ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 24/11/2009
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Economista americano diz que os interesses econômicos pesam mais nas distorções no noticiário que a ideologia
Postado por Carlos Castilho em 26/3/2007 às 12:49:39 AM
 
 

Matthew Gentzkow, é um dos primeiros economistas da famosa escola de Chicago a criar fórmulas matemáticas para estudar a questão das distorções no noticiário dos jornais, um tema onde a diversidade de opiniões é quase tão grande quanto a complexidade do problema.

E como era previsível, as conclusões do estudo O Que Leva a Imprensa a Ser Tendenciosa (What Drives Media Slant ) estão provocando uma grande polêmica tanto entre jornalistas como entre leitores e pesquisadores da comunicação.

A mais controvertida das conclusões da pesquisa é a de que o noticiário tendencioso é mais influenciado pelo público leitor do que pelo dono do jornal. Outra afirmação do estudo realizado por Matthew Gentzkow e seu colega de universidade Jesse M. Shapiro é a de que os jornais distorcem a notícia para obter credibilidade dos seus leitores.

Estas duas conclusões provocaram apaixonados debates tanto entre jornalistas considerados conservadores nos Estados Unidos como entre os profissionais tidos como liberais. Segundo Gentzkow isto é uma conseqüência do fato de que nem um nem outro grupo reconhece que existe tendenciosidade, ou o que os norte-americanos chamam de bias, no noticiário jornalístico quotidiano.

Os dois economistas basearam as suas conclusões em modelos matemáticos construídos a partir de uma pesquisa onde eles compararam a freqüência com que determinadas expressões usadas por parlamentares republicanos e democratas apareciam no noticiário de 400 jornais estudados.

Segundo eles, os jornais tendem a distorcer informações para adequar-se às crenças e valores do seu público. Seria uma decisão mais econômica do que ideológica porque a grande preocupação seria a vendagem de exemplares, e a reflexão para justifica-la seria a seguinte:

Quando uma notícia entra em choque com as crenças dos leitores, eles tenderiam a ignorá-la e desconfiar do material publicado. Nestas condições, segundo Gentzkow e Shapiro, a preocupação dos jornais com a manutenção da sua credibilidade os levaria a "dar um giro" na notícia para torna-la mais palatável ao público.

Evidentemente que uma afirmação como esta bate de frente com uma série de idéias bastante consolidadas e que creditam os desvios jornalísticos à ideologia dos executivos e proprietários de jornais.

O estudo afirma também que o noticiário tendencioso é mais freqüente na cobertura de temas complexos ou mais abstratos (por exemplo, a guerra no Iraque) do que em questões objetivas (como cotações da bolsa). Garante também que a freqüência de notícias distorcidas diminui muito em ambientes de alta diversidade de fontes de informação.

Neste item, os autores batem de frente também com o governo Bush que pretende usar a pressão diplomática e econômica para tentar frear, o que a Casa Branca considera, facciosismo anti-americano da imprensa árabe, na questão da guerra do Iraque. O estudo sugere que a alternativa seria diversificar as fontes de opinião para minimizar o efeito do noticiário da TV Al-Jazzira, por exemplo.

O estudo é muito complexo e tem páginas e mais páginas com fórmulas matemáticas e estatísticas para fundamentar as teses de Gentzkow e Shapiro. O primeiro impulso é rejeita-las ou aceita-las a partir dos valores de cada um. Pode-se não concordar com as propostas, mas tudo indica que a pesquisa foi séria e aprofundada.

Comentários (9)
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Danielle  Giannini, jornalista (São Paulo/SP)
Enviado em 31/3/2007 às 10:58:56 AM

Imagino que em nenhum momento da história da imprensa ela não tenha sido tendenciosa. É do ser humano filtrar com palavras o que vê e escuta. Não são necessários modelos matemáticos para comprovar isso, ainda que seja curioso o recurso (aliás, qual era o obejetivo daqueles economistas da pesquisa?). Desde que o homem criou a linguagem e deu-se ao trabalho de comunicar-se, ele percebeu que tinha o poder de escolher as palavras, as informações, a ordem do seu discurso e até o tom da sua fala e as expressões no rosto. O ser humano é manipulador na essência e não seria diferente no âmbito da imprensa. Não sei porque choca tanto a constatação do óbvio: a imprensa é tendenciosa. Assustador? Não sei. Seria apenas interessante este fenômeno se tivéssemos um público preparado para ler, ver e ouvir, entendendo não só o que dizem as palavras, mas o que elas não dizem também. Se o público é manipulado, ele tem lá sua parcela de responsabilidade, e também todos na sociedade que nada fazem para que o nível educacional no planeta atinja níveis razoáveis. A propósito, existe alguma pesquisa indicando onde os efeitos manipuladores da mídia são mais perceptíveis, em que países, que tipo de público, nível educacional, etc? Se alguém conhecer, por gentileza, me indique.
Luiz Paulo  Santana, Economista (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 29/3/2007 às 6:38:23 PM

A matemática pode efetivamente colaborar com as Ciências Humanas, sem dúvida. Mas é necessário muito cuidado. A exemplo dos neoclássicos, estudiosos das Ciências Econômicas, com seus modelos de equilíbrio geral. Na teoria, perfeito. Na prática, não há como matematizar a interferência humana, ou seja, os conglomerados, a concentração de poder, o oligopólio, o monopólio, o sub-preço, a concorrência desleal, a ação protecionista dos governos, a açõa imperialista dos governos, o salve-se quem puder.
Saulo  Aguiar, Estudante de Jornalismo (Araxa/MG)
Enviado em 29/3/2007 às 9:40:04 AM

Precisava mesmo de fórmulas matemáticas para estudar as distorções no noticiário dos jornais? Isso é tão simples como 1 + 1 é 2. Donos de jornais distorcem a noticias para obter credibilidade e adequar as crenças e valores dos seus “fieis” assinantes. Por outro lado, leitores de banca, já leiam as notícias de forma tendenciosa, devido á linha editorial dos jornais e falta de diversidades de opiniões.
Célio  Mendes, Bancario (Vitória/ES)
Enviado em 28/3/2007 às 9:06:39 PM

Interessante o método utilizado, porem há que se questionar como chegaram as tais expressões que caracterizariam uma o outra vertente. Em uma democracia consolidada como a americana onde os meios de comunicação estão realmente submetidos a uma competição (embora tenha-se observado uma capitulação aos interesses do governo Bush após os atentados de 11 de setembro) as conclusões tiradas até fazem algum sentido, mas no caso do nosso país teremos que procurar os motivos para a tendenciosidade em outro local que não as "crenças" dos leitores. Isso para não falar que a fatia da população com acesso a imprensa escrita esta infinitamente aquem da dos nossos big brothers do norte.
Márcio  Pereira, Trabalhador (São José/SC)
Enviado em 28/3/2007 às 9:54:39 AM

Interessante utilizar o recurso matemático pra demonstrar a tendenciosidade da mídia; particularmente, sempre desconfiei que o aspecto econômico sempre preponderou sobre o ideológico na hora de moldar a opinião pública. O fator econômico é a ideologia!
Fabio  de Oliveira Ribeiro, advogado (Osasco/SP)
Enviado em 28/3/2007 às 8:50:43 AM

Reproduzo aqui parcialmente a resenha que fiz do livro ELEMENTOS DO JORNALISMO de Bill Kovach e Tom Rosentiel, que adota uma perspectiva um pouco diferente: "O livro sugere que o paradoxo da livre circulação de informação combinado com o desinteresse e desinformação do cidadão americano pode ser solucionado através de uma maior participação do leitor. Alertam, entretanto, que “...neste começo de século 21 a profissão terá pela frente a maior ameaça de sua história. Veremos pela primeira vez o surgimento de um jornalismo baseado no mercado, mais e mais divorciado da idéia de responsabilidade cívica.” De qualquer maneira, advertem que somente “... uma imprensa livre dos censores governamentais pode contar a verdade. Num contexto moderno, essa liberdade expandiu-se de forma a significar independência de outras instituições também - partidos políticos, anunciantes, negócios e outras fontes. A conglomeração de negócios informativos ameaça a sobrevivência da imprensa como instituição independente, à medida que o jornalismo se converte em um setor subsidiário dentro das grandes corporações essencialmente voltadas para os negócios.” Corporações cujos interesses se refletem dentro da administração pública em razão do financiamento de partidos e candidatos que certamente não poderão ser questionados publicamente pelos jornalistas que forem empregados da companhia. "
Paulo  Sousa, jornalista (Balneário Camboriú/SC)
Enviado em 28/3/2007 às 1:11:09 AM

Alguém usando modelos matemáticos em estudos de comunicação? Ótimo! Enfim, há vida inteligente nos estudos sobre jornalismo. Até então, só aquele monte de bobagens da teoria crítica. Os estudos sobre mídia são, na imensa maioria, indigentes em termos de formalização e rigor científico.
Marco Costa  Costa, T.P.A. (São Caetano do Sul/SP)
Enviado em 27/3/2007 às 3:40:21 PM

O novo sistema estabelecido pela elite mundial, só se fala em economia. O regime Neoliberal trabalha em função única e exclusivamente atrás do dinheiro, ou seja, meia dúzia de capitalistas são os verdadeiros donos de todo processo produtivo deste planeta. Não é atoa que a miséria aumentou consideravelmente, o índice de criminalidade é descomunal, a prostituição infanto-juvenil é alarmante, crianças jogadas nas esquinas da vida tem aos montes. Que tal falar menos na matéria econômica e começar a trabalhar em prol da humanidade.
Fabio  de Oliveira Ribeiro, advogado (Osasco/SP)
Enviado em 27/3/2007 às 3:16:38 PM

Pois é meu caro. Os gringos precisaram de formulas matemáticas para dizer exatamente o que um jornalista brazuca já havia dito em 2001. Em seu livro MÍDIA E DESINFORMAÇÃO Leão Serva credita algumas das distorçoes jornalisticas à racinalidade econômica a que estão submetidas as empresas de comunicação (necessidade das mesmas tornar as notícias atrativas para vender seu produto).
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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