ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 564 - 17/11/2009
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Aos leitores
Postado por Luiz Weis em 12/10/2009 às 11:50:07 AM
 
 

A partir de hoje (12/10), o Verbo Solto ficará em recesso por tempo indeterminado. O acervo do blog estará disponível em breve na seção "Biblioteca" deste Observatório.

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Uma pauta para mudar o Rio
Postado por Luiz Weis em 5/10/2009 às 5:57:49 PM
 
 

Seria fazer muito pouco de nossa imprensa imaginar que a ideia já não tenha ocorrido ao menos a um jornalista e não tenha corrido ao menos por uma redação, mesmo no clima de carnaval da vitória desses últimos dias.

A ideia é sobre a parte que cabe à mídia para tornar possível o que interessa acima de tudo na realização das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro: a oportunidade sem precedentes até onde a memória alcança de mudar a cidade para mudar a qualidade de vida da população carioca.

Uma coisa é preparar a cidade para os Jogos em sentido estrito. Outra coisa, porque não quer dizer necessariamente o mesmo, apesar dos muitos pontos em comum, é fazer da cidade, aproveitando o embalo e os bilhões que vão rolar no processo, um lugar decente para todos quantos precisem disso, a começar dos pobres.

É razoável supor que o modo como a mídia participar da repaginação do Rio para atender aos compromissos assumidos pelo Brasil em Copenhague pode fazer diferença no campo social.

Pode fazer também diferença para a história do jornalismo brasileiro.

Claro que a incumbência primeira é do Globo – o único jornalão que sobreviveu no Rio. Ah, a falta que fazem o Jornal do Brasil de outros tempos, o Correio da Manhã… Mas isso não quer dizer que a Folha e o Estado de S.Paulo estejam confinados a serem figurantes nessa história.

Na TV e no rádio, o mesmo vale para as outras redes, além da Globo.

Mas, afinal, do que se está falando?

Está se falando de a imprensa se apetrechar para uma operação de longo prazo, absolutamente incomum portanto, que deveria ir além da melhor cobertura concebível do que o poder público decidir fazer e fizer para tornar o Rio uma cidade olímpica.

A operação começaria por revisitar sistematicamente as grandes mazelas cariocas. Imagine-se uma força-tarefa de jornalistas criada para planejar, coordenar e publicar a partir de 2010 a mais ambiciosa sequência de reportagens sobre o “estado da arte” dos conhecidos desastres cariocas – da crise dos serviços de infra-estrutura urbana à degradação ambiental e, naturalmente, à criminalidade.

Imagine-se o jornal, ao mesmo tempo, extraíndo o sumo do sumo dos melhores especialistas em cada um desses problemaços e recorrendo, por meio de tudo que a internet tem a oferecer, a todos quantos acreditem que tenham algo a dizer a respeito, não só para dissecar as questões, mas para apontar em cada caso as possíveis portas de saída – capazes de ser abertas no preparo do Rio para 2016 com as chaves douradas dos R$ 28,8 bilhões que o poder público promete gastar nessa empreitada.

Imagine-se ainda um trabalho também sistemático de confronto entre os projetos dos governos e os que a imprensa, pelo que tiver apurado, considerar que aqueles não contemplam (ou contemplam pela rama), sempre de uma mesma perspectiva: a dos ganhos sociais que devem proporcionar.

Por que um jornal, calçado nas melhores análises disponíveis e com a participação dos seus leitores, não deveria pressionar por mudanças nas decisões oficiais, se essas forem consideradas erradas ou insuficientes?

Imagine-se por fim (ou não necessariamente por fim) o jornalismo tomar para si, por intermédio de quem entende dessas coisas, a auditoria dos investimentos decididos – com base nas informações cuja divulgação a própria imprensa tiver conseguido assegurar, batendo nessa tecla desde a primeira hora: agora.

Gritar “pega, ladrão”, a mídia brasileira até que faz, valendo-se dos flagras do Ministério Público ou dos Tribunais de Contas. Mas, nesse cenário, o alarme, quando for o caso de acioná-lo, viria depois do alerta sobre as oportunidades que os governos estariam deixando de aproveitar (por uma pá de razões que também deveriam ser expostas) para transformar as condições de vida da maioria.

É um trabalho para durar, metaforicamente, até a chegada da tocha olímpica. Por aí já se vê a dificuldade: jornalistas não são de fazer planos – e cumpri-los – para um período desse tamanho. No Brasil, o futuro para o qual a imprensa se prepara é o das eleições do ano que vem. Depois dos resultados, ela vai planejar a cobertura dos primeiros meses do novo governo. Tais são os horizontes naturais da mídia.

Dá para estendê-los, ou assim o blogueiro quer acreditar, correndo o risco de passar por ingênuo, pensando numa analogia. Na área pública, existem políticas de governo e políticas de Estado – estas, feitas para sobreviver ao entra-e-sai dos governantes de turno. Seria absurdo um órgão de imprensa criar uma “política de Estado” – definições, metas, ações continuadas no universo da informação – para lidar com o formidável potencial de um evento como os Jogos do Rio?

Fica a provocação.

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Jose Arlindo Salgado  DeSouza, Funcionario Publico (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 8/10/2009 às 10:15:40 AM

Um dos assuntos mais polêmicos que eé a "desfavelização" precisaria de uma postura nova da Mídia comoum todo. Essa postura deveria ser absolutamente desvinculada dos interesses comerciais dos veículos em relação aos grandes incorporadores imobiliários. digo isso porque tenho visto que a campanha de retirada das favelas dos morros do Rio não pressupõe a recuperação dessas áreas com florestas etc. O que se vê é sempre o interesse da especulação imobiliária movendo essas campanhas. O que se precisa mesmo é o Poder Público ocupar esses locais - não com polícia - mas com serviços públicos (educação, saúde, lazer), urbanização e saneamento. O resto decorre.
Rogério  Barreto Brasiliense, corretor de imóveis (Santos/SP)
Enviado em 7/10/2009 às 1:54:16 PM

Li uma entrevista muito interessante do Consul Geral da África do Sul no Brasil publicada no blog do jornalista futebilístico Cosme Rímoli sobre a organização da Copa de 2010 e me impressionou as frases: "somos maiores que os nossos problemas" e "nós iremos fazer a nossa copa, a copa do mundo da África". Organizar os dois grandes eventos esportivos em curtíssimo espaço de tempo é um desafio que mostrará o que podemos e o que queremos ser como país. De minha parte, se em 2016 ainda estiver vivo, vou tirar férias no mês de agosto, ir para o Rio de Janeiro, garantir um bom lugar no Engenhão e realizar um dos sonhos de minha vida: assistir ao vivo uma final olímpica dos 100 metros rasos.
Otto  Lima, Engenheiro Mecânico (Niterói/RJ)
Enviado em 7/10/2009 às 11:37:40 AM

Os países e as cidades que saltaram de qualidade depois de sediarem Jogos Olímpicos têm algo em comum: a primeira mudança que implementaram foi a de ATITUDE. De fato, faz-se necessário reverter o processo de degradação do Rio, que se arrasta há quase 50 anos, iniciado com a transferência da capital da República para Brasília e consumado pela sequência de gestões e legislaturas corruptas, incompetentes e omissas que se sucedeu à fusão dos antigos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro. Porém, antes disso, faz-se necessário vencer a guerra psicológica promovida por mentes fétidas como os efluentes que desaguam aos metros cúbicos no Rio Tietê e na Baía de Guanabara, que tomaram de assalto a grande mídia tupiniquim.
Perseus  van Hades, aposentado (São Paulo/SP)
Enviado em 7/10/2009 às 10:49:12 AM

Prezado Luiz, as necessidades efetivamente existem. Sua idéia é muito pertinente e certamente ajudaria a resolver muitos dos problemas estruturais e conjunturais do querido mas depauperado Rio de Janeiro. Entretanto, considerando que há um lado político nos escuros subterrâneos de nossa cultura, na prática vão somente dar uma leve mão de verniz para embelezar a fachada, alguma esmola para silenciar os necessitados, a roubalheira vai correr soltíssima com bilhões sumindo novamente (lembra-se do Pan?), os jornalistas serão ameaçados de morte e os jornais serão todos censurados por algum juiz amigo de plantão, como ocorre atualmente com O Estado de São Paulo (que ousou colocar alguma luz num dos caciques dos escuros subterrâneos). Enfim, que Deus nos ajude e esse pessoal morra antes de 2016. Perseus
Adma  Viegas, Professora (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 6/10/2009 às 11:18:23 PM

E desde quando uma mídia bairrista e provinciana como a paulista (em especial oa Folha de São Paulo) vai querer botar azeitona na empada do Rio? Quanto a imagem da cidade, uma coisa eu acho engraçada: parece que só o Rio tem favelas, só o Rio tem violência e tráfico de drogas. O resto do Brasil é um paraíso, não tem nada disso, imagine... o internauta de Aracaju que postou abaixo disse que esperava encontrar as ruas tomadas de viciados em crack. Não sabia (!) que o Rio tinha parques, teatros e museus (!!!) Surpreendeu-se em ver casas bonitas e ar limpo. Isso mostra o tamanho grau de desserviço que a mídia brasileira, em especial as organizações Globo tem prestado à cidade. Parece uma campanha orquestrada para destruir a imagem e a auto-estima do carioca.
Thiago  MR, autônomo (Brasília/DF)
Enviado em 6/10/2009 às 9:41:55 PM

Os investimentos passarão de R$50bi se o Estado resolver promover a veraz mudança em Rio. A cidade merece, carece e CLAMA por uma repaginação histórica.
joão  cesar, diretor (sau paulo/SP)
Enviado em 6/10/2009 às 7:05:54 PM

Afinal os jornalões que você citou se consideram o quarto poder, partidos com governantes não eleitos e acima de qualquer suspeita. Lobos que escondem o seu lado empresárial e tem por finalidade apenas os lucros pois são mais importantes que a informação isenta. Alias na imprensa brasileira não existe essa palavra isenção. Dai sua sugestão vai cair no vazio pelo puro desinteresse dos redatores.
Roberto  Ribeiro, Arqueólogo (Aracaju/SE)
Enviado em 6/10/2009 às 4:23:01 PM

Verdade. Até este ano da graça de 2009 nunca tinha posto os pés no Rio de Janeiro, nem nunca tinha tido vontade. Tudo o que eu sabia era sobre as mazelas. Sabia que existia favela, que existia crime organizado, tráfico, corrupção, jogo clandestino. Imaginava eu na minha ingenuidade que encontraria o centro do Rio coalhado de mortos-vivos fumando craque ao meio-dia. Fui ao Rio como um operário desce ao esgoto, preparado para a lama pútrida. Foi com grande admiração que eu descobri que é possível andar pela cidade, que ela é cheia de museus e parques, que o ar é razoavelmente limpo, que as casas são razoavelmente bonitas, principalmente no Flamengo onde eu me hospedei. Não acho que faltem denúncias, a cidade não é a utopia que pintam seus propagandistas, nem o inferno descrito por seus detratores. É preciso não cair no ufanismo, por exemplo, as rampas deslizantes do Galeão não estavam funcionando e esse pequeno detalhe me fez andar um bocado. Também a Linha Vermelha do aeorporto ao centro é deprimente. Quando eu vi o Instituto Oswaldo Cruz cercado de favelas, tive vontade de mandar o táxi retornar e pegar o primeiro avião de volta. Acho que o carioca já se acostumou com certas coisas e acha razoável aquela visão tétrica, mas não é. Uma mulher bonita não é bonita se estiver cheirando mal.
José Paulo  Badaró, desempregado (São Paulo/SP)
Enviado em 6/10/2009 às 1:45:48 PM

"A operação começaria por revisitar sistematicamente as grandes mazelas cariocas..." - - - Se a imprensa paulista não faz isso em relação ao governo do Estado de SP, ao qual é subserviente ou descaradamente aliada, com que moral faria visitas sistemáticas no quintal dos outros???
Álvaro  Castro, estudante de jornalismo (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 6/10/2009 às 11:00:43 AM

Acho que a provocação é extremamente válida e acredito que a mídia pode assumir um papel mais firme para viabilizar que os Jogos Olímpicos realmente mudem a cara do Rio. Na verdade, grande parte dessas mudanças deveriam ter sido feitas com os Jogos Panamericanos de 2007, como foi largamente prometido. contudo, o legado se mostrou muito mais um largado na prática. O que me incomoda é que precisemos de um evento tão específico para sucitar este tipo de incomodo em quem faz jornalismo e sobretudo em quem pensa jornalismo. Essa preocupação deveria ser diária, como muito se coloca dentro da Academia, mas se torna praticamente impossível pelo próprio processo de industrialização da produção noticiosa. Hoje se esvreve muito mais o que podemos e o que nos é permitido do que o que deveríamos. Bom, fica a provocação Álvaro Castro Estudante de jornalismo da Universidade Fumec / Belo Horizonte-MG
Dante  Caleffi, Publicitário (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 6/10/2009 às 10:56:23 AM

Ingênuo acreditar que a mídia:"quatro famílias",estão preocupadas em promover as "Olimpíadas".A pauta é uma só com variações táticas:prosseguir fustigando Lula e sua provável sucessão.Seja lá quem for. Quanto as mazelas cariocas,estas já são divulgadas com tanta intensidade, frequência e extensão,que seu objetivo está até superado: adolescente de qualquer quadrante do planeta, sabe que o Rio é a capital da violência,das grandes favelas, do carnaval e da opulência calipígia. Foi um trabalho elaborado com dedicação, esmero e pertinácia. Uma jóia da estratégia militar, que a mídia,em particular as "Organizações Globo" se empenharam por manter e aprimorar essa herança pretoriana.
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O Estadão e os aloprados
Postado por Luiz Weis em 1/10/2009 às 3:32:26 PM
 
 

Fosse na Inglaterra, a dupla que tentou vender por R$ 500 mil ao Estado de S.Paulo cópias roubadas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), marcado inicialmente para este fim de semana, teria procurado um tablóide, como o Sun de Londres, o diário de maior circulação do Ocidente, com 5 milhões de exemplares.

O Sun faria de bom grado um acordo com os vazadores da prova, pelo qual eles seriam pagos se o material se revelasse verdadeiro. O pasquim daria um jeito de publicar no dia do exame uma versão cifrada das questões, para poder apregoar, depois, que estava de posse dos originais do teste.

A operação teria lá suas complicações, mas não seria impossível para quem é do ramo do jornalismo de esgoto, está acostumado a comerciar com a escória e faz fortuna jogando escândalos no ventilador.

E que escândalo, no caso!

Mais de 4,1 milhões de estudantes se inscreveram para o Enem, que pela primeira vez substituiria o vestibular para o ingresso em 28 universidades federais.

O exame seria inevitavelmente anulado e cabeças rolariam no Ministério da Educação – a do ministro, em primeiro lugar.

Aliás, para fazer propaganda de sua mercadoria, foi o que disse um dos tipos que procuraram o Estadão: “Isto aqui é muito sério, derruba o ministério”. No relato do jornal, o outro atalhou: “Não tenho motivação política.” Não ficou claro qual dos dois se saiu com esta: “Ninguém aqui é bandido, ninguém tem ficha na polícia, nós dois temos emprego.” O negócio deles era só fazer um grande negócio.

A julgar pela matéria dos repórteres Renata Cafardo e Sergio Pompeu, “Prova do Enem vaza e ministério anuncia cancelamento do exame” – que obrigou o jornal a atrasar em mais de duas horas o fechamento da edição desta quinta-feira, 1 – os caras são uns aloprados. Devem ter achado que, para pôr o governo numa fria, o Estado desembolsaria, se não o meio milhão pedido, uma bolada próxima disso. Não sabiam que a grande imprensa brasileira pode ser acusada do que se queira, menos de pagar por informações.

A oferta foi feita num telefonema, na quarta à tarde. À noite, os repórteres se encontraram com o sujeito. Onde? Tudo que a matéria diz é “na zona oeste de São Paulo”.

O cidadão se identificou? Não se sabe. “O homem que telefonou para a redação estava acompanhado de outra pessoa”. Foram fotografados? Tampouco se sabe. Que aspecto têm? Idem.

Os repórteres consultaram rapidamente o material, “sem se comprometer com a compra”, memorizaram (ou anotaram) alguns quesitos da prova. O jornal entrou em contato com o ministro Fernando Haddad por telefone e e-mail. “As questões originais estavam guardadas em um cofre, que foi aberto ontem à noite para confirmar a informação”.

Não fica claro em que momento disseram aos vendedores que não haveria negócio. Mas relatam que um deles se irritou e disse que iriam procurar uma emissora de TV. “A gente vende isto aqui até por mais dinheiro”, disse, em desespero de causa.

“A nossa sorte”, comentaria ainda na quinta-feira o ministro, numa entrevista à Rádio Eldorado, do Grupo Estado, “é que as pessoas que cometeram o crime eram amadoras”.

Disse ainda: “O jornal, com a experiência que tem, imagino que deva ter se cercado de providências. O apelo que eu fiz ao diretor de Redação, Ricardo Gandour, é que colocasse em pauta na redação a necessidade de chegar a essas pessoas”. E mais: “O jornal nos deu elementos muito importantes para a identificação dos criminosos.”

Ótimo, palmas. Isso é que é jornalismo-cidadão. Mas o compromisso primário de um jornal é com os seus leitores. Eles têm tanto direito quanto o ministro a esses “elementos muito importantes” – que, salvo engano, não estão todos na matéria que denunciou o vazamento.

P.S. “É grana, é grana” [Acrescentado às 8h55 de 2/10]

A história oficial, por assim dizer, da tentativa de venda da prova do Enem, está na matéria “Por dinheiro, dupla abala a vida de 4 milhões de jovens”, contada pelos jornalistas Renata Cafardo e Sergio Pompeu no Estado de hoje. [Alguns trechos foram destacados em negrito pelo blogueiro.]

“Os dois homens que derrubaram o exame que custou cinco meses de preparação para mais de 4 milhões de jovens brasileiros sabiam da importância do material que tinham em mãos: as duas provas do Enem que seriam aplicadas neste fim de semana. "Isso aqui derruba um ministério." Viram ali a chance de ganhar um bom dinheiro. "Queremos R$ 500 mil." Mas a estratégia parecia primária.

Em nenhum momento eles deram seus nomes ao Estado e por isso serão identificados no texto como "Informante" (a sugestão partiu dele mesmo) e "Sócio". Os dois tentaram o tempo todo posar de bons moços. "Já participei de concursos, também fico revoltado com essas coisas. Meu irmão, de 16 anos, vai fazer a prova", disse o Informante. "Isso (a prova) já está na mão de um monte de filho de parlamentar lá em Brasília", completou Sócio.

O primeiro contato com a redação foi feito pelo Informante, às 15h30 de anteontem. "Tenho uma informação sobre o Enem", disse, num telefonema. "Tenho a prova toda, 180 questões, já impressas."

Deixou bem claro que queria "negociar". Deu um número de celular.

A reportagem falou quatro vezes com o Informante durante a tarde. Ele exigiu um encontro em um local público, quando mostraria a prova e daria detalhes de como a conseguiu. Indicou que cor de roupa usaria, uma jaqueta preta. Aceitou o lugar indicado pelo Estado, um café na zona oeste, mas o horário foi mudado duas vezes. Por fim, ficou determinado que seria às 19h15.

A equipe do jornal (os autores do texto e o repórter fotográfico Evelson de Freitas) chegou ao local com antecedência. Enquanto esperava, Informante telefonou duas vezes: tinha se perdido. Avisou que teria o apoio de pessoas que ficariam do lado de fora do café. Mas o primeiro a aparecer foi um homem moreno, aparentando 30 e poucos anos, vestido com uma jaqueta amarela, com capuz. Era o Sócio.

A primeira providência de Sócio foi perguntar se os jornalistas tinham levado gravador. Enquanto isso, Informante chegou e sentou-se à mesa. Também moreno, de olhos claros, vestia a tal jaqueta preta e usava boné. Levava uma pasta de material sintético.

"Uma pessoa do Inep, do MEC, tirou isso lá de dentro e passou para uma pessoa que a gente conhece", disse Sócio. "Chegou por acaso", completou Informante.

Ele garantiu que não teve acesso ao responsável pelo vazamento da prova. "Não é nosso trabalho, eu sou funcionário público, ele (Sócio) também trabalha. Não tem nada a ver com a gente isso aí. A gente tá meio perdido."

A reportagem pediu para ver a prova. Mesmo sem nenhuma garantia de que haveria pagamento, Informante tirou o caderno de prova de uma pasta e o colocou na mesa. Não se importaram em falar baixo ou se havia outras pessoas ao lado.

Passou primeiro a folha de rosto, com instruções gerais sobre o tempo de prova, o preenchimento do gabarito e outras informações para o candidato.

Tinha os logotipos do MEC e do Inep, no canto inferior esquerdo, a relação das empresas do consórcio contratado para a realização da prova e um número 2: era o exame de domingo, com 90 questões de Linguagem e Matemática.

A dupla se recusou a mostrar aos repórteres a folha com o tema da redação. "Se não, amanhã você escracha no jornal", disse Sócio.

Um pequeno lacre que provavelmente identificaria a numeração da prova havia sido recortado.

A reportagem pediu para ver as questões. Informante permitiu ao Estado folhear o caderno por uns dois minutos. Tempo mais que suficiente para identificar meia dúzia de questões e memorizar itens associados a eles.

O primeiro item do Enem reproduzia uma tira de história em quadrinhos da personagem Mafalda. Nas folhas seguintes estavam os dois itens apontados horas depois pelo presidente do Inep, Reynaldo Fernandes, como a comprovação de que o exame era verdadeiro: o poema Canção do Exílio e uma imagem da bandeira do Brasil com o verde suprimido, simbolizando o desmatamento.

A prova também tinha um texto da revista Veja sobre o filme Touro Indomável, uma tira do gato Garfield, uma questão que mencionava o MSN (sistema de mensagens online) e outra que citava os versos de Carlos Drummond de Andrade: "No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho".

"Agora já viu demais", decretou Sócio. Era hora de falar de dinheiro. Os dois bateram o pé no meio milhão de reais. Diziam que o dinheiro seria dividido entre cinco pessoas. A reportagem tentou argumentar que denunciar o vazamento da prova era uma questão de utilidade pública.

"Utilidade pública não paga meu salário", retrucou Sócio. "É grana, é grana."

Informante, sempre mais educado, tentou mostrar que a transação valia o que os dois pediam. Disse que o jornal receberia os originais das provas de sábado e domingo, cópias dos exames registradas em cartório e até uma breve descrição de como o material chegara até eles. Explicou que tinham a assessoria de um advogado que também os orientaram a comprar um chip de celular para os contatos.

"Tudo isso que a gente tá fazendo é com orientação jurídica", disse Informante.

Ele queria o pagamento em dinheiro e mencionou até um contrato que garantiria o "sigilo da fonte" - entendimento jurídico de que o jornalista tem o direito de preservar as fontes de suas informações.

Durante a conversa, Sócio citou a questão do sigilo como argumento para a escolha de veículos de imprensa para a venda das provas.

"A última coisa que a gente vai fazer é bater na porta do PSDB. Ano de eleição. A última saída vai ser essa", completaram. A reportagem então decidiu informar o MEC. Nada seria publicado até que houvesse a confirmação do governo.

A reportagem enviou um e-mail ao ministro da Educação, Fernando Haddad, com exemplos de questões e em quais páginas apareciam na prova.

O próprio ministro informou à reportagem sobre toda a movimentação em Brasília para confirmar a autenticidade do exame.

Nem o ministro nem o presidente do Inep tinham visto a prova, até então.

Três funcionários foram levados ao Inep para abrir o cofre em que estavam guardadas as questões. Não havia uma prova impressa e, sim, as 180 perguntas digitalizadas.

Cerca de quatro horas depois do primeiro contato da reportagem com o ministério, por volta da 1 hora de ontem, o presidente do Inep ligou para o Estado e confirmou que a prova tinha vazado.

"Há fortes indícios de vazamento, 99% de chance." O Enem estava cancelado.”

Comentário final: mesmo que o objetivo primeiro dos jornalistas, ao procurar o MEC, fosse o de alertá-lo para o vazamento, “por ser uma questão de utilidade pública”, como disseram aos seus interlocutores, a iniciativa se impunha profissionalmente; de outra forma, eles não teriam como saber se o material que lhes foi mostrado era autêntico. Fizeram a coisa eticamente certa, portanto, ao fazer a coisa jornalisticamente certa.

Leia também

Bastidores do vazamento do Enem — Renata Cafardo

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Luiz Fernando  Chaves, sociologo (são paulo/SP)
Enviado em 6/10/2009 às 2:40:56 PM

Continuo sem entender por que razão a imprensa compraria um exame roubado? É hábito jornalistas, jornais ou tvs comprarem documentos frutos de roubo? De onde esses larápios tiraram a conclusão de que a imprensa se interessa por documentos roubados a ponto de pagar para obte-los? Essas são as grandes questôes deste caso se acreditamos que tudo não passou de atitudes oportunistas. Mas também existe a possibilidade de existirem outros interesses (comerciais e/ou políticos) nesse roubo e posterior exposição das provas do ENEM que resultou na necessidade de seu cancelamento. Assim mesmo fica a sugestão para este Observatório: De onde os patifes tiraram a idéia de que a imprensa compraria documentos roubados? Será que existem precedentes. Obs: já li em algum lugar algo como "Fraudes (?) no ENEM revelam que Brasil continua de segunda classe". Abraços
Cristiana  Castro, Advogado (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 3/10/2009 às 11:35:03 PM

Tb prefiro esperar mais peças, tá muito confuso, isso. Parece que o tal dono da pizzaria tb já tinha trabalhado no Estadão e um dos que estavam com a prova já era conhecido do comerciante/publicitário. Tem uma postagem, acho que no Azenha, que fala que o sujeito que era conhecido do publicitário teria solicitado que mais um jornal fosse acionado... Eu, vou aguardar. de qq maneira, confesso, que , prá mim, é difícil considerar a possibilidade do envolvimento de qq jornal nesse episódio. Agora, achei um absurdo, Universidades públicas declaraem que não alterarão seus calendários por conta do cancelamento do ENEM. Como não vão cancelar? Provavelmente haverá um dispositivo legal que apoie a decisão dessas Universidades, mas isso é o fim da picada. Os estudantes contam com a nota do ENEM para melhorar suas colocações. Excetuando-se aquela pateta que apareceu no telejornal de hoje, reclamando que tinha vindo de Paris, onde etuda, para São Luiz, onde ia fazer o Enem e que, agora, queria saber como ficava a sua situação; os outros estudantes merecem o mínimo de respeito.
Aleardo  Baraldi, aposentado (São Paulo/SP)
Enviado em 3/10/2009 às 5:42:47 PM

Provavelmente, nem houve esse encontro. Tudo parece forjado por aqueles que querem "detonar" o governo atual. Há muitas lacunas, muita imprecisão nos dados apresentados.
Hell  Back, Aposentado (Floripa/SC)
Enviado em 3/10/2009 às 1:58:52 PM

Admiro a coragem dessa jornalista. Ela corre sério perigo de vida! Poucas pessoas têm o sangue frio que ela tem. Urge a PF dar proteção prá ela, para que a mesma não venha sofrer um "acidente".
Giordano  Marim, estudante (Vila Velha/ES)
Enviado em 3/10/2009 às 12:53:04 PM

Também estou estranhando essa história. Tomara que as investigações concluam que não, mas acho que o fato tem motivação política, em função das mudanças no ensino promovidas pelo MEC.
Rogério  Ferraz Alencar, ATRFB (Fortaleza/CE)
Enviado em 3/10/2009 às 10:31:31 AM

"A reportagem pediu para ver as questões. Informante permitiu ao Estado folhear o caderno por uns dois minutos. Tempo mais que suficiente para identificar meia dúzia de questões e memorizar itens associados a eles (sic)." Será? Dois minutos é tempo mais que suficiente para identificar seis questões e memorizar itens associados a elas? 20 segundos, em média, para memorizar cada questão e os itens relacionados a ela? E levaram o repórter-fotográfico Evelson de Freitas para fazer o quê? Ele não tirou foto de nada?
Wendel  Anastcio, V (Barbacena/MG)
Enviado em 3/10/2009 às 10:04:20 AM

Devo ficar surpreso, ou rir? Esta gráfica onde se deu o vazamento , não é de propriedade da Folha? Não é este mesmo jornal que forjou a ficha da Dilma, ou foi o Estadão? Não importa, tanto um quanto outro, já sabemos a que propósito servem! Só peço ficarem atentos a CONFECOM em dezembro, pois ela sim, será um marco de liberdade jornalística em nosso País. Os coronéis da mídia, podem estar com os dias contados, se democratizarmos a mídia. Pela abertura da caixa preta da midia!
Oswaldo  Suzuki, educador (São Paulo/SP)
Enviado em 2/10/2009 às 10:37:02 PM

Essa história está mal contada. E como tem conotação política como tem afirmado outros jornalistas de credibilidade. E, como o Estadão/PIG não tem a mesma credibilidade, não engulo esse papo de "jornalismo sério" como você e outros aqui afirmam. Pela capa do JT (tb Estadão?) de hoje... parece noticias casadas. Dá prá desconfiar!
Sidnei  Brito, Servidor Público (São Paulo/SP)
Enviado em 2/10/2009 às 9:58:07 PM

Se é que não pagam mesmo por informações, em especial as que podem botar numa fria o governo federal, é por absoluta falta de dinheiro.
José Paulo  Badaró, desempregado (São Paulo/SP)
Enviado em 2/10/2009 às 5:16:35 PM

Prefiro acreditar na honestidade da jornalista do Estadão, dando-lhe parabéns, mas para mim ficou uma pequena grande dúvida: Se o Estadão - sem precisar consultar o ministro ou quem quer que seja - tivesse certeza de que se tratava de material legítimo, teria adotado o mesmo procedimento, revelando a fraude em benefícios da verdade e da coletividade, ou teria esperado a realização dos exames, colhendo os frutos de um escândalo de proporções inimagináveis, que certamente viria na seqüência dos acontecimentos???
kelly cristina  de aquino, estudante jornalismo (BELO HORIZONTE/MG)
Enviado em 2/10/2009 às 5:05:31 PM

Fizeram "O Correto" o jornalismo é para informar e prestar serviços de utilidade pública. No mais seria muito perigoso: envolver e pagar um preço alto demais.
Sueli  Montenegro, Jornalista (Brasilia/DF)
Enviado em 2/10/2009 às 4:48:03 PM

Concordo com o Dante Calefi. Acho que essa história tem umas lacunas que não estão bem explicadas. Talvez os repórteres tenham omitido alguns detalhes que devem ser importantes para que a polícia chegue aos responsáveis. Talvez até prá correr atras depois, quem sabe? E essa insistencia dos caras de dizer que a questão não era política é estranha. Mais estranha ainda é a versão de que a prova praticamente caiu no colo dos dois que tentaram vende-la. Queriam mesmo passar por amadores. Ah, e ainda tem a história da gráfica. Vamos aguardar prá ver.
Roberto  Ribeiro, arqueólogo (Aracaju/SE)
Enviado em 2/10/2009 às 1:11:50 PM

Eis aí um bom exemplo do que é jornalismo no seu cerne. Nem um antropólogo, nem um palpiteiro, nem um twitter poderiam fazer o que estes repórteres fizeram. É isso que os jornalistas devem fazer, procurar o que é o essencial da sua profissão, não se lamentar das plumas perdidas
Dante  Caleffi, Publicitário (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 2/10/2009 às 10:02:32 AM

Vazamento ,segundo notícias mais recentes, deu-se na gráfica, que pertence ao grupo FOLHA de SP,que estranhamente culpam a organização do certame.Foi identificado como o ofertante o dono de um pizzaria... Por outro lado A PF foi impedida de dar segurança nessa fase pelo TCU. Estranho que alguém ofereça a um jornal,Estadão,um material assim e ao contrário do querem fazer parecer,isso não é coisa de amadores....
Rodrigo  Rosa, Engenheiro (São Paulo/SP)
Enviado em 2/10/2009 às 9:36:33 AM

Parabéns a jornalista Renata Cafardo. Um exemplo de ética e profissionalismo capaz de mostrar que o verdadeiro jornalismo jamais entrará em crise, apenas aquele se reduz ao partidarismo e a falta de compromisso ético com os leitores.
Carlos N  Mendes, industriário (Santos/SP)
Enviado em 2/10/2009 às 8:51:45 AM

´´Ótimo, palmas. Isso é que é jornalismo-cidadão. Mas o compromisso primário de um jornal é com os seus leitores. Eles têm tanto direito quanto o ministro a esses “elementos muito importantes”´´. Luis, não sei. Se OESP realmente quer livrar a cara nesse episódio, deixando bem claro que rechaçou o negócio, deve estar colaborando com a polícia, que deve ter orientado os jornalistas a omitirem ceros detalhes enquanto rola a investigação. Colocar esses dois na cadeia daria um bom alerta a quem mais tentar fazer algo assim - só prejudicaram milhões de estudantes. E, pode me crucificar, mas sinceramente, depois de ler coisas como "dólares de Cuba" em suas páginas, eu duvido que o resultado de tal oferta seria o mesmo se os criminosos tivessem procurado a revista Veja.
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Luiz Weis
Jornalista, pós-graduado em Ciências Sociais 
pela USP, onde lecionou Sociologia da Comunicação. Escreve no Observatório da Imprensa e no jornal "O Estado de S.Paulo". Entre outras atividades, foi redator-chefe das revistas "Superinteressante" e "IstoÉ", editor-assistente da "Veja", editor político e apresentador do programa "Perspectiva" da TV Cultura, editor nacional da "Visão" e editor de assuntos especiais da "Realidade". É autor, com Maria Hermínia Tavares de Almeida, de "Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar, in "História da Vida Privada no Brasil", Lilia Moritz Schwarcz (org.), 1998, e do perfil político de Vladimir Herzog (sem título), in "Vlado — Retrato da morte de um homem e de uma época, Paulo Markun (org.), 1985. Recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo Científico, em 1990.


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