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CRISE ENERGÉTICA
Socorro, me desligaram do mundo!
Vera Silva (*)
Hoje, aos vinte e nove dias de maio de 2001, no alvorecer do novo século, recebi a notícia de que havia sido desligada do mundo.
A Companhia Energética de Brasília acaba de comunicar que minha meta durante o racionamento é de 100kwh! Por mês. Caso eu não colabore, serei desplugada por 3 dias, e, se insistir em pecar, serei desplugada por 6 dias e assim sucessivamente.
Eu, que sempre economizei energia, que tenho uma média anual de 140kwh/mês, acabei por ser penalizada pela minha economia. E agora? Toca a fazer conta. Somei, diminui, percentuei, calculei, dividi, mas não encontrei um jeito de gastar somente 100kwh/mês sem me desplugar definitivamente do mundo.
Vejam só. Para poder ler o Observatório toda semana, fazer os trabalhos do consultório, pesquisar na internet e escrever uns artigos de vez em quando, vou precisar deixar de ver TV e de passar roupa (já estou pensando em deixar as roupas que amassam de herança para o Estado, quando eu morrer).
Barriga ou o quê?
Para poder acender uma luz por noite e continuar a tomar banho morno, vou precisar ligar a máquina de lavar apenas uma vez por semana por 1 hora (vou arquivar as roupas brancas também, sujam demais). Vou aprender a conviver com os ácaros, porque o aspirador de pó somente será ligado uma vez por mês (ah, mandei a faxineira jogar fora os tapetes de quarto que ficarem sujos).
Estou treinando andar no escuro dentro de casa, para não precisar acender mais de um ponto de luz, porque a luz do quarto do computador é fria e não se pode ficar ligando e desligando. Preciso mesmo comprar uma lanterna antes que leve um tombo. Ainda bem que não vou poder mais usar a enceradeira, pois, sem polimento, o chão não escorrega. Que sorte, hein?
Quanto àquelas parafernálias supérfluas, como o aparelho de som, já esqueci. Do videocassete, nem se fala, desliguei. As outras, nem uso. Quando quiser ouvir música, vou cantá-las eu mesma. Ainda bem que não gosto de ar condicionado e só uso ventilador no consultório!
O pior é que não sei se vou atingir a meta; por isso, se eu sumir, é porque apaguei de vez. Espero que gente não apodreça por falta de energia.
Mas o pior mesmo é saber que tem um monte de gente fazendo o enorme sacrifício de economizar 20% de 600kwh! Coitadinhos! Tenho uma enorme pena deles! Por falar nisso, quanto será que o presidente gasta na fazenda dele e naquele maravilhoso apartamento de São Paulo?
Bom, para não fugir ao escopo do Observatório da Imprensa, por que será que a imprensa não discute a discriminação energética instaurada no país pelo fato de o plano de racionamento não estabelecer uma cota mínima para que o brasileiro possa viver com dignidade? É "barriga" ou o quê?
Será que a única coisa errada no plano de racionamento era a proibição de usar o Código do Consumidor? E o meu direito e o de muitas outras pessoas na minha situação de usarmos energia elétrica em iguais condições? Não é lesão de direito? Por que a imprensa silencia sobre isso e fica fazendo reportagem sobre como as pessoas vão economizar, usando exemplos daqueles que reduziram o consumo de 1.400kwh para 800kwh somente desligando o aquecimento da piscina e o motor do toboágua ou usando somente 3 freezers em vez de 5, ou desligando 30 dos 50 pontos de luz da casa etc. etc.?
Parece que todos nós, os de bom senso, somos a bola da vez. Quem sabe vão nos usar para fabricar um suco de bom senso para ver se os ministros acertam a política energética, como no romance do Aldous Huxley. Só espero que vocês, os que ficarão plugados, não sejam alérgicos ao meu DNA.
Ah, se vier me visitar, venha de dia e traga o gelo do uísque, para eu não precisar acender a luz nem abrir a geladeira. Não pense em dormir por aqui. A cota só dá para um banho morno de 5 minutos por dia. E olhe lá.
(*) Psicóloga

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