Programa 1169
>>Em busca da razão
>>A guerra civil midiática
Postado por Luciano Martins Costa em
20/11/2009 às 9:28:12 AM
Em busca da razão
Os jornais comentam nesta sexta-feira que o governo decidiu alterar a estratégia para o encontro da ONU sobre mudanças climáticas porque foi convencido de que a ex-ministra Marina Silva, relatora da Comissão de Meio Ambiente do Senado, iria propor transformar a manifestação de intenção para a redução de emissões de gases poluentes em compromisso legal e obrigatório.
A simples presença da senadora acreana entre os possíveis candidatos à sucessão do presidente Lula da Silva tem sido um elemento fundamental para que não apenas muitos políticos de repente se transformem em ecologistas, mas também se nota que a própria imprensa deixa de tratar a sustentabilidade como assunto marginal e se rende à evidência de que é na verdade o tema central em todos os debates atuais.
Em função desse fenômeno, o projeto de emenda à Política Nacional de Mudanças Climáticas já foi aprovado quinta-feira na Comissão de Infraestrutura do Senado e deve seguir sua tramitação sem sobressaltos, pois nem mesmo a bancada ruralista, seguramente o núcleo mais obscuro do Congresso, terá coragem de se opor ao compromisso.
A representação brasileira deve chegar a Copenhague, em dezembro, na condição de líder dos países em desenvolvimento e portadora de iniciativas concretas para a redução das emissões de gases do efeito estufa, conforme destaca o Globo em entrevista.
Trata-se de uma oportunidade histórica para o País, que também se destaca entre as nações que venceram mais rapidamente a crise financeira internacional.
Mais do que isso, porém, o tema sustentabilidade, que por enquanto ainda é tratado de forma simplista na questão ambiental, cria as condições para a superação de outros impasses.
O mais importante e perigoso deles é a radicalização política que impede uma relação civilizada entre o atual governo e a oposição, com marcante participação de uma imprensa claramente partidarizada.
A irracionalidade que tem sido característica da imprensa e das relações políticas no Brasil nos últimos anos pode dar lugar a um diálogo proveitoso, se as partes se conscientizarem de que há muito mais riqueza nos debates sobre desenvolvimento sustentável do que nas atuais querelas que movem as opiniões.
Mas a imprensa tem que se desarmar e ampliar sua visão para os grandes desafios e oportunidades que se abrem para o Brasil.
A guerra civil midiática
Alberto Dines:
- O que impressiona no programa sobre a Venezuela exibido pelo “Observatório da Imprensa” (terça, 17/11) é, em primeiro lugar, a intensidade da polarização em torno da mídia. Mentes lúcidas, racionais, extremamente sofisticadas, não conseguem esconder o dramático impasse. Independente das posições, pró ou contra Hugo Chávez, todos os venezuelanos ouvidos concordam num ponto: não existe possibilidade de diálogo.
Já não existe necessidade de se fazer um bom jornalismo porque na Venezuela ninguém quer jornalismo, todos querem propaganda. No entanto, este quadro pré-ruptura não consegue motivar a mídia latino-americana e internacional. Somos obrigados a reconhecer que a cobertura desta guerra midiática na Venezuela esta igualmente intoxicada pelos ressentimentos e preconceitos que correm fora dela.
Surge então a grande questão: porque razão os grandes veículos, brasileiros e estrangeiros, não conseguem aquele mínimo de equilíbrio para reproduzir ao menos o inexorável caminhar para o confronto? Será tão difícil reunir e comparar opiniões divergentes, sem tomar partido?
Já que no interior da sociedade venezuelana os ânimos estão tão exaltados, fora dela, em outros contextos e continentes, não seria possível repetir a experiência do “Observatório da Imprensa” com mais recursos e para audiências maiores? Falta disposição, falta senso de urgência ou simplesmente falta solidariedade?
A verdade é que ser solidário com a Venezuela, neste momento, significa não tomar partido algum e, assim, escapar da terrível compulsão maniqueísta. A terceira via nada tem de escapista, ao contrário, é a única alternativa capaz de mostrar aos beligerantes que existem outras dinâmicas além da confrontação. Não adianta convocar a OEA, a UNESCO, a ONU ou o Tribunal de Haia. É preciso convocar a própria mídia internacional para exibir o seu poder de persuasão. E se este potencial já está esgotado teremos que admitir que o jornalismo já não faz sentido.
Programa 1168
>>País do curto prazo
>>Andando para trás
Postado por Luciano Martins Costa em
19/11/2009 às 9:14:59 AM
País do curto prazo
A leitura dos jornais brasileiros sugere que o País está sempre discutindo os mesmos velhos assuntos, e que nem mesmo as grandes reformas institucionais, aquelas que ganham manchetes por dias a fio, são coisa séria.
Agora volta ao noticiário a questão da Previdência Social, que foi tema recorrente da imprensa durante meses, no meio do duplo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Na ocasião, um ambicioso projeto de qualificação mobilizou milhares de funcionários do INSS, enquanto o Congresso Nacional discutia as propostas para desonerar o sistema previdenciário.
Passaram-se os anos e novamente o Congresso está às voltas com a previdência, discutindo o que? – A mudança no sistema de cálculo da aposentadoria, a questão central que provocou toda a controvérsia em 1998.
Um projeto do deputado petista Paulo Paim tenta acabar com o fator previdenciário e ressuscita o cálculo da aposentadoria com base nos últimos três anos de contribuição, o que permitiria a muitos brasileiros, daqui para a frente, contribuir durante o período final de atividade com base no valor do salário mínimo e se aposentar com o salário-teto.
Especialistas citados pela imprensa afirmam que essa alteração poderá funcionar como uma bomba-relógio nas contas da previdência, eliminando todo o esforço realizado em dez anos para reduzir o déficit do sistema.
A economia feita nesse período em que esteve em vigor o fator previdenciário chega a R$ 10 bilhões, o que tem permitido manter o sistema em funcionamento.
A mudança também pode produzir a divisão dos inativos em duas categorias de cidadãos – aqueles que se aposentaram depois da reforma e aqueles que viriam a se aposentar depois da mudança que está sendo proposta.
A enxurrada de ações na Justiça pedindo isonomia seria inevitável e os efeitos sobre as contas do sistema previdenciário oficial seriam incalculáveis.
Mas a imprensa costuma discutir apenas a questão das contas públicas e deixa de lado os interesses dos cidadãos que contribuem para a previdência.
Andando para trás
Claro que a questão tem muitos outros elementos que não cabem neste comentário, e certamente os aposentados que se sentem lesados com um rendimento insuficiente após uma vida inteira de contribuição têm motivos para detestar a reforma de 1998.
Mas a questão central, que não aparece no noticiário, é a aparente incapacidade deste país de manter por muito tempo as políticas públicas anunciadas como de “longo prazo”.
A polêmica sobre a previdência tem freqüentado o noticiário eventualmente, com referências curtas aqui e ali, e ganha destaque nesta quinta-feira apenas em um jornal, O Estado de S.Paulo.
Segundo o jornal, as alternativas em discussão não conseguem produzir um consenso, porque qualquer escolha deixará muitos prejudicados.
O caso da previdência serve como ilustração para outros temas nos quais os legisladores conseguiram, desde o processo de redemocratização, produzir algumas medidas que ajudam o Brasil a se colocar como um país bem servido de normas.
A segurança jurídica é um dos elementos essenciais para ajudar o país a se consolidar como protagonista importante nas relações internacionais.
A questão da jornada de trabalho, que também está sendo motivo de debate no Congresso, se inclui entre os temas que provocam polêmica por envolver direitos consolidados e interesses variados.
Mas em geral a imprensa apenas noticia a evolução das controvérsias, o andamento de projetos nas comissões do Congresso e opiniões envolvidas, não oferecendo ao público uma visão abrangente de cada assunto.
Além disso, nota-se claramente que os temas preferidos pelos jornais são os que envolvem negócios.
Mas há outros assuntos, igualmente importantes, que não têm merecido a mesma atenção da imprensa.
Por exemplo, o Brasil corre o risco de sofrer um retrocesso no controle do desmatamento, com a tentativa de amenizar os efeitos do Código Florestal.
Da mesma forma, sub-repticiamente e sem a vigilância da imprensa, a bancada da jogatina tenta fazer retroceder a legislação que proíbe os bingos e jogos eletrônicos, atividades que costumam servir de fachada para a lavagem de dinheiro da corrupção e de outros crimes.
O preço da liberdade – e da modernidade – é a eterna vigilância.
Programa 1167
>>A imprensa se equivocou
>>Distorções e manipulação
Postado por Luciano Martins Costa em
18/11/2009 às 9:17:43 AM
A imprensa se equivocou
Durou pouco a interpretação pessimista da imprensa sobre a decisão dos Estados Unidos e da China de adiar para 2010 a definição de metas para um acordo internacional sobre mudanças climáticas.
Os jornais de hoje, em todo o mundo e no Brasil, informam que os dois países estão oficialmente defendendo um compromisso claro, com números específicos para a redução das emissões de gases do efeito estufa, já na convenção da ONU na Dinamarca, em dezembro.
No programa desta segunda-feira, dia 16, este observador ponderava que aquilo que foi interpretado negativamente pela imprensa poderia representar um fator positivo para a obtenção de um consenso realista em Copenhague.
Claramente, o encontro entre os presidentes Barack Obama e Hu Jintao tinha o caráter – inescapável – de estabelecer um ajuste mínimo entre os dois países que lhes permitisse evitar divergências insuperáveis diante da tarefa maior de buscar uma perspectiva menos sombria para o futuro da humanidade.
Da mesma forma, também não fazem muito sentido as análises dando conta de que americanos e chineses estariam quebrando todas as esperanças de uma nova governança mundial ao buscarem o acordo bilateral.
Não existe nem pode haver um “G-2” diante do atual estado da economia mundial, cada vez mais interdependente.
Nem mesmo a força militar somada das duas superpotências poderia impor aos demais países exigências inaceitáveis no comércio global.
O noticiário desta quarta-feira repõe alguma sensatez na visão proposta pela imprensa: Estados Unidos e China, os dois maiores responsáveis pelo aquecimento do planeta, precisavam combinar à parte um desempenho conjunto, até mesmo para defender seus interesses, resolver divergências pontuais e evitar um confronto comercial com o resto do mundo.
Nenhuma das duas economias é sustentável. Portanto, os dois países também são dependentes do mercado global.
O documento conjunto que está publicado hoje nos jornais afirma que os países desenvolvidos devem apresentar metas de redução de gás carbônico na atmosfera e que é preciso também prover ajuda financeira às nações em desenvolvimento e ações para a preservação de florestas e de apoio aos países pobres e vulneráveis no processo de adaptação à mudança climática.
A imprensa genérica é pessimista porque não se aprofunda na análise dos grandes temas de interesse do leitor.
Vive da mão para a boca, no olhar varejista do dia a dia.
Não se aprofunda porque não tem interesse em discutir o sistema.
Distorções e manipulação
Luiz Egypto, editor do Observatório da Imprensa:
- Uma curiosa pesquisa foi recentemente concluída pelo professor Francisco Sánchez García, do Departamento de Língua Espanhola da Universidade de Granada, na Espanha. Ele analisou os títulos publicados pelos sete maiores jornais espanhóis de circulação nacional, entre 1983 e 2007, nas matérias referentes aos debates sobre o estado da Nação ocorridos no Parlamento daquele país.
O professor trabalhou com os diários El País, El Mundo, ABC, Diario 16, Ya, La Razón e La Vanguardia. Na sua triagem, García identificou exatos 2.557 títulos para a análise. E descobriu que a esmagadora maioria dos que citam palavras textuais de fontes políticas apresentam algum tipo de manipulação; sobretudo, segundo o pesquisador, “amputações parciais e alterações em palavras ou de sintagmas inteiros”.
Para chegar a essa conclusão, ele comparou o enunciado dos títulos com a transcrição dos debates originais. A pesquisa revelou que apenas 12% dos títulos foram rigorosamente fiéis aos fatos que os geraram.
O pesquisador foi mais além: descobriu que a adulteração é ainda mais evidente quando os jornais optaram por citar de forma indireta as declarações das fontes. De acordo com García, nesses casos os jornalistas “optam por empregar verbos negativos que servem para prejudicar indiretamente a imagem do autor das declarações”. Notou ainda o professor que se as linguagens da esquerda e da direita não apresentam diferenças significativas, é possível estabelecer uma divisão clara entre as do governo e da oposição.
É o que ele denominou “enfoque vertical” da análise ideológica: a linguagem utilizada depende mais do papel político desempenhado por determinado ator do que de sua filiação partidária.
Isto... na Espanha. No Brasil, uma pesquisa com esse espírito e rigor certamente revelaria dados tão surpreendentes quanto os obtidos pelo pesquisador espanhol. Está aí uma bela pauta para os nossos acadêmicos.
João Gabriel, sobre o tema sustentabilidade, acho que a fonte mais completa é a agência Envolverde (www.envolverde.com.br. Eu costumo receber boletins excelentes de dowbor.org, do ethos.org.br, bancodoplaneta.com.br e outros. Sobre comunicação, este Observatorio, artigo19.or, internews.org, adnews.com.br, bluebus.com.br, Meio e Mensagem, entre outros. Sobre negócios em geral, globalização, futurologia, boletim da McKinsey (mckinseyquarterly.com), World Future Society (futuristupdate.wfs.org), IEA da USP (www.usp.br/iea) e outros. mas tenho que ler obrigatoriamente Globo, Estadão, Folha, Valor Economico e o novo Brasil Econômico, além de acessar periodicamente os sites de publicações estrangeiras e do Zero Hora e Correio Braziliense. Um abraço.
eduardo ayrton, dentista
(RECIFE/PE)
Enviado em 18/11/2009 às 2:06:45 PM
Joao gabriel,
utilizo alguns portais aqui no meu RSS no mozilla. o primeiro foi o observatorio de imprensa, vi o mundo, conversa afiada, muito pelo contrario (word prees), escrivinhador, r7 e doladodelá e o direto da redação. Isso te da uma boa quantidade de noticias a nivel de brasil e de mundo...sites locais de pernambuco eu ainda estou pesquisando.
Alexandre Carlos Aguiar, Biólogo
(Florianópolis/SC)
Enviado em 18/11/2009 às 1:55:47 PM
Ah, mas a imprensa "se equivocar" em relação ao meio ambiente, seja para um lado ou para outro não é novidade. Duvido e dou um salário de um mês (que não é muito, diga-se, rsrsrs) se algum destes jornalistas que cobrem eventos ambientalistas sabe ao menos o que significam sustentabilidade, bioma, ecossistema, etc.
jaoao gabriel granado, engenheiro
(florianopolis/SC)
Enviado em 18/11/2009 às 10:17:57 AM
Caro Luciano, para fugir dessas visões distorcidas busco ler as notícias de fontes diferentes. No entanto, acho difiícil fugir da facilidade aglomeradora dos grandes portais (g1, estadao, ig, uol).
Teria alguma dica de sites de notícias que possam enriquecer minhas leituras?
O programa Observatório da Imprensa no Rádio, produzido pela Cultura AM de São Paulo, é apresentado por Luciano Martins e
tem a participação de Alberto Dines. É transmitido de segunda a sexta-feira pelas emissoras abaixo. Para ouvir as emissoras pela internet clique sobre o nome sublinhado.
São Paulo * Cultura FM (103,3 mHz) de São Paulo, 9h; Cultura AM (1200 kHz) de São Paulo, 9h;