ASPAS

EDUARDO & MARTA
Painel do Leitor - FSP

"Publicidade", in Painel do Leitor, copyright Folha de S. Paulo, 26/04/01

"Venho expressar minha indignação com respeito ao informe publicitário publicado pela Folha, em 21/4 (Brasil, pág. A5), de natureza ofensiva e difamatória à minha família. A informação contém inverdades. Todas as vezes em que o sr. Luis Favre esteve em minha casa hospedado, a trabalho ou em visita, foi tratado com todo o respeito e educação por mim e por meus filhos. Tomarei as providências judiciais cabíveis. (Eduardo Matarazzo Suplicy, senador pelo PT de São Paulo - Brasília, DF)"



Hélio Schwartsman

"Fofocas republicanas", copyright Pensata, (www.folha.com.br/pensata) 26/04/01

"Angustia-me um pouco a forma como os ‘media’ estão cobrindo a separação do casal Suplicy. Antes de mais nada, considero que, ao contrário do que muitos querem fazer parecer, não há aí nenhuma questão pública.

Não estou sugerindo em absoluto que a imprensa deveria ignorar o assunto. Seria até uma saída elegante, mas isso simplesmente não vai acontecer. As pessoas gostam de ler fofocas e isso obriga jornalistas a cobri-las e editores a publicá-las.

Por outro lado, é um pouco ridículo tentar emprestar ao episódio uma dignidade republicana que ele não tem. Os Suplicys estão se separando porque são um casal, e casais às vezes se separam. A decisão pode até ter consequências políticas públicas, mas isso não a torna menos privada.

Os argumentos para tentar justificar a bisbilhotice na vida de políticos não variam muito, girando sempre em torno de um suposto interesse público. O editorial da revista ‘Época’ desta semana lembra, a propósito do ‘affaire’ Suplicy, a máxima de Ben Bradlee, o mítico diretor de Redação do jornal ‘The Washington Post’: ‘Bebeu em casa, assunto seu; bebeu dentro do Senado dos Estados Unidos, assunto nosso’.

A frase pode ser boa, mas não passa nem perto de lançar alguma luz sobre o problema. É perfeitamente possível tomar um porre privado no Senado assim como beber em casa e acabar criando embaraços públicos. A questão pública, quando existe, não está no local da ingestão alcoólica, mas numa trama de circunstâncias tão complexa que impossibilita predições.

Embora possamos prognosticar _e mesmo assim com risco de erro_ que o motorista que dirige bêbado de forma regular acabará batendo o carro, na política as coisas não funcionam assim. Winston Churchill conduziu e venceu uma guerra alcoolizado, ao passo que Jânio Quadros, devido a um porre específico, teria criado consideráveis dificuldades para a história do Brasil.

O raciocínio talvez até valesse para o presidente de uma superpotência nuclear, cujo delírio alcoólico poderia levar à destruição do mundo. Mas mesmo aqui há grande exagero. A Rússia e a Terra sobreviveram a Boris Ieltsin. A separação dos Suplicys obviamente não ameaça o planeta.

Na impossibilidade de distinguir ‘a priori’ entre o privado que poderá ter repercussões públicas e o apenas privado, o princípio de cautela exigiria que assuntos desse tipo fossem considerados particulares. Afirmar que a separação dos Suplicys terá repercussões políticas relevantes é especulação. Vale como exercício de análise política, mas de maneira nenhuma como justificativa republicana para o noticiário do rompimento. Já identificar causas políticas na crise que separou o casal é, por definição, uma questão privada.

Repito que não estou sugerindo uma cortina de silêncio sobre o episódio. Mesmo os Suplicys reconheceram que deviam satisfações e divulgaram uma nota lacônica que, em princípio, diz tudo o que há para dizer: que houve o rompimento e que o senador se mudava para a casa da mãe.

As questões que deram causa à separação dizem respeito apenas ao casal. Já as implicações políticas da decisão podem ou não ocorrer e, na segunda hipótese, só tomaremos conhecimento delas ‘a posteriori’ e sem jamais ter a certeza de que são uma consequência direta da separação.

Para efeitos práticos, portanto, não há uma questão pública. Se agíssemos apenas segundo os ditames da razão, ficaríamos contentes com a notinha divulgada pelos Suplicys. Há, contudo, coisas que extrapolam a razão. O gosto pela fofoca é uma delas.

Por alguma razão obscura, as mais diversas culturas nas mais diversas épocas gostam de fofocar, ainda que aparentemente nada ganhem com isso. Talvez seja a satisfação de um desejo mórbido, talvez a necessidade de procurar e cultivar exemplos e contra-exemplos. É possível até que a vida seja tão aborrecida que falar mal dos outros se torne o tempero da existência. O fato, insofismável, é que a humanidade (se eu fosse sacana escreveria ‘a mulheridade’) não passa sem a fofoca.

Compreendo que jornalistas desejem atribuir maior dignidade aos assuntos de que falam, em especial àqueles que têm vergonha de cobrir, mas a desculpa da questão pública não me convence aqui. É apenas uma desculpa.

Há, é claro, um risco em transformar o noticiário político em um amontoado de fofocas _o que muitas vezes ocorre por iniciativa do próprio político. Aqui, de alguma forma, despolitiza-se a política; privatiza-se o público. Essa questão é muito bem trabalhada pelo meu amigo e professor Renato Janine Ribeiro, no seu ‘A Sociedade contra o Social’.

‘Grossissimo modo’, Renato diz que, quando a política se torna apenas teatro, o cidadão se torna ‘público’, mas ‘público’ aqui deve ser entendido no sentido de ‘espectador’ e não de ‘bem comum’. Ora, quanto mais o cidadão é apenas um ‘espectador’ das decisões políticas, menor será o caráter ‘público’ (agora no sentido de ‘bem comum’) dessas políticas. Reduzir a política à fofoca significa, em alguma medida, privatizá-la.

Surge assim um paradoxo: o jornalismo tentar justificar a ‘fofoquização’ da política ressaltando-lhe um suposto caráter ‘público’. Ao final, será em nome do ‘interesse público’ que a política é justamente afastada do ‘público’ no sentido de ‘bem comum’, de ‘res publica’.

Seria mais honesto editar esse noticiário na forma de fofoca mesmo, sem fingir que ele terá grandes repercussões sobre os destinos do povo e da nação. Com isso evitaríamos o risco de esvaziar o caráter público da política. A fofoca que se assume como fofoca não é tão daninha. Sem pretensão de verdade revelada ou de quintessência da política, mostra-se como o que de fato é: o episódico que se encerra em si mesmo, ainda que, como qualquer evento, dependendo da conjunção de circunstâncias, possa ter consequências políticas, econômicas.

No limite, poderia, como os brioches de Maria Antonieta, provocar uma revolução. A fofoca é aqui erguida à condição de motor da história. Nem por isso deixa de ser fofoca. É importante que o jornalismo procure imprimir uma certa dignidade ao noticiário, mas não há nada de intrinsecamente indigno na fofoca, como o prova a sua universalidade."



Marcus Barros Pinto

"O poder é um terremoto na vida", copyright Jornal do Brasil, 25/04/01

"Marta e Eduardo, casados há 35 anos, se separaram na semana passada. E daí? Marta é prefeita de São Paulo e Eduardo, senador. Ambos de sobrenome Matarazzo Suplicy. Não é a primeira vez, e não será a última, em que fatos da vida privada tornam-se públicos. Basta lembrar do então presidente Collor desfilando sem aliança para provocar a primeira-dama Rosane. Ou das surras com toalha molhada impostas por Denilma ao governador Geraldo Bulhões. Ou das idas e vindas de casais como Rita e Gerson Camata, ambos parlamentares, ou da governadora do Maranhão, Roseana e seu marido e secretário de governo Jorge Murad.

‘Quando se sobe ao poder, com todos os encargos que ele acarreta, pode ser um terremoto na vida de uma família, especialmente do casal. Tudo se parece como se de repente instalassem um escritório de cem pessoas em sua sala de visitas’, situa o psicanalista Paulo Sternick.

Segundo Sternick, governantes têm problemas e impasses afetivos comuns a todos nós. E reconhece: o poder é afrodisíaco. ‘O poder entusiasma, revigora, abre o apetite para grandes realizações. Dá ao sujeito finito, mortal e barrado em seu desejo a ilusão de completude.’

É aí que mora o perigo. O psicanalista alerta: há governantes que usam o poder com humildade, sabedoria e responsabilidade. Mas há os que são guiados por impulsos narcisistas e egoístas. ‘Levado ao limite, este poder não é apenas afrodisíaco no sentido de povoar um Palácio de Governo com popozudas e tigrões. É também luxuriante, perverso, voraz. Em suma: corrupto.’

- A recente separação de Marta e Eduardo Suplicy torna público um caso familiar. Esta exposição é inevitável?

- Faz parte do processo de infantilização excitar a curiosidade em torno da vida íntima dos poderosos. É típico das crianças criar fantasias a respeito do que acontece no quarto dos pais. Os governantes têm problemas e impasses afetivos comuns a todos nós. Marta e Eduardo foram corretíssimos em não precisar esconder da sociedade que estão separados, divulgando uma sucinta nota à imprensa. Mas a verdade é que hoje ninguém mais consegue manter a privacidade. A vigilância, o olhar, o Panopticon concebido por Jeremy Bentham e estudado por Foucault, esta máquina de vigiar que domina todo mundo, inclusive os que exercem o poder. É um aparelho invisível de controle e desconfiança total e circulante, do qual ninguém é titular.

- Em que grau o poder pode interferir na relação de um casal?

- Shakespeare colocou na boca de Henrique VIII: ‘Great honours are great burdens’, ‘grandes honras são grandes fardos’. Os físicos brincam que um balançar de asas de uma borboleta na China pode provocar uma tempestade climática na América do Sul. Quando alguém sobe ao poder, com todos os encargos que ele acarreta, pode ser um terremoto na vida de uma família, especialmente do casal. Tudo se parece como se de repente instalassem um escritório de cem pessoas em sua sala de visitas. A mente fica muito ocupada e investida nas novas tarefas e novos conhecimentos. Se o laço que une o casal estiver esgarçado, e não engraçado, pode arrebentar.

- Há diferenças nas reações de homens e mulheres ao chegarem ao poder?

- A ‘clínica geral’ da psicanálise poderia imaginar uma porção de sentidos para estas situações. Não haveria limites para o que seríamos capazes de supor no varejo das emoções e reações humanas. As teorias são excelentes e a argúcia, afiada. Não nos faltam ‘interpretações’ ou explicações. Pelo contrário! O Panoptikon ‘psicanalítico’ olha e vigia a tudo e a todos, pensa ser capaz de tudo compreender e responder. Nunca apreciei generalizações. Os psicanalistas têm muitas teorias e também muitas fantasias, devido à uma fértil imaginação, ampliada em função de uma maior porosidade entre consciente e inconsciente, em decorrência de terem sido, eles próprios, analisados. E por exercitarem isso em seu trabalho. Nem todos, porém, têm a devida sabedoria e compreensão de que a maior parte de suas deduções na vida real, fora do consultório, pouco difere dos delírios. No uso da psicanálise por alguns, não falta conhecimento: falta gentileza.

- Vem se tornando traço comum o estabelecimento de relações entre profissionais que trabalham no mesmo meio. Esse é um traço inexorável da sociedade atual?

- O termo ‘inexorável’, na sua significação de implacável, já responde à pergunta, não? Mas pode realmente ter aumentado a probabilidade, primeiro, logicamente, devido ao aumento de mulheres no mercado de trabalho; depois, porque a militância no mesmo meio favorece os encontros, as identificações, numa época de escassez de tempo, de multidões anônimas, de distância entre as pessoas nas megalópolis. Novamente, a questão depende de cada casal. De um lado, esta ‘endogamia profissional’ pode ser um estímulo recíproco, ou se transformar numa competição terrível, ou numa repetição entediante. Pessoalmente, prefiro a ‘exogamia profissional’, onde as pessoas têm mais visibilidade sobre suas diferenças, podem vivenciar questões de outras áreas e se sentem mais senhores de sua própria competência, sem transformar o relacionamento numa extensão quase obrigatória do trabalho.

- Os efeitos da ascensão ao poder nos homens e mulheres difere quanto se trata de poder político ou poder na vida profissional privada?

- Bem, estamos falando aqui de um conceito estrito de poder. Há outras articulações teóricas complexas feitas por Derrida, Foucault, Lacan, Freud e outros. De todo jeito, o significante ‘poder’ é extraordinário para a espécie humana. Em todas as áreas, ele causa seus efeitos. O poder político, por se espraiar por toda uma sociedade, tem uma significação mais forte.

- Que desempenho se espera de uma mulher no poder: apenas o que se espera do homem no poder?

- Será a mesma diferença de desempenho que se espera do pai e da mãe? Talvez. O significante ‘mulher no poder’ talvez aponte para uma atuação mais generosa, cuidadosa, justa e atenciosa com as necessidades básicas da população.

- O poder é afrodisíaco?

- Afrodite, deusa do amor, é figura cercada de mistério e polêmica. Sem dúvida, o poder é ‘afrodisíaco’: afinal, a palavra origina-se do termo latino potere, guardando parentesco com potência, opondo-se, portanto, à impotência. O poder é capaz de agir como uma droga que dá um sentimento de onipotência, restaurando e revigorando a auto-estima e a ilusão do indivíduo num eu grandioso. O poder entusiasma, revigora, abre o apetite para grandes realizações. Dá ao sujeito finito, mortal e barrado em seu desejo a ilusão de completude. Mas a pergunta vai numa direção que merece séria discussão.

- Qual?

- O imaginário social diante de questões pessoais tende a ficar tomado por interpretações simplistas e maliciosas. Vivemos numa época de muita sofreguidão sensorial e material, saturada de mediocridade e baixaria. Tornamo-nos uma máquina de olhar a tudo e a todos, somos voyeurs da vida alheia, não apenas daqueles que se expõem na mídia, como os artistas e políticos. Talvez porque o mundo pós-moderno, com sua instabilidade e incerteza, vem deixando as pessoas ainda mais perdidas e ávidas por controle, comparações e referências. Quero realçar uma outra dimensão de Afrodite, presente na mitologia: embora inseparável do erótico, simboliza a dignidade, o amor espiritual, que leva ao conhecimento e à sabedoria.

- A classificação de afrodisíaco remonta de tempos em que o poder, político principalmente, era exercido exclusivamente por homens. Ela carregaria uma conotação machista?

- Nesse sentido mais estreito, sim. Mas Afrodite não é apenas um ‘Eros que se abate sobre os rebanhos’, como diria Sófocles num célebre coro de Antígona. Liga-se ao conhecimento, à sabedoria, aos altos valores. Há governantes que são tomados por este Eros que os vincula ao mundo, à sociedade, ao povo, ao desejo de transformação e ampliação da dignidade humana. Usam o poder com humildade, sabedoria e responsabilidade. Outros são guiados por impulsos narcisistas e egoístas: levado ao limite, este poder não é apenas afrodisíaco no sentido de povoar um Palácio de Governo com popozudas e tigrões. É também luxuriante, perverso, voraz. Em suma: corrupto. O mais importante não é perceber que o poder é um Viagra, mas que o poder corrompe. E é vulnerável e exposto às sutilezas da corrupção. Não interessa tanto o que nossos governantes fazem na cama, mas o que eles fazem com o compromisso assumido; com o dinheiro do contribuinte, sua probidade administrativa. Não interessa tanto se eles vão ficar casados ou se separar, mas qual o estado civil deles com as aspirações da sociedade: como vão conduzir a política econômica, a saúde, a educação e a segurança: se a favor do aumento dos privilégios de uma minoria, ou se vão prestar atenção ao que interessa, à constituição de uma sociedade mais digna.

- O poder é afrodisíaco também para a mulher?

- Infelizmente, não temos ainda tantas mulheres no poder para fazer uma estatística. Mas provavelmente, sim. Apesar de suas diferenças, homens e mulheres têm ampla faixa de virtualidades psíquicas e emocionais comuns. O problema não está na calça ou na saia, mas no caráter e na mente. Eu queria destacar um ponto inverso: o poder atrai. O poder é sedutor. Um homem, ou uma mulher, que não teriam grande sucesso de chamar atenção para si, de repente, ganham uma legião de admiradores ao exercer postos de comando ou de visibilidade. Tornam-se, magica e irresistivelmente, atraentes para muitas pessoas. O poder ilude. Freud estudou profundamente o assunto a que chamou de ‘transferência’. Cada ser humano guarda dentro de si uma criança que ainda não cresceu. A ilusão e a fantasia se opõem à lucidez, à consciência crítica, à capacidade de discernir - e de escolher. O povo aceita com muita facilidade o que vem de cima. Veja as bobagens das TVs abertas. Devíamos lutar para usar a mídia no sentido do esclarecimento. A infantilização do povo é uma estratégia de dominação política e mercadológica."



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