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ASPAS
IBSEN & ALCENI
Luís Costa Pinto
"A história de dois vencidos", copyright Época, 28/11/00
"O cabelo grisalho, com os fios curtos ligeiramente desalinhados pela ausência de gomalina, não remete de pronto ao semblante grave e freqüentemente solene do homem que entre 1991 e 1993 presidiu a Câmara dos Deputados. No cargo, Ibsen Pinheiro comandou a votação que em 29 de setembro de 1992 apeou do poder o presidente Fernando Collor de Mello e iniciou formalmente o processo de impeachment contra o chefe de governo cassado por corrupção meses depois. O sorriso fácil e a auto-ironia aguçada de hoje parecem querer confiscar as marcas da experiência à fisionomia do homem de 65 anos. Há menos de uma década, figurava no elenco de candidatos à Presidência da República. Em 18 de maio de 1994, foi punido pelos colegas com a cassação do mandato de deputado. Não conseguira rechaçar evidências de enriquecimento ilícito levantadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito do Congresso que apurava desvios de verbas do Orçamento da União. Em dezembro de 1999, o Supremo Tribunal Federal (STF) extinguiu o processo por considerar insatisfatória a consistência das denúncias arroladas contra Ibsen. O ex-deputado ainda tenta decifrar o turbilhão que o atirou ao fundo de um poço do qual só agora, acredita, começa a vislumbrar a luz da superfície.
- Alceni, tínhamos muita exposição e pouquíssima articulação - disse Ibsen na terça-feira 21 ao amigo que reencontrara depois de dez anos.
Numa churrascaria à margem da Avenida das Torres, via expressa que liga São José dos Pinhais a Curitiba, no Paraná, ele almoçava com Alceni Guerra, ministro da Saúde do governo Collor. O encontro foi promovido por ÉPOCA. Demitido em 24 de janeiro de 1992, quando o chefe ainda parecia fadado a cumprir os quatro anos do mandato conquistado em 1989 com 35 milhões de votos, Alceni sucumbiu à acusação de ter comprado bicicletas, guarda-chuvas, vacinas, filtros e remédios superfaturados. Reportagens espalhadas por todos os veículos de comunicação o responsabilizavam pelo desvio de até US$ 100 milhões no Ministério da Saúde.
Quase um ano antes da queda, assessores do Palácio do Planalto fizeram chegar às redações a informação de que Alceni era um dos favoritos de Collor na lista dos possíveis candidatos à sucessão presidencial. Nos 11 meses seguintes, o ministro contabilizou 104 horas de reportagens desfavoráveis ou francamente hostis nas principais emissoras de TV. Menos de um ano depois do bombardeio que o aniquilou, Alceni foi inocentado pelo Tribunal de Contas da União, pelo Ministério Público Federal e pelo STF. Perícias técnicas e jurídicas concluíram que o ministro não promovera nem acobertara irregularidades.
- Consegui compreender o que aconteceu, e a reparação virá no curso da História - diz Alceni, que expõe didaticamente as razões do próprio calvário.
- Eu e você, Ibsen, representávamos perspectivas reais de poder e não conseguimos entender esses sinais no momento oportuno - interpreta. - Não fizemos uso público disso. Fomos imolados pela desatenção com o processo histórico.
Ibsen Pinheiro tem uma vida confortável, ao menos na aparência. Professor de Direito Constitucional da Universidade Luterana do Brasil, em Canoas, no Rio Grande do Sul, e promotor de Justiça aposentado, acumula a função de diretor de futebol do Internacional de Porto Alegre com o posto de comentarista esportivo da Rede Brasil Sul (RBS). A mulher, Laila, resistiu valentemente ao achincalhe da imprensa e a traições praticadas por supostos amigos que votaram pela cassação do marido. A união dos dois saiu fortalecida. O filho Márcio transformou-se no grande companheiro dos pais. Mas, interiormente, Ibsen continua dilacerado.
- Acusaram-me de ter recebido entre US$ 880 mil e US$ 1 milhão. Cassaram-me por isso. Eu jurava que não tinha tamanha fortuna. Não acreditaram - protesta. - Ficou provado que minha única fonte de renda era o salário. Minhas contas bancárias recebiam depósitos regulares porque eram irrigadas pelos cruzados desbloqueados
O advogado Ibsen, que pretende montar uma banca em 2001 e não faz planos para voltar a disputar mandatos eletivos, serve essas explicações acompanhadas de um sorriso. No apartamento em que mora no bairro Petrópolis, reduto da classe média abastada da capital gaúcha, basta contemplar a paisagem em torno para confirmar que a decoração não é produto de pilhagens. O tecido cru e florido dos sofás, o casal de velhos empregados e os bibelôs de louça de diversos gêneros, de origens variadas, avisam: ali mora um casal que seria facilmente confundido com plácidos avós, a despeito de não ter netos.
Há um ano Alceni se convenceu de que precisava exorcizar certas lembranças ainda vivas na memória de Guilherme, o mais velho dos quatro filhos. Hoje com 21 anos, o primogênito se sentia inseguro ante desafios como o vestibular. Sofreu três reprovações. Diante de qualquer disputa, perturbava-se com a impossibilidade de obter a unanimidade. No auge do escândalo que o tirou do governo e de Brasília, o ex-ministro foi fotografado passeando numa bicicleta dupla em companhia de Guilherme.
A foto estimulou cartunistas e humoristas a fustigar Alceni. Acabaram atingindo duramente o filho. A busca da vitória unânime, concluíram os terapeutas, tinha raízes no episódio enterrado na memória de Guilherme Guerra. Ao rememorá-lo, o filho do ex-ministro superou-o. Está cursando Matemática e Direito em duas universidades paranaenses. Conseguiu o primeiro lugar em ambos os vestibulares.
Em 1996, o médico Alceni, que interrompera o trabalho como pediatra por não conseguir combiná-lo com a política, elegeu-se prefeito de Pato Branco, no oeste do Paraná, com 72% dos votos válidos. Em maio passado, renunciou ao mandato e não tentou a reeleição, pois fora nomeado secretário do governo Jaime Lerner. É peça-chave numa equipe que tenta manter a bandeira do PFL na Região Sul do Brasil sob o discurso da moralidade e busca soluções inventivas para os problemas públicos. Em 2002, será, no mínimo, candidato a um terceiro mandato na Câmara dos Deputados. Caso triunfe, poderá credenciar-se à disputa da sucessão de Lerner.
Os dois amigos se olham no quinto brinde ao reencontro. Bebem a segunda garrafa de Lacrima dei Christi del Vesuvio, razoável vinho italiano.
- Alceni, suponha que tenhamos três candidatos a presidente da República. O primeiro é um demagogo de carteirinha ligado a corporações sindicais pelegas. O segundo, um bêbado reacionário e boêmio. O terceiro, um herói de guerra que sempre se dedicou à vida pública e partidária e não teve sequer tempo de constituir família. Em qual deles você votaria? - quis saber Ibsen, introduzindo uma espécie de parábola para explicar o que lhes acontecera.
- No terceiro, claro - disse Alceni.
- O terceiro era Hitler! - grita Ibsen. - Hitler, o facínora alçado à condição de herói por uma opinião pública sugestionável e sem capacidade de análise ante os fatos que o Estado lhe impunha. O primeiro era Franklin Roosevelt. O segundo, Winston Churchill.
Pouco antes das 16 horas, abraçaram-se, despediram-se e combinaram, sem marcar datas, novos encontros. Querem assombrar os fantasmas que lhes arruinaram a biografia."
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