMDB, PT e PSDB, para ficar nos quatro principais partidos, também usaram o patrimônio público como se fosse particular. Se Sarney permanecer enfraquecido na cadeira, esses senadores terão de responder por seus pecados. Se Sarney sair, também.
No cenário de licença, o substituto imediato é o atual primeiro-vice-presidente do Senado, Marconi Perillo (PSDB-GO). O tucano seria candidato a mandato-relâmpago. Tem processos na Justiça e entraria na mira de peemedebistas humilhados. É detestado por Lula, e a própria bancada do PSDB acha que duraria pouco.
Na hipótese de inviabilização de Perillo, a substituta é a segunda-vice-presidente, Serys Slhessarenko (PT-MT). Ela faz parte da turma com funcionário-fantasma morando no exterior e salário pago pelo Senado. Uma licença de Sarney poderia desencadear efeito dominó.
E se o peemedebista renunciar à presidência do Senado? Nova eleição teria de ser feita em cinco dias. Talvez isso forçasse à renúncia de toda a Mesa Diretora, o que exigiria nova eleição no mesmo prazo.
Ora, o estopim da atual crise foi justamente a disputa entre as alianças inusitadas de PMDB e DEM contra PT e PSDB. Não parece haver clima para reeditar embate semelhante àquele em que Sarney derrotou Tião Viana (PT-AC).
E uma chapa única, de consenso, com um nome "ético" ou inofensivo aos olhos do governo e da oposição? Seria difícil encontrar, mas há alguns poucos senadores a preencher esse perfil. Os tradicionalmente lembrados são o democrata Marco Maciel (PE) e os peemedebistas Pedro Simon (RS), Jarbas Vasconcellos (PE) e Garibaldi Alves (RN).
Mas, resolvidos embaraços políticos, estaria solucionada a crise do Senado? Não.
Motoristas continuariam a ganhar R$ 12 mil por mês, com direito a dublagem de mordomo. Dos R$ 2,8 bilhões de orçamento anual do Senado, cerca de R$ 2 bilhões servem para custear apenas a folha de pagamento de ativos e inativos -uma despesa insustentável perante uma opinião pública, que vai tomando conhecimento da caixa-preta do Congresso.
A maioria dos 600 atos secretos (que podem ser mais de mil) seria legalmente vista como ato jurídico perfeito. Traduzindo: dificilmente tais atos seriam revertidos na Justiça.
O atual primeiro-secretário do Senado, Heráclito Fortes (PI), diz que não dá para saber quantos funcionários exatamente a Casa tem. Sua secretaria é uma espécie de prefeitura do Senado. Heráclito revela que, no início do ano, o Senado tinha 12 mil e que o número caiu para cerca de 11 mil. Os contratos de terceirização de funcionários, uma mina de ouro da gestão Agaciel Maia, são outra caixa-preta. Os funcionários de carreira têm penduricalhos salariais que multiplicam seus salários.
Sarney é a cara da crise, mas não a única. Uma solução de verdade custará tempo e vontade de cortar na carne de senadores, partidos e servidores.”
Não é estranho que a primeira secretaria da mesa do senado seja ocupada há quinze anos pelo PFL/DEM,justamente , a que tem atribuições de administrar o setor onde se dá a crise.?
Se a jovem Neda Agha Soltan se tornou o símbolo mundial dos protestos contra os resultados da eleição presidencial iraniana do dia 12 – a sua morte, numa rua de Teerã, foi filmada por duas testemunhas munidas de celulares e divulgada no YouTube –, o símbolo da parceria entre a imprensa e os inumeráveis jornalistas improvisados que a abasteceram de informações sobre os acontecimentos no Irã é o blogueiro Nico Pitney, principal editor de notícias do site americano Huffington Post.
Nico foi convidado pela Casa Branca a participar de uma entrevista coletiva do presidente Barack Obama na semana passada. E teve a oportunidade de lhe fazer uma pergunta – por sinal, uma pergunta que ele disse ter recebido de um iraniano e que o presidente não respondeu direito.
[O episódio provocou uma saia-justa entre setores da mídia americana e a equipe de imprensa de Obama, acusada de transformar as coletivas dele num jogo de cartas marcadas. Mas, para que não se perca o fio da meada, essa história fica para outra vez.]
No dia seguinte à eleição, quando começaram as manifestações, Nico começou a “agregar”, como se diz na blogosfera, notícias sobre o Irã. Segundo o New York Times da segunda-feira, 29, o seu blog, atualizado diariamente várias vezes por hora, tinha recebido até a semana passada mais de 100 mil comentários e 5 milhões de visitas.
Claro que ele não está sozinho nesse tipo de empreitada. Entre os jornalistas ocidentais que vararam dias e noites recebendo notícias de fontes amadoras iranianas – via mensagens de texto, fotos e vídeos – a matéria destaca Matthew Weaver, que escreve na edição online do jornal londrino The Guardian, e Lila King, a editora do site iReport.com, da rede CNN, e Robert Mackey, editor do blog The Lede, do próprio NYTimes.
Os seus relatos e comentários compõem uma história fascinante. Pela primeira vez, jornalistas e o que se convenciou chamar “jornalistas-cidadãos” formaram uma sociedade em escala global para divulgar uma grande notícia contínua – a crise em curso no Irã –, especialmente depois que o governo fechou as portas do país à mídia estrangeira (recusando-se a prorrogar os vistos dos repórteres que vieram cobrir a eleição, proibindo os correspondentes regulares de ir às ruas, além de expulsar um deles, da BBC).
A história é fascinante não apenas por si mesma, mas por escancarar a discussão que já tardava sobre a credibilidade das informações que a imprensa recebe e divulga na web quando não pode se certificar de que são verdadeiras.
E a certificação da notícia talvez seja o aspecto singular mais importante do debate sobre o jornalismo-cidadão comparado ao jornalismo dito convencional, com os seus procedimentos estabelecidos de seleção, apuração, verificação e edição dos fatos – que a nova modalidade trata com espantosa ligeireza.
No caso do Irã, os jornalistas-blogueiros foram soterrados por uma massa de informações que não tinham condições de averiguar, ainda mais na alucinada corrida pelo furo. Prevaleceu o princípio de publicar primeiro e conferir depois.
O interessante é que nessa loucura toda não foi ao ar nenhuma barbaridade – embora ainda não estejam inteiramente claras, no episódio mais dramático, as circunstâncias da morte de Neda Soltan. O governo iraniano diz que vai investigar quem a baleou, como que absolvendo de antemão as forças de segurança e milícias do regime.
Na avaliação de Weawer, do Guardian, o que as pessoas informavam em dado momento acabava sendo confirmado horas depois por fontes “mais convencionais”. Ele provavelmente se refere a iranianos no exterior e a analistas de outras nacionalidades que falavam por telefone ou e-mail com conhecidos no país suficientemente corajosos para entrar nessa interlocução decerto vigiada.
A conduta da CNN é um bom exemplo. Em condições normais, a rede publica automaticamente as mensagens dirigidas ao iReport.com, mas só as transmite depois de entrar em contato com o remetente e de checá-las por conta própria.
A seleção ficou mais difícil quando passaram a chover textos e imagens do Irã. Ainda assim, de um total de 5.200, apenas 180 foram considerados seguros para serem exibidos no noticiário.
Entre os filtros a que a emissora recorria estavam conhecedores do idioma iraniano, o farsi, incumbidos de reconhecer a algaravia nos vídeos de protesto, identificar sotaques e traduzir inscrições e palavras de ordem gritadas.
Foi um marco, exultou a editora Lila King.
Foi também uma aposta arriscada. A praxe é o jornalista receber uma dica, ir atrás e publicar o resultado, se bater. Nesse caso, o processo ficou de ponta-cabeça, com a divulgação das “dicas” antes de sua averiguação.
Uma das sacadas dos jornalistas consistiu em divulgar e ao mesmo tempo pedir aos leitores que corroborassem ou desmentissem a notícia. O pior que parece ter acontecido foram as advertências de leitores de que essa ou aquela informação já tinha saído em outro blog e essa ou aquela imagem já estava no YouTube.
Outra boa nova foi o rápido aprendizado dos repórteres-voluntários. Eles passaram a dar mais detalhes das cenas que enviavam, filmando, por exemplo, placas de ruas e pontos conhecidos da paisagem urbana de Teerã.
À falta de uma coisa e de outra, os editores mandavam ver, ressalvando que não punham a mão no fogo pelo material – o que só é admissível, e olhe lá, em circunstâncias extremas como essa.
O NYT menciona o caso do âncora da Fox News que uma noite dessas, depois da exibição de um vídeo mostrando policiais à paisana batendo e arrastando pessoas, tratou de se resguardar: “Não sabemos de quando e onde é esse vídeo. Não sabemos nem se foi encenado, embora não tenhamos motivos para achar isso. Só sabemos que foi posto recentemente no YouTube.”
Tem um porém: mesmo na televisão, que dirá nos jornais e revistas, jornalismo não é só apresentar informações quentes, em que se possa confiar, mas, principalmente, cercar a informação primária de tantas outras quantas sejam necessárias para que o público a entenda e forme opinião a respeito.
Para isso, o jornalista não pode imaginar que basta recorrer ao suprassumo das novas tecnologias de comunicação e a tarefa estará cumprida.
Como alertou, na mosca, o observador Alberto Dines, não confundir a ferramenta com o ofício.
A batalha da informação
A crise iraniana não confrontou apenas jornalistas com o dilema de saber ou não saber. A informação, afinal, é também matéria-prima essencial para qualquer um tomar decisões sobre quaisquer assuntos – incluíndo a vida pública.
Sobre isso, o Estado teve a boa idéia de transcrever domingo, no caderno Aliás, um artigo de quase página inteira publicado no Washington Post, de autoria de três pesquisadores de um centro da Universidade Harvard que estuda internet e sociedade.
John Palfrey, Bruce Etling e Robert Faris chamam a atenção para o fato de que os governos antidemocráticos – eles citam, além do Irã, China, Mianmar, Rússia e Egito – não procuram apenas bloquear o acesso dos seus críticos à internet, mas cuidam de aprender a usá-la a seu favor.
Trechos:
”Os 140 caracteres permitidos em um tweet não representam o fim da política como a conhecemos – e às vezes podem se revelar um instrumento útil para os regimes autoritários.
No Irã, como em qualquer parte do mundo, se uma verdadeira revolução se desencadear, terá de ser offline.
Paradoxalmente, a ‘liberdade de gritar’ online pode na verdade até mesmo ajudar os regimes autoritários, servindo de uma espécie de válvula de escape política. Quando a dissensão é canalizada no ciberespaço, pode manter os manifestantes longe das ruas e ajudar as forças de segurança do Estado a perseguir ativistas políticos e as novas vozes online.
[Além disso] a blogosfera não está limitada a ativistas jovens, liberais. Nossa pesquisa na blogosfera iraniana mostra que os conservadores políticos e religiosos estão tão em evidência quanto os críticos do regime.
Muito embora em geral os governos a reprimam, não podem manter a internet fechada por muito tempo sem uma forte reação dos cidadãos. As autoridades iranianas têm o poder de fechar a internet da mesma maneira como já fecharam os jornais reformistas, mas talvez estejam agora mais preocupados com a possibilidade de que qualquer ação empurre aqueles que estão apenas assistindo – ou blogando, ou twittando – para junto das multidões de manifestantes que já estão nas ruas.”
O eu-repórter, das "Organizações Globo", vai cobrar direitos. Curioso, é que parece, tudo adredemente preparado,sabedores que as pesquisas promovidas por organizações "ocidentais",davam a vitória para o atual presidente na proporção revelada pelas urnas.Os "eu-repórteres",cobriam apenas a oposição, que destacavam as bem produzidas iranianas, com raramente se vê nas coberturas cotidianas.E,o que dizer, da palavra de ordem "Where is my vote?",omogenamente distribuída e bem focada. Para finalizar,como se explica, a central de transmissão,organização e distribuição,fosse justamente em Israel? Nem iraniano bêbado, consentiria! Pena, que Honduras , não tivesse a mesma atenção,tampouco merecesse a indignação de primeira hora dos guardiões da liberdade ocidental,tão próximos.
pela USP, onde lecionou Sociologia da Comunicação.
Escreve no Observatório da Imprensa e no jornal "O Estado de S.Paulo". Entre
outras atividades, foi redator-chefe das revistas "Superinteressante" e "IstoÉ",
editor-assistente da "Veja", editor político e apresentador do programa
"Perspectiva" da TV Cultura, editor nacional da "Visão" e editor de assuntos
especiais da "Realidade". É autor, com Maria Hermínia Tavares de Almeida, de
"Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime
militar, in "História da Vida Privada no Brasil", Lilia Moritz Schwarcz (org.),
1998, e do perfil político de Vladimir Herzog (sem título), in "Vlado — Retrato
da morte de um homem e de uma época, Paulo Markun (org.), 1985. Recebeu o Prêmio
Esso de Jornalismo Científico, em 1990.
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