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SEGUNDONA BRAVA
Dia de traficantes e de passaralho

Antônio Brasil (*)

Para os cariocas, vai ser muito difícil esquecer a segunda-feira, 30/9. E não é à toa. O cenário pré-eleitoral prometia grandes emoções, mas a realidade sempre supera as nossas previsões. Em clima de Festival de Cinema, a cidade confirma o slogan do evento: "O Rio de Janeiro é mesmo coisa de cinema". Só que virou a "Cidade de Deus... me livre".

Será só coincidência?

Na semana que antecede eleições, com pesquisas ameaçando vitórias no primeiro turno, o cenário de violência cinematográfica não deveria causar espanto. Segundo as emissoras de rádio, o "clima era guerra e insegurança". Tem muita gente adorando essas manchetes. Parece mesmo coisa de cinema ou campanha eleitoral de última hora.

Traficantes ameaçando comerciantes, menores circulando com armas e ordenando que os logistas fechassem as portas . O transporte público entra em colapso com pouquíssimos ônibus nas ruas. Foram ordens dos traficantes, aceitas prontamente pelos empresários do setor. Escolas e universidades suspendendo as aulas e mandando os alunos de volta para casa. Pais apavorados sem saber o que fazer com os filhos. Até as cosmopolitas Copacabana e Ipanema se renderam ao caos e não escaparam das ameaças.

O Rio, mais uma vez, é refém de um poder que não teme o Estado. A população não confia na polícia e perdeu a disposição para enfrentar os bandidos. Acredita-se nos boatos e aceita-se a própria impotência. Culpa-se o Estado, as instituições e dá-lhe mais um feriado em dia quente.

Pobres Benedita e Lula. Para quem não consegue esquecer o poder da "reação", o cenário pré-eleitoral é muito conveniente. Terrorismo de direita. Dólar dispara, declarações internacionais sobre o provável calote brasileiro e... jornalistas demitidos!

É, só faltava mais essa, para completar. A segunda-feira foi ainda mais dramática para os jornalistas de um combalido Jornal do Brasil. Pela manhã, os e-mails circulavam na redação do JB anunciando o pior. Mais um "passaralho". Um jornal que já teve tanto poder e prestígio libera o vôo do seu pássaro mais temível: o bicho está solto e, pelo jeito, faminto. As primeiras notícias indicam pelo menos 28 profissionais foram demitidos, parte de uma jovem geração brilhante que sofre com as mazelas econômicas dos mais velhos. Nas guerras ou nos remanejamentos da redação, costumam ser sempre os mais jovens os primeiros ser cortados.

Esta semana prometia, mas a realidade sempre supera a nossa imaginação. Se servir de consolo, vale saber que ninguém morre de tédio no Brasil – principalmente jornalistas.

(*) Jornalista

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