ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 564 - 17/11/2009
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No ´dia de Dilma´, muito pouco PAC
Postado por Luiz Weis em 8/5/2008 às 9:08:13 AM
 
 

Dia de unanimidade na imprensa: nenhum grande jornal deixou de destacar hoje o principal acontecimento político de ontem - o que a colunista do Globo Miriam Leitão resumiu em quatro palavras, no título de seu artigo:

“O dia de Dilma”.

Dia que começou cedo. Logo no início do depoimento de nove horas da ministra da Casa Civil à Comissão de Infra-Estrutura do Senado, o senador Agripino Maia – que “só podia estar dopado”, na avaliação de seu colega de DEM, Demóstenes Torres – deu-lhe motivo para lembrar as torturas sofridas, aos 19 anos, nos porões da didatura. A mesma ditadura que o arenista, depois pefelista Agripino Maia, apoiava plenamente.

Tentando ser mais esperto do que a esperteza, Maia cometeu uma torpeza. Citando uma entrevista em que Dilma contou ter mentido muito na cadeia, ele insinuou que o caso do dossiê dos gastos palacianos no primeiro governo Fernando Henrique seria indício de volta ao “Estado policialesco”, ao “regime de execeção”.

Terminou por pedir que ela não mentisse à comissão, como fizera no passado.

Tomou uma traulitada que o deixou mudo e quedo:

Não é possível supor que se dialogue com pau-de-arara ou choque elétrico. Qualquer comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira só pode partir de quem não dá valor à democracia brasileira .Eu tinha 19 anos. Fiquei três anos na cadeia. E fui barbaramente torturada, senador. Qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para interrogador compromete a vida dos seus iguais. Entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido, senador. Porque mentir na tortura não é fácil. Na democracia se fala a verdade. Na tortura, quem tem coragem e dignidade fala mentira. E isso, senador, faz parte e integra a minha biografia, de que tenho imenso orgulho. E completou: — Agüentar tortura é dificílimo. Todos nós somos muito frágeis, somos humanos, temos dor, a sedução, a tentação de falar o que ocorreu. A dor é insuportável, o senhor não imagina o quanto.”

E não deixou de registrar, afiadamente, que “certamente nós estavamos em momentos diversos de nossas vidas políticas”.

A partir daí, registram em coro os diários de hoje, a oposição desmornou. “Estratégia dos oposicionistas fracassa e ministra nem precisa da proteção dos aliados ao depôr à comissão”, reconhece o Estado, debaixo do título que atribui a Dilma o sepultamento da crise do dossiê no Senado.

Os aliados da ministra deram-lhe todos os aplausos a que tinha direito. Os repórteres que cobriam o evento – e mesmo os comentaristas online que o acompanhavam pela GloboNews – ficaram tomados de emoção e passaram isso nos seus relatos e análises.

Muito bom saber que, seja lá o que possa colocar em campos opostos os jornalistas brasileiros hoje em dia, a esmagadora maioria deles sente em relação ao regime dos generais de 1964 o “horror e nojo” de que falava o velho Ulysses Guimarães.

Acachapada, a oposição perdeu o gás para investir contra ela pelo dossiê. E só aqui e ali contestou a versão do governo que o PAC vai de vento em popa.

“Ao falar do PAC, [Dilma] voltou a ser a técnica que cita megawatts, quilômetros, números, rios, barreiras”, observa na Folha a colunista Eliane Cantanhêde, no artigo “Dossiê? Que dossiê?”. “Ninguém estava de fato prestando atenção, e ela, se não ganhou nada, também não perdeu nada nessa parte.”

“Estava naturalmente pisando em seu próprio terreno”, completa, na coluna ao lado, o editorial “Revés da oposição”. A Folha, aliás, foi o único jornal agil o suficiente para editorializar o depoimento na edição de hoje.

Mas se a ministra não perdeu nada nessa parte, o leitor sim.

Faltou PAC no noticiário. Mesmo na matéria do Valor Econômico, a sigla foi citada apenas seis vezes. No Globo, quatro. No Estado, duas. Na Folha, duas também.

Numa delas, com esse primor de desinformação:

“A maior parte dos questionamentos, até mesmo da oposição, foi sobre obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Sobre isso, a ministra ouviu as críticas mais duras, todas rebatidas ponto a ponto.”

Quais críticas? Rebatidas como? Azar do leitor que não pôde ou não quis passar a maior parte da véspera diante da TV.

Azar – e muito. Porque, entre os comícios de Lula, os ataques da oposição, e o noticiário tópico dos jornais, há uma controvérsia sobre a qualidade e o andamento do programa. A ida da “mãe do PAC” ao Senado deveria ter estimulado a imprensa a debulhar a polêmica.

Dias atrás, a própria ministra, falando em Santa Catarina, disse que “o que trava o PAC é a qualidade dos projetos que nós herdamos. Nós não herdamos nem na área de energia, nem de logística, isso vale para rodovia, ferrovia, aeroportos”.

E hoje, o único comentarista a agitar a questão foi Merval Pereira, no Globo. Depois de escrever que a ministra “saiu-se vitoriosa no debate”, emendou:

“O PAC nada mais é do que um amontoado de obras e investimentos que já estavam previstos ou em andamento, sem nenhum tipo de planejamento estratégico os unindo. E em muitos casos nem isso é, como demonstrou o senador Tasso Jereissati citando obras no Ceará, seu estado, que não existem; ou, como o senador Heráclito Fortes mostrou, obras que já existem há anos sendo inauguradas ou lançadas como se fizessem parte dos projetos deste governo.”

Do contraditório, nenhuma palavra nos jornalões do dia.

Comentários (11)
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Otto  Saraiva, professor (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 14/5/2008 às 11:41:17 AM

Caro Luis, em relação à nota "Haddad presidente", o primeiro jornal a levantar essa possibilidade foi o Valor Econômico, em material comentado por você (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/blogs.asp?id={8D791E43-CB87-4441-A742-FC50CB7A7BA4}&id_blog=3) Abraço e parabéns pelo trabalho
marina  chaves, bancaria (marilia/SP)
Enviado em 9/5/2008 às 8:36:52 PM

pois depois o que aconteceu ontem a ministra dilma é candidatissima a sucessao de lula.... mereceu, mostrou força, integridade e honra! e é fera em assuntos administrativos..... nao tem perfil politico.... mas eu penso que o brasil já está cheio de politicos....
Carlos N  Mendes, industriário (Santo/SP)
Enviado em 9/5/2008 às 9:33:50 AM

Quê tipo de soberba leva um homem com a experiência do senador Agripino Maia cometer umas das maiores indelicadezas da vida política brasileira ? Desse calibre, só lembro de Jair Bolsonaro ofendendo José Genoíno há uns 3 anos atrás, também usando como arma as torturas que o deputado sofreu no Araguaia. Mas isso é da natureza de Bolsonaro. O senador poderia ter se mantido em outro nível, mas já que ele chegou nesse ponto, ouso parafraseá-lo : temo que, como em 1964, a oposição esteja tão desesperada que considere QUALQUER MEIO para retornar ao poder. Graças a Deus, pelo menos em público os colegas do senador ficaram constrangidos. Há alguma esperança...
Geraldo  Galvão Filho, Aposentado (Juiz de Fora/MG)
Enviado em 8/5/2008 às 7:57:29 PM

Assiti a todo o depoimento e só o Corruptasso e Merval Pereira compram essa versão de diminuir o Programa de Aceleração do Crescimento. Mas quem está nos municipios, está vendo as obras em andamento. Aliás, os jornalistas do Rio de Janeiro podem muito bem acompanhar as obras de melhoramento nas favelas.
Jose  de Almeida Bispo, Publicitario e radialista (Itabaiana/SE)
Enviado em 8/5/2008 às 4:55:38 PM

Que o senador Agripino Maia é uma anta; todo mundo de bom senso já sabe. Que é apenas uma mula a mais a serviço da direita paulista como o foram tantos outros nos idos 1880, 1930, 1960 e 1990, todo o mundo sabe. Que tem o DNA do pior da ditadura cantada como militar (foi da direita, porém pilotada pelos milicos), com direito a denúncias e mais denúncias acerca de desvio de dinheiro público e compra de votos (Veja 897, 13/11/1985, pp. 36-43), também se sabe. Queriam que Agripino se portasse, então, como? O que é que a direitona tem de fato pra condenar no governo Lula que seu próprio grupo não o tenha feito dez vezes mais? Culpar Agripino pelo fiasco de há muito esperado, no meu modo de entender, é covardia; e falta de companheirismo. É queima de cartucho em momento de vencimento de validade do mesmo, e pra livrar o próprio fiasco. Não se faz isso com alguém que, mesmo que tenha estado ou esteja na folha de pagamento, foi fiel até o fiasco final. Final?
Sérgio  Moura, Pesquisador (São Paulo/SP)
Enviado em 8/5/2008 às 3:39:40 PM

É só ler o Blog do Reinaldo Azevedo que você verá muitas palavras sobre o PAC sr. Luiz Weis.
antonio  nunes, func. público (bsb/DF)
Enviado em 8/5/2008 às 2:23:48 PM

Caro Weis, só existe um motivo para não se colocar o PAC em discussão nos jornais de hoje. Simples, a convocação da Ministra, em uma comissão de infra-estrutura, nada teve a ver com o PAC, todos nós sabíamos que o que a oposição queria mesmo era fazer barulho , atingir a imagem da Ministra, nada mais que isso. O resto era resto, como foi até para os meios de comunicação. Pobre do Senado da República.
Élcio  Filho, Selador (São Paulo/SP)
Enviado em 8/5/2008 às 1:56:43 PM

O que a Folha esqueceu de fazer foi assumir um mínimo de decência e honestidade, ao publicar na primeira página da sua edição de hoje uma mentira rasteira e deslavada (endereçada aos muitos que não tiveram a folga de passar o dia na frente da tv senado e que por isso estava desinformados sobre o contexto real das declarações) de que a ministra teria mudado ("mais uma vez", segundo eles) a sua versão sobre o suposto dossiê apenas por ter passado a defender a publicação de gastos ex-presidenciais. Isso a Folha, que tem se agarrado nessa história vaga e mal construída de dossiê como se dela dependesse a sua honra ou reputação, isso, como dizia, a Folha não fez, e parece que não há ninguém para "observar" a sua irresponsável omissão. Com a manchete de hoje a Folha ultrapassou oficialmente a Veja como representante número 1 da imprensa marrom.
Carlos  Esteves, autônomo (sp/SP)
Enviado em 8/5/2008 às 12:44:56 PM

O Senador Agripino Maia é mais um dos que apoiam a candidatura Serra-2010, o DEM que foi PFL que foi PDS que foi ARENA -partido que dava sustentação à ditadura- é parceiro do PSDB. Está na hora das pessoas de bem perceberem o verdadeiro Cavalo-De-Tróia que é a candidatura de José Serra à Presidência da República. O interior do cavalo estará recheado de órfãos e filhotes da ditadura ansiosos por voltar a ter um naco de poder.
vanda  VL, escriturária (serra/DF)
Enviado em 8/5/2008 às 11:21:34 AM

Luiz, oposição e PIG não queria dar palanque a DILMA com o PAC.......queria sangrar com dossiê. Por isso pouco PAC.....e muito TIRO pela culatra.
Alexandre Carlos  Aguiar, Biólogo (Florianópolis/SC)
Enviado em 8/5/2008 às 11:18:40 AM

Ora, caro Luiz Weiss, nem é preciso fazer uma elaborada ginástica mental para perceber que o PIG e a oposição não entendem de política de Estado, mas de processos políticos eleitorais (e, obviamente, de seus partidos). Se algum dos jornalistas brasileiros compreendesse do riscado, eu repito ALGUM, qualquer um, se tivesse preocupações em entender de planejamentos estratégicos, contingenciamentos, auditorias, planos de metas, orçamentos e coisas do jargão administrativo, certamente poderia divagar em detalhamentos a respeito. Porém, estavam preparados para dar "uma surra" na Dilma e quando tomaram a bola nas costas, enfiaram seus felpudos rabinhos entre as pernas e sairam em correria. Se fossem avestruzes, faltaria buracos para enfiar suas nobres cabecinhas. Dilma nadou de braçadas. Se for realmente candidata a presidente, vamos assistir à mais patética derrocada destes coitados da oposição. Sinceramente, quem já teve um ACM no Congresso não merece um Agripino (des) Maia como adversário. Dá pena!
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Luiz Weis
Jornalista, pós-graduado em Ciências Sociais 
pela USP, onde lecionou Sociologia da Comunicação. Escreve no Observatório da Imprensa e no jornal "O Estado de S.Paulo". Entre outras atividades, foi redator-chefe das revistas "Superinteressante" e "IstoÉ", editor-assistente da "Veja", editor político e apresentador do programa "Perspectiva" da TV Cultura, editor nacional da "Visão" e editor de assuntos especiais da "Realidade". É autor, com Maria Hermínia Tavares de Almeida, de "Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar, in "História da Vida Privada no Brasil", Lilia Moritz Schwarcz (org.), 1998, e do perfil político de Vladimir Herzog (sem título), in "Vlado — Retrato da morte de um homem e de uma época, Paulo Markun (org.), 1985. Recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo Científico, em 1990.


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