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VIDA DE JORNALISTA
Entre sabiás e carinanas

Sidney Borges (*)

Sempre que converso com meus ex-colegas jornalistas sou visto como alguém que realizou um sonho quase impossível para a maioria. Abandonar a cidade, os congestionamentos, a ameaça de desemprego, a violência, e morar num lugar calmo e bucólico, cercado pela natureza. Após uma série de desencontros filosóficos com os patrões, em São Paulo, resolvi mudar de vida, radicalmente. Estou morando quase dentro da Mata Atlântica, em Ubatuba, onde escrevo muito, dou aulas de Física e observo a natureza. Esta última primordialmente.

A vida no campo tem um lado que não é imaginado pelos urbanos. Enquanto vivia em São Paulo jamais haveria de pensar que, um dia, minha primeira tarefa de uma sexta-feira seria convidar uma carinana de pouco mais de um metro a retirar-se do jardim. Devo confessar que a gentil criatura não fez qualquer oposição e foi-se embora, luzidia e brilhante, como chegou. Para os radicalmente urbanos, devo informar que carinanas são cobras, não-venenosas. Depois do entrevero ofídico fui fazer a barba e tomar banho. Quando já estava saindo de casa tratei de soltar a Mamãe Noel, que como sempre estava presa em minha sala, esperando ser liberada para cumprir sua agenda lotada de afazeres.

Penso que ela sabe que será solta por mim, tantas vezes isso já aconteceu. Mamãe Noel é o apelido de uma fêmea de sabiá, que vem alimentar os filhotes, que está criando dentro do sifão da lareira. O ninho, construído no alto da chaminé, cedeu, ficando os pequeninos presos no fundo da lareira, que é separado da parte frontal por uma laje inclinada a quarenta e cinco graus. Na parte superior da laje há uma abertura de uns vinte centímetros, por onde a fumaça passa, curvando-se, antes de sair, através da chaminé.

Perereca no box

No princípio, pensei que os filhotes iriam morrer, passei uma noite difícil pensando em uma forma de resgatá-los. Não encontrei solução. Seria preciso remover alguns tijolos, não havia outro jeito. Na manhã seguinte, já decidido a chamar o pedreiro, fui alertado pela empregada. Ao chegar, ela encontrou um pássaro grande, preso na sala. O pássaro estava encurralado numa prateleira, onde se encontrava a coleção de miniaturas de cerâmica do mestre Vitalino. Desnecessário dizer que, ao agitar as asas, o pobre e aterrorizado animal transformou as obras de arte em quase farelo. Com cuidado e um saco plástico, capturei o intruso e o soltei.

Antes de sair para o trabalho, examinei a lareira. Estava silenciosa, como sempre fica quando não está acesa. Não havia sinal dos filhotes barulhentos do dia anterior, data do desmoronamento. Pensei que tivessem morrido. Naquela tarde, ao retornar, tive outra surpresa. Encostado numa parede de vidro, um pássaro debatia-se tentando encontrar a saída. Era grande. Tive a impressão de já tê-lo visto. Repetiu-se a cena do saco plástico, soltei o bicho, que voou para a mata. Só então me dei conta que não havia como esse pássaro estar dentro de casa, a não ser que tivesse entrado pela chaminé, e chegado à sala pela abertura do sifão da lareira.

Finalmente tudo estava claro. Aquela era a mãe dos pimpolhos barulhentos, que fazia esse caminho tortuoso para alimentar os filhotes. Depois que cumpria a obrigação, saía da lareira e ficava presa naquele lugar tão estranho. Ela entrava, como se fosse Papai Noel, e acabava na minha sala. Para ela, era um lugar misterioso, cheio de paredes que deixavam passar a luz, mas impediam-na de voar para a floresta. Depois de algumas ajudas de minha parte, ela já nem faz menção de fugir quando me aproximo, inclusive tomei a liberdade de acariciar a sua cabecinha cheia de responsabilidades. Ela fechou os olhinhos de satisfação.

Dessa forma estamos criando uma família de sabiás, dos quais me considero padrinho, desde o dia em que o ninho caiu. Preciso terminar logo este texto, minha mulher está dizendo que tem uma perereca no box do chuveiro. Onde está o saco plástico?

(*) Jornalista (ex-TV Globo, ex-TV Record, ex-Folha) e professor

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