MÍDIA & SEM-TERRA
Assassinato fora da pauta

Marta Ferreira (*)

Esses têm sido dias de rotas desculpas para a polícia e o governo de Mato Grosso do Sul. Histórico aliado dos movimentos sem-terra, pelo menos no discurso, o governo de Zeca do PT tenta desde domingo [22/4] explicar as estranhas circunstâncias da morte de José Rafael Nascimento, o Neto, fundador do MTR (Movimento dos Trabalhadores Rurais), um dos filhotes da era MST no país. Neto foi morto numa barreira da Polícia Civil montada especialmente para pegá-lo, seis horas antes de a Justiça expedir mandado de prisão e um dia depois de uma suposta discussão com integrantes do alto escalão do governo estadual.

Como convencer a opinião pública de que era necessária a barreira policial para prender alguém facilmente localizável por telefone, que freqüentemente dava entrevistas, que organizava protestos mais que visíveis? Como tornar plausível o fato de essa blitz ter terminado em dois tiros, um deles na cabeça do "fugitivo"?

Em qualquer polícia decente do mundo quando se quer parar um fugitivo não se dá tiros na cabeça, a não ser que se queira imobilizá-lo para sempre.

Na tentativa de mostrar que não era essa a intenção, a polícia do governo sul-mato-grossense busca criar um monstro. Diz que há uma lista infindável de crimes atribuídos a Neto, transforma a vítima do exagero policial em criminoso de alta periculosidade. Usa um artifício tão condenável quanto a atitude de legitimar um estupro alegando que a estuprada usava roupas ousadas.

O governo do PT, o partido que arvora para si o símbolo de defensor dos direitos humanos e parceiro dos movimentos populares, está, no Mato Grosso do Sul, a justificar a pena de morte num país onde ela inexiste. É no mínimo surreal, no pior sentido que a palavra pode ter.

Inacreditável que a imprensa brasileira não esteja cobrindo o caso com a verdadeira atenção que ele merece. Tudo bem. Há as molecagens do senador ACM para noticiar, as falcatruas na Sudam. Há ainda a prisão do megatraficante Fernandinho Beira-Mar. Mas há também um notório desinteresse com tudo que ocorre fora do circuito Rio-São Paulo-Brasília.

Pior ainda que a miopia da grande imprensa nacional é a indiferença demonstrada pelos movimentos que lutam pela mesma causa do MTR.

Será pelo fato de o MTR representar uma espécie de dissidência de outros movimentos? Ou, pior ainda, talvez os líderes sem-terra no plano nacional estejam usando a mesma ótica torta dos grandes veículos de imprensa: barulho em frente à fazenda do presidente da República vende mais jornal do que o assassinato de um desconhecido sem-terra de Mato Grosso do Sul.

(*) Jornalista, editora de Economia da Folha do Povo, de Campo Grande, MS



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