MÁRIO COVAS
Camilo Toscano

"Médico de Covas reclama de noite de ‘fofocas’", copyright Folha Online, 2/03/01

"O infectologista David Uip, médico particular do governador licenciado de São Paulo, Mário Covas, mostrou certa irritação com a imprensa durante a entrevista coletiva de hoje no Incor (Instituto do Coração). Uip disse que ontem ‘foi uma noite de fofocas’ sobre as notícias divulgadas sobre a saúde do governador.

O médico não se referiu a nenhum órgão de imprensa em particular, mas afirmou que a divulgação de informações pela equipe médica não será exclusiva a nenhum meio de comunicação. Uip disse, no entanto, que, como no hospital existem diversas pessoas envolvidas no tratamento de Covas, em algum momento informações podem vazar.

De acordo com o médico, as visitas ao governador estão liberadas pela equipe médica, mas a família decidiu não permiti-las. ‘Não há impedimentos médicos (para as visitas)’, afirmou Uip."



Ivan Angelo

"Médicos de Covas queixam-se de boatos", copyright Jornal da Tarde, 3/03/01

"A entrevista coletiva dos médicos que cuidam do governador licenciado Mário Covas revelou um fato sobre o qual as emissoras de televisão que transmitiram a entrevista ao vivo se calaram e aquelas que só a transmitiram editada e enxugada, nos seus noticiosos fixos, omitiram. A coletiva foi concedida no início da tarde de quarta-feira. Até então, notícias sobre o estado de saúde de Covas tinham uma indicação vaga de fonte, algo como ‘médicos que cuidam da saúde do governador’ ou coisa semelhante.

Pois bem. Na fala de início da entrevista dos três médicos que coordenam os procedimentos, foi dito claramente: o que estava sendo divulgado na mídia sobre substituição de medicamentos e tentativa de desobstrução do intestino do doente por meio de sonda era ‘boato, fofoca, mentira’. Isso é grave.

Os telejornais da noite de terça-feira falavam dessa desobstrução; os da manhã falavam dela e de mudança de antibióticos na tentativa de reverter o quadro de infecção generalizada. Um dizia que fora descoberto um foco de infecção no intestino. Os médicos esclareceram que não se sabia a origem da infecção, que isso não era importante, não interessava, e que o importante era o combate à infecção. ‘Boato, fofoca, mentira.’

Os jornalistas silenciaram. Fica, então, o mistério: quem passou as informações, quem é o boateiro, como é que alguém responsável é enganado e divulga fofoca como notícia, por que a pressa de divulgar informações não checadas em fontes seguras, por que os jornalistas não podem dizer aos telespectadores uma coisa cristalina e perfeitamente aceitável como ‘os médicos responsáveis não forneceram informações novas sobre o estado do paciente’.

É melhor do que veicular boatos, fofocas e mentiras.

Comportamento - Impressionante a fila de parentes formada em frente à Casa de Detenção para levar aos presos alimentos, artigos de higiene, cigarros, chocolate e algo mais. A fila foi mostrada no jornal matinal da Band, Dia Dia News. Dentre os milhares, pouco mais de 100 conseguiram senha para encaminhar ao seu preso uma sacola de gêneros. Revista rigorosa, lenta. O dado mais interessante, do ponto de vista sociológico, é que 99,9% são mulheres. Muito provavelmente não foi por falta de amor de mães, esposas, irmãs e namoradas que aqueles homens tornaram-se criminosos. Esse aspecto da dedicação feminina aos presos não mereceu ainda uma reportagem interessante na tevê. Por que os homens (pais, irmãos) raramente visitam os presos, levam presentes? Terão menor capacidade de compreender e perdoar? Guardam mágoa dos filhos ou dos pais que erraram? Romperam com eles, não querem mais saber? E como é a fila de visitas nos presídios femininos: há maioria de homens? Eles vão vê-las?

Homens namoram presas tanto quanto mulheres namoram presos? Como são as visitas íntimas nos presídios femininos?

Machismo - Ontem de manhã, com a repórter Fátima Souza, da Band, o telespectador de noticiários ficou sabendo que o motivo do gesto enlouquecido de Duílio Pessoto, agricultor de 56 anos que matou quatro amigos em Jundiaí e suicidou-se, foi uma forma primitiva de machismo. Segundo a notícia, o agricultor ficou ofendido com os amigos que, no domingo de carnaval, duvidaram da sua masculinidade. É sempre bom que os noticiários destaquem o lado agressivo e freqüentemente criminoso do comportamento machista, para que as famílias eduquem melhor seus filhos homens. Que eles aprendam a viver melhor com seus conflitos de masculinidade, e não enveredem para a violência, como a desse infeliz agricultor e a daqueles carecas que mataram de pancada um homossexual na praça da República. Um aprofundamento da matéria seria oportuno nesses momentos."



GLOBO FAZ PRESIDENTES?
Luís Nassif

"Covas, Collor e a Globo", copyright Folha de S. Paulo, 3/03/01

"A Globo faz ou não faz presidentes? Seu papel nas eleições de 1989 ainda não foi suficientemente esclarecido. Sempre se aceitou, por verdade, que desde o início a Globo apostou todas as suas fichas no então governador de Alagoas, Fernando Collor, que teria sido eleito exclusivamente devido ao seu apoio. Não foi bem assim. Nem se pode atribuir ao boicote de Globo a não-decolagem da candidatura de Mário Covas.

Embora Roberto Marinho fosse amigo e tivesse sido sócio de Arnon de Mello, pai de Collor, aos seus olhos sempre assustou o perfil instável do governador alagoano. No primeiro turno das eleições a tática da Globo consistiu em testar as possibilidades de Covas, primeiro, e de Afif Domingos, depois. Só quando sentiu que não decolariam é que embarcou na de Collor. De maneira geral a grande imprensa utilizou o mesmo procedimento, com exceção da Folha, que desde o início foi crítica da candidatura alagoana.

Para Covas se aproximar da Globo, houve a mediação de Jorge Serpa, o eterno homem de Roberto Marinho para a área política. A estratégia consistia em dar ampla repercussão a um pronunciamento vigoroso de Covas, que tirasse dele a pecha de estatizante que ele conservava muito mais por teimosia própria do que por convicção. Com o auxílio de algumas estrelas do PSDB, foi preparado um discurso tecnicamente bem-feito. O discurso foi apresentado a Serpa, que sugeriu uma modificação. ‘Falta o lide’, disse ele, a frase bombástica que orientasse as manchetes dos jornais no dia seguinte. O lide sugerido foi o tal ‘choque de capitalismo’, uma concessão à retórica que colidia com a própria imagem de Covas, que abominava populismo ou frases de efeito. Mesmo assim, as modificações foram feitas. No dia seguinte todo o conteúdo do discurso foi abafado pela repercussão do tal ‘choque de capitalismo’. Covas não conseguiu convencer os recalcitrantes e ainda perdeu pontos no seu eleitorado.

Esse não foi o fator decisivo para sua candidatura não ter decolado, mas contribuiu para tanto. Na verdade, Covas ainda trazia a herança de ter sido um dos principais formuladores da Constituição de 1988 -àquela altura sob fogo cerrado e algo irracional da mídia, que atribuía a ela todos os defeitos, sem divulgar os grandes avanços que também proporcionou.

Depois disso, a Globo tentou apostar as fichas em Afif, que também não decolou. Aderiu à candidatura de Collor quando esse já batera os 25 pontos no Ibope. A partir daí, o alagoano tornou-se seu candidato, especialmente no segundo turno, contra Lula. Na verdade Collor venceu porque tinha o discurso que mais se encaixava nas expectativas do eleitorado da época e porque, receosa da vitória de Lula, a grande mídia não tratou de levantar o que havia sido sua gestão em Alagoas.

Logo depois de eleito, passou meio despercebida uma frase irônica de Collor, referindo-se a Serpa: ‘O Serpa já não é mais o mesmo’.

Sobre Mário Covas, falo amanhã.

Qualidade de fonte

Durante meses o médico-legista Fortunato Badan Palhares -cujo pecado maior sempre foi a arrogância e o deslumbramento- foi linchado com base, entre outros, nos argumentos de seu colega de departamento e adversário, o foneticista Ricardo Molina de Figueiredo. Estava claro para qualquer pessoa com mínimo bom senso que tratava de disputa baixa de egos. Agora Figueiredo está na situação de expulso da Unicamp por conduta antiética com recursos públicos e com denúncia na polícia por desaparecimento de documentos. Essa carne de gato foi servida durante semanas ao distinto público como se fosse de primeira."



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