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RIO ACUADO
Bandidos comuns, bandidos oficiais

Nelson Hoineff (*)

Todas as redações discutiam na segunda-feira (30/9) a quem atribuir a responsabilidade pela paralisação do Rio – se aos bandidos comuns ou aos adversários políticos da governadora Benedita da Silva. O extraordinário é que num ponto todos coincidiram: na percepção de que tanto uns quanto outros seriam capaz de fazer a mesma coisa.

Com crescente nitidez, eventos como este estão revelando que, da mesma forma como é complicado estabelecer os limites da ação entre o poder institucional e o poder paralelo, é também cada vez mais difícil dissociar a bandidagem da vida institucional. Ambas se contagiaram mutuamente, fruto de uma relação promíscua na qual os poderes institucionais encorajam o surgimento de bandidos e os bandidos, eventualmente de terno, passam a ocupar cargos institucionais.

O que ficou estabelecido na segunda-feira é que tanto os asseclas de Fernandinho Beira-Mar quanto os paus mandados de candidatos ao governo de um estado são capazes de tomar atitudes iguais por mecanismos idênticos. Com um agravante: quando não se vale dos poderes institucionais, a bandidagem o despreza; enquanto isso, a sociedade cultua o tráfico, como está reiteradamente comprovado por filmes como Cidade de Deus e, por que não, pela atitude da mídia ao longo dos anos.

A bandidagem se entranhou na vida brasileira assim como a corrupção nos poderes públicos. Ambos fizeram isso com tanto despudor que vão rapidamente perdendo sua face marginal. Nas ruas do centro do Rio e de São Paulo o bandido é praticamente maioria, não precisa mais adotar o disfarce de insuspeito; assim como na vida pública prevalece o que antes se entendia como focos identificáveis de podridão. Num caso e noutro, o que era aético tornou-se o modelo. Deus não existe, então tudo é permitido.

Último fiscal

A segunda-feira do medo trouxe à tona um aspecto relevante, do qual a mídia até então não se dera conta: a capacidade de mobilização dos bandidos – seja a serviço do Comando Vermelho ou de algum partido político. Mais de 40 bairros do Rio foram atingidos; áreas nobres, como Ipanema, pela primeira vez entraram na dança; a paralisação se estendeu a municípios vizinhos ao Rio, como os da a Baixada Fluminense, e a cidades como Niterói e São Gonçalo. Se o governo do Estado quisesse parar tudo isso ao mesmo tempo, teria uma dificuldade muito maior.

O único fato previsível nisso tudo era a própria tomada do poder pelos bandidos. Anunciada desde que os governos estaduais inauguraram a promiscuidade nas relações entre os dois poderes, ainda nos anos 70, a ascensão do crime foi nesse tempo todo modelar – e na maioria das vezes a mídia se comportava como se nada estivesse acontecendo.

É exatamente o que vai acontecer dentro de uma semana, quando as atenções estarão voltadas para os ministérios e secretariados que serão formados pelo novo presidente e pelos governadores. Vamos todos agir como se a violência fosse uma coisa espasmódica, um mal que recentemente tivesse sido sanado.

E, no entanto, a única diferença entre os governos que se instalarão em janeiro de 2003 e os que ora estão nos movimentos de acomodação que se sucedem às batalhas, é que aqueles serão eleitos pelo povo enquanto estes são reconhecidos e respeitados por ele.

Desde a rebelião em Bangu 1, no fatídico 11 de setembro, circulam pelas redações dos jornais fotos que nunca serão publicadas, mostrando os métodos utilizados pela quadrilha de Beira-Mar para liquidar seu inimigos. O nível das mutilações e das atrocidades cometidas dentro da cadeia superam a imaginação dos mais terríveis filmes de violência explícita que volta e meia transitam pelos cinemas.

É com essa gente que estamos lidando, é a esse pessoal que estamos respondendo. São eles que tomaram o poder no Rio de Janeiro – não totalmente, talvez, mas em rápida expansão – com a conivência das pessoas em quem votamos e que voltam a pedir o nosso voto através de discursos cujo primarismo remete a paródias vulgares.

A mídia é de certa forma um fiscal disso tudo – o último fiscal. Na pior das hipóteses, a instância capaz de lembrar que não deveria ser assim, que um estado não deveria ter sido entregue aos bandidos por sucessivos governos eleitos pelos cidadãos.

Na terça-feira (1º/10) a mídia se espantou. Todos os jornais cariocas tinham a palavra "medo" em suas manchetes, e os paulistas manchetaram um evento hipoteticamente policial do Rio, o que não havia acontecido nem com a prisão de Elias Maluco, que havia torturado e esquartejado um colega de profissão.

Na mútua contaminação que o cidadão vê entre os poderes que lhe governam, a mídia é uma das poucas instituições a sair quase ilesa. É certamente uma das menos corrompidas, culpada apenas do crime de omissão involuntária. É hora de se espantar, porque talvez no seu espanto esteja o único sêmen capaz de fazer nascer a indignação popular – sem a qual não há como derrubar os poderes que lhe oprimem.

(*) Jornalista


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