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IMPRENSA & PEDOFILIA
Médico tarado entorpece a mídia
Nelson Hoineff (*)
Nelson Rodrigues dizia que se o copidesque do Jornal do Brasil (daqueles tempos) visse uma bomba atômica caindo pela janela, teria tempo de redigir "caiu uma bomba atômica" sem lhe acrescentar um ponto de exclamação, um toque de espanto sequer.
Bombas menores têm caído e a verdade é que perdemos a capacidade de nos espantar. O MST toma a fazenda do presidente, anuncia "ação militar" e vai ao bunker de Arafat lhe oferecer um "escudo humano" – e não nos espantamos com isso. O governador do Rio diz que sua própria companheira de chapa é despreparada para governar, e ninguém se lembra de perguntar se a ética da campanha que ambos fizeram juntos não deveria ser mais forte que as alianças circunstanciais. Vereadores ganham carros novos, deputados têm auxílio moradia, as mordomias do Legislativo insultam a pobreza, o abandono, o desemprego dos cidadãos que elegeram os seus algozes – e tudo isso é perfeitamente normal. No Rio e em São Paulo, o crime organizado mata mais que a guerra no Oriente Médio, intimida a população, persegue a polícia, invade os quartéis – e absolutamente não achamos qualquer coisa de estranho nisso.
Não nos espantamos em ter as atenções concentradas para adivinhar quem, entre uma dúzia de retardados, vai deixar o Big Brother – e muito menos em saber que 30 milhões de brasileiros famintos estão fazendo a mesma coisa. Não nos espantamos em perceber que mais de 70% dos brasileiros consomem a mesmíssima fonte de informação, da mesma forma como há muito tempo já não nos surpreendemos em literalmente caminhar por cima de famílias inteiras disputando com ratazanas os espaços das calçadas, e muito menos em testemunhar todos os dias um assalto ao carro que está na nossa frente, achando que somos mesmo sujeitos de sorte por não ter sido conosco.
Além dos fatos
Um pediatra pedófilo ataca seus pacientes e todos nos unimos na indignação. O ato que deriva da mente de um psicopata dessa natureza é de indefinível abjeção, mas sua circunstancialidade não deve se sobrepor ao espanto com os crimes que diariamente são cometidos contra a sociedade e a população brasileira, justamente por serem cotidianos, premeditados e frutos de mentes consideradas "sadias".
O espanto com a exceção não pode redimir o que nossa própria incapacidade de se espantar já transformou em regra. Um monstro forjado por uma terrível doença mental não pode ser alçado à condição de um Messias que vem para redimir os pecados do resto da humanidade. É esse o perigo midiático das tragédias ocasionais, dos pedófilos de classe alta aos acidentes naturais: elas são capazes de catalisar a atenção da mídia, enquanto o que deveria ser objeto da sua atenção se cristaliza em silêncio.
Médicos ou padres tarados são um belo molho para o noticiário, mas podem sedar a mídia tanto quanto as suas vítimas. Em estado de torpor, a mídia, como os garotos, pode não ter consciência do que está fazendo. Casos como o do pediatra de São Paulo dão nojo e pena. Mas a mídia sabe qual é o sedativo que lhe estão vendendo e conhece os seus efeitos. Por isso mesmo, sua capacidade de indignação deve ir muito mais adiante dos fatos oportunamente escabrosos – para não ser confundida com pura e simples conivência com o cotidiano da brutalidade, da roubalheira e da hipocrisia.
(*) Jornalista e produtor de TV
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