|
JUNDIAÍ, SP
Terra da uva e da censura
Rafael Alcadipani (*)
A cidade de Jundiaí (SP) é conhecida e reconhecida nacionalmente por sua produção de uva e pelas festas que vendem o produto. Todavia, há algum tempo também passou a ser a terra da censura. Infelizmente, os órgãos de imprensa locais, devido a sua condição financeira desfavorável, são dependentes dos anúncios da prefeitura. No ano de 2002, de acordo com dados divulgados pela imprensa oficial do município, a prefeitura gastou em publicidade com os jornais locais R$ 473.438,82, e com as rádios, R$ 342.000. Além disso, até há pouco tempo ocupavam cargos de confiança na prefeitura o diretor e um jornalista de uma das rádios da cidade, além de alguns colunistas sociais. Até hoje, ocupa o mesmo tipo de cargo um dos editores de um dos jornais da cidade.
Jundiaí também tem uma televisão educativa, a TVE – um dos canais da TV a cabo da cidade. Essa televisão é controlada única e exclusivamente pelo governo local, que a utiliza ao seu bel-prazer. Além da parte "educativa", a TVE apresenta noticiários sobre a cidade e retransmite os mais importantes eventos da administração municipal. Nos dois últimos casos, praticamente funciona como televisão de divulgação dos "grandes feitos" da administração local. Críticas ou problematização sobre a cidade passam ao largo da emissora, em que somente aparecem as pessoas da prefeitura ou seus defensores. Com isso, perde-se totalmente a noção de televisão pública, que passa a funcionar como instrumento de propaganda do grupo político no poder.
Mais regra do que exceção
O mesmo acontece com os demais veículos da imprensa local. Funcionam quase que exclusivamente para divulgar e construir um consenso mudo em torno dos signatários do poder. Não há críticas, não há problematizações, não há dúvidas nas capas e nos microfones da imprensa jundiaiense. A relação amistosa entre a imprensa e o governo não começou na atual gestão do PSDB na cidade. Os contratos entre a prefeitura e os veículos da mídia da cidade começaram na administração do ex-deputado federal André Benassi, e foram alvo de investigação e ação judicial do Ministério Público há cinco anos. Na ocasião, a Justiça considerou a ação improcedente. Coincidência ou não, o ex-deputado federal é um dos proponentes da famigerada "lei da mordaça".
Ninguém ousa falar contra a administração municipal. Quem ousa é silenciado. Eu era articulista do Jornal de Jundiaí desde outubro passado, posição que ocupava sem qualquer vencimento e para a qual fora convidado. Vez ou outra, escrevia artigos que problematizavam a realidade da cidade, e não eram amistosos com o governo local. Na verdade, escrevi, de um total de 32 artigos, três contrários a ações da prefeitura, ou que as questionavam. Depois do terceiro artigo, minha permanência como articulista foi condicionada à não-publicação de qualquer artigo crítico à prefeitura. Contaram-me que depois de cada artigo meu a redação do jornal recebia pressões de pessoas ligadas à prefeitura, ou seja, pedindo minha exclusão do corpo de articulistas.
Transformaram-me em persona non grata e meu espaço estava com os dias contados. No início deste ano, um artigo meu e uma entrevista que concedera foram censurados pelo proprietário do jornal. O mais interessante é que o artigo versava sobre homossexuais, e não fazia nenhuma menção à cidade ou a políticos locais. Não aceitei a arbitrariedade, típica dos tempos da ditadura escancarada.
Fui vítima de censura, muito embora o governo local negue, por ousar romper o silêncio da imprensa municipal. Vários jornalistas que trabalham nos jornais e rádios locais me confidenciaram, e preservo o nome destes profissionais, que dependem de seus empregos, que esta situação é corriqueira, pois somente podem publicar aquilo que não constrange e não fere os interesses do governo eleito democraticamente.
O mais desalentador é que o caso de Jundiaí é mais regra do que exceção em nosso país. Inúmeras cidades são controladas por grupos políticos que se aproveitam da fragilidade dos veículos de imprensa locais para exercer seus mandos. Os jornalistas, esperançosos por ajudar na consolidação da democracia, verdadeiro papel de uma imprensa livre e sem comprometimentos, acabam obrigados a colaborar, em nome de um salário, com a construção de Ilhas da Fantasia que sabem não existir. A população fica desprovida de um direto fundamental: a informação. E grupos políticos se perpetuam no poder, maculando a democracia.
(*) Professor de Administração na ESPM-SP (Escola Superior de Propaganda a Marketing), professor-convidado na UFPr (Universidade Federal do Paraná) e pesquisador-assistente na EAESP-FGV (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas)
|
|