A história toda, na qual Avelino sente um toque surrealista
[clique abaixo em PRÓXIMO
TEXTO para ler sua entrevista], começou
em 1997 e tem como pano de fundo as barbaridades praticadas pelo
Poder Judiciário no Norte Fluminense – de resto, em muitas
cidades interioranas do país, e não menos nas grandes
metrópoles, como várias vezes denunciado pelo Observatório
[ver abaixo coleção de de links para matérias
a esse respeito]. Comentando esse abusos, Alberto Dines apontou
que as violências contra a liberdade de imprensa, assim como
as doenças, atacam o organismo enfraquecido em doses homeopáticas,
até que, quando menos se espera, tem-se um regime de exceção
instalado.
Não foram casuais, portanto, as referências dos jornais
campistas às chagas da ditadura quando noticiaram o caso.
Afinal, a sentença prolatada contra Avelino Ferreira é
puro autoritarismo, porque não tem fundamento e configura
contra-senso jurídico: se se baseia na Lei de Imprensa, o
"crime" está prescrito, como tentou em vão
provar seu advogado; o condenado é o cidadão, não
o jornalista, mas um juiz de Campos já desqualificou o "crime"
pelo Código Civil. Em meio ao vaivém judicial entre
as duas cidades e 11 processos jogados sobre o jornalista, o juiz
de Miracema foi afastado da comarca, por abuso de poder e outras
suspeições. Quem o sucedeu, contudo, manteve rigorosamente
de pé suas idiossincrasias pessoais.
Chateaubriand amordaçado
O resultado é que Avelino Ferreira deve se apresentar todas
as noites à Penitenciária Carlos Tinoco da Fonseca
– nas segundas-feiras, deve permanecer preso o dia todo. O jornal
semanal Dois Estados sobrevive aos trancos e barrancos, mantido
pelos sócios-editores: perdeu grande parte dos pequenos anunciantes
que o sustentavam, em solidariedade – ou temor? – ao juiz. Coisas
do interior. O repórter fotográfico Aloisio Di Donato,
de Campos, um dos líderes do movimento de apoio a Avelino,
lamenta o destino do jornal, um dos poucos da região que
não funcionavam segundo o modelo "o verbo de acordo
com a verba" – ou seja, independia do dinheiro público.
A jornalista Sofia Vecce, presidente do Sindicato dos Profissionais
de Comunicação do Norte-Noroeste Fluminense, está
se esforçando para ver em tudo isso os aspectos positivos:
a grande mobilização dos colegas (rara na categoria)
e uma saída para a complicada questão sindical local.
O sindicato estadual dos jornalistas, de atuação espectral
– a primeira pergunta, ao saber do caso, foi se Avelino seria seu
associado –, opõe obstáculos burocráticos à
autonomia regional da entidade. Agora, envolvida no caso Avelino,
a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) promete
resolver o problema.
Também se envolveram e se movimentam a Ordem dos Advogados
do Brasil, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro
e a Associação Brasileira de Imprensa, que despachou
a denúncia para todos os lados: Ministério da Justiça,
Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados,
governo do estado, Assembléia Legislativa, Tribunal de Justiça
do Estado do Rio. Ninguém, por enquanto, respondeu.
Assim, até que alguém faça algo e Avelino
seja solto, continuam as mordaças na redação
– e também no busto de Assis Chateaubriand que fica no Largo
da Imprensa, em Campos, colocada durante a manifestação
que reuniu na segunda-feira os profissionais da cidade. Usavam as
máscaras todos os repórteres e fotógrafos que
cobriram o protesto. Na terça (1º/9), à noite, os
colegas acompanharam Avelino Ferreira à Faculdade de Filosofia
de Campos, onde ele cursa Pedagogia. Promoveram debate e o escoltaram
em seguida à prisão. Coisas da Justiça brasileira.
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