01/07/2003

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CASO TIM LOPES
A pauta escancarada que ninguém quer ver

Daniella Wagner (*)

Na sexta-feira, dia 27, fez 17 dias que desafiei os seis jornalistas da TV Globo que, no sítio <http://www.comunique-se.com.br>, repudiaram meu artigo "Tim Lopes e a hipocrisia da imprensa". Desafiei-os a me apontarem em quais minutos das 17 horas de gravação feitas pela emissora foram esclarecidos os questionamentos levantados sobre pontos obscuros da tragédia que abateu o repórter Tim Lopes, principalmente em relação à postura da Globo no caso.

Como até agora Virgínia Coelho, Márcia Monteiro, Marcelo Moreira, César Seabra, Ali Kamel e Carlos Henrique Schröder não se mostraram competentes para me responder, quero agora publicamente me dirigir a seus superiores, os irmãos Marinho – Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto –, que juntamente com Roberto Marinho dirigem as Organizações Globo, para cobrar uma posição oficial da empresa sobre o descaso com a vida de seu funcionário.

Descaso que começou com a exposição da imagem de Tim como ganhador do primeiro Prêmio Esso de Telejornalismo, retirando-lhe o anonimato que lhe garantia a realização de pautas perigosas. Quero saber dos irmãos Marinho por que motivo até agora a pessoa da comunidade que pediu ajuda à emissora e conduziu Tim durante as vezes em que ele esteve na Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão, foi – logo após o sumiço do repórter – retirada da favela pela emissora e colocada sob sua proteção e até agora não foi apresentada às autoridades.

Afinal, depois do bárbaro crime, ela passou a ser testemunha essencial para, no mínimo, ajudar a reconstituir os últimos passos do repórter antes do seu calvário. É também importante que seja ouvida para que possamos afastar de vez a hipótese de que a TV Globo teria sido atraída para uma cilada em retaliação à matéria "Feirão das drogas", realizada na vizinha Favela da Grota, que tanto prejuízo trouxe para a venda de entorpecentes no local e que levou à prisão alguns traficantes. É muito estranho – e nos deixa uma nebulosa desconfiança –, irmãos Marinho, que a empresa de vocês não tenha interesse em que essa pessoa fale. Por que será?

Silêncio coletivo

Quero saber também dos irmãos Marinho por que o seu funcionário não contou com esquema adequado de proteção e retaguarda para a realização da reportagem.

Quero que os irmãos Marinho me expliquem por que a produtora de reportagem Virginia Coelho, ao saber pelo motorista que Tim não retornara no segundo horário combinado (22h) do domingo (2/6/02), não deu o alarme a seus superiores de que algo saíra errado, e mesmo assim continua trabalhando normalmente na empresa, mesmo tendo sua omissão resultado na morte de um colega. Ou será que ela avisou e por isso continua no emprego?

Quero que os irmãos Marinho me expliquem por que o chefe de reportagem Marcelo Moreira esperou acabar o primeiro jogo do Brasil na Copa, por volta das 8h do dia 3 de junho de 2002, para só então avisar a polícia sobre o desaparecimento do funcionário da empresa durante a realização de uma pauta, frise-se com os meios (equipamentos) da emissora, sob responsabilidade, portanto, de seu empregador.

Quero também saber dos irmãos Marinho por que os pertences do Tim (celular, agenda telefônica, caderno de anotações) não foram entregues imediatamente à polícia, só tendo sido encaminhados mais de três semanas depois, a partir de uma determinação policial.

São estas as questões que eu e as pessoas de bem – que, ao receberem pela internet os meus artigos ("Tim Lopes e a hipocrisia da imprensa" e "A TV Globo ainda não respondeu"), juntamente com a referida nota de repúdio dos referidos jornalistas, vertidos os três documentos para o inglês e enviados também para o exterior, têm se manifestado em solidariedade e multiplicado a mensagem para outras pessoas – são estas as questões que queremos ver respondidas pelos irmãos Marinho, numa posição oficial da empresa, já que, repito, seus subordinados foram incompetentes para tal.

Quero aproveitar para agradecer à Folha de S. Paulo, ao Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Dia, Jornal do Commercio, ao site No Mínimo, às revistas IstoÉ, Veja, Carta Capital, só para citar alguns, pela postura inerte nestes últimos 17 dias. O silêncio destes veículos em relação ao caso e a falta de coragem de encarar o desafio de realizarem esta pauta escancarada só vieram ratificar e tornar mais forte o meu artigo "Tim Lopes e a hipocrisia da imprensa".

Manipulação e leviandade

Paradoxalmente, na última semana, O Globo abriu espaço para dois artigos questionando a falta de ética na apuração jornalística que resulta na falta de credibilidade da imprensa.

Merval Pereira – que, na época da operação de retirada e proteção da suposta fonte de Tim era um dos dirigentes da redação de O Globo – corajosamente destaca no seu artigo "Espelho, espelho meu" (22/6/03), entre os nove princípios do bom jornalismo, "a reafirmação da necessidade de o jornalista ter compromisso com a verdade e ser independente, além de trabalhar livre com sua consciência", ressaltando ainda "a lealdade com os cidadãos e a necessidade de ser monitor independente do poder".

Mas não chega a tanto a coragem do Sr. Merval. Uma coisa é falar da distante imprensa americana. Outra coisa é meter o dedo na ferida do jornalismo brasileiro escancarada pelo caso Tim Lopes, da qual seu destemor passa ao largo. As referências dizem respeito apenas à crise de credibilidade da imprensa americana, como se a imprensa brasileira fosse um exemplo de imparcialidade.

Muito mais fácil é falar da imprensa americana, do jornalista Jayson Blair e da "tempestade que levou à demissão a cúpula de seu maior ícone, o jornal The New York Times" e que "o excesso de corporatização da imprensa americana está causando um declínio de qualidade"... E da imprensa brasileira, ninguém ousa falar? E dos seis jornalistas globais envolvidos em explicações que não explicam, as quais, num país sério, seriam suficientes para provocar a maior tempestade que poderia até levar a demissões no maior ícone da imprensa brasileira, a TV Globo?

Enquanto não se esclarecerem as circunstâncias que envolveram a morte de Tim Lopes, as Organizações Globo promoverem, em seus veículos, a discussão sobre a crise na imprensa americana é o mesmo que o roto falando do esfarrapado... Chega a ser muito ridículo, deprimente e mais uma vez muito hipócrita.

Basta lembrar que lá, por causa de um jornalista que fraudava suas reportagens, a cúpula da redação, envergonhada, pediu demissão. Aqui, as pessoas de confiança dos irmãos Marinho preferiram se solidarizar com a plantonista da madrugada, numa verdadeira elegia ao descaso com a vida de seu repórter.

Foi também em O Globo que o professor Carlos Alberto di Franco, diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística, publicou o artigo "Desafios do jornalismo" (23/6/03), no qual afirma que "uma imprensa ética sabe reconhecer seus erros", destacando mais adiante: "Confessar um erro de português ou uma troca de legendas é relativamente fácil. Mas admitir a prática de atitudes de prejulgamento, de manipulação informativa ou de leviandade noticiosa (grifo meu) exige coragem moral. Reconhecer o erro, limpa e abertamente, é o pré-requisito da qualidade e, por isso, um dos alicerces da credibilidade".

Questão de coragem

O professor di Franco chama a atenção ainda para duas questões muito sérias que atingem o jornalismo americano atualmente – o artigo, é claro, fala mais uma vez das fraudes praticadas por jornalistas do The New York Times e da crise que atingiu um dos ícones do jornalismo mundial.

"É preciso ter cuidado, muito cuidado, com a fonte que voluntariamente procura o repórter", diz ele. No caso do Tim, o próprio chefe de reportagem Marcelo Moreira confirmou em juízo que o tal informante procurou qualquer repórter da Globo. E outro jornalista da emissora, William Waack, ao participar do Fórum Tim Lopes Nunca Mais, realizado na ABI, no início de agosto de 2002, disse acreditar que Tim havia sido traído pela fonte.

E mais adiante, em seu artigo, di Franco alerta: "Espartilhados pelo mundo do espetáculo, repórteres estão sendo empurrados para o incômodo papel de uma peça descartável na linha de montagem da ciranda do entretenimento". Exatamente, acrescento eu, como aconteceu com o repórter Tim Lopes.

Em nome desse espetáculo, foi-lhe atribuída uma pauta, em terreno hostil, em que era evidente o risco, sem a menor retaguarda e com total descaso pela sua vida. Desse descaso todo resultou outro espetáculo no qual foram exibidas 17 horas de fita, com as quais seus chefes conseguiram escamotear suas próprias responsabilidades pela negligência e omissão de socorro.

Nos Estados Unidos, como disse Merval, a irresponsabilidade da imprensa com o seu produto causou uma tempestade; aqui, pelo visto até agora, a irresponsabilidade e o descaso não foram capazes de gerar qualquer conseqüência.

Com a palavra, os irmãos Marinho.

Ou algum jornalista – ou alguns jornalistas, quem sabe? – que se disponha a enfrentar com coragem a questão.

(*) Jornalista e cunhada do repórter Tim Lopes

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