07/10/2003

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DISCRIMINAÇÃO
Imprensa e inclusão racial

Muniz Sodré (*)

Não raro, formas expressivas ou manifestações artísticas podem servir de fontes conceituais para a atividade jornalística. Bom exemplo disto é o filme O homem que copiava, de Jorge Furtado, ainda em cartaz. As resenhas cinematográficas chamam a atenção para o entrecruzamento de linguagens e para o bom desempenho de Lázaro Ramos. Até aí, tudo corriqueiro. O que traz o filme para o campo de observação da imprensa é o fato de que o fenótipo (negro) do ator não suscita nenhuma problematização racial para o personagem. Um conceito que poderíamos denominar de "familiarização da diferença" emerge, para quem se dispuser a bem interpretar, do espaço ficcional cinematográfico.

De modo mais explícito: a cor do personagem incorpora-se com naturalidade, familiarmente, à trama narrativa, o que o leva a amar e ser amado por uma jovem de pele branca, e também a relacionar-se com outras pessoas claras, sem que ninguém o veja como "estranho". Ao espectador afigura-se natural, perfeitamente inserida no contexto social encenado pelo filme, a cor negra do personagem.

Isto se tem revelado freqüente, de uns tempos para cá, no cinema americano. No Brasil, são várias as situações dramatúrgicas em que se "familiariza" o fenótipo negro, mas dificilmente se ultrapassam as formas subalternas estereotipadas (empregados domésticos, motoristas etc.). No filme de Jorge Furtado, a profissão do personagem – operador de máquina copiadora – vivido por Lázaro Ramos não representa nenhuma posição de classe vantajosa, mas também não constitui clichê, seja de inferioridade, seja de ascensão social. Nenhum traço do mundo hierárquico que, na sociedade brasileira, sempre favoreceu relações desiguais por motivos de cor da pele.

Desigualdades no ensino

O importante mesmo é que o personagem é abordado como aquilo que a filosofia escolástica chamava de "qualquer" (quiconque, em latim), alguém que se aceita, tal e qual se apresenta, sem apelo a atributos ou comparações que apontem para uma identidade – étnica, por exemplo. Em outras palavras, o personagem é um negro que pode ser amado por uma jovem branca, não por motivos de qualidades extraordinárias (beleza física, valores éticos etc.), nem mesmo por qualquer atributo identitário, e sim por ser simplesmente homem, um ser humano no mundo, amável como um "qualquer".

O que tudo isso tem a ver com a imprensa? Bem, é que o filme, adequadamente visto, de algum modo contribui para o recorrente debate jornalístico sobre o tópico das quotas e também fornece indicações sobre como se pode naturalizar ou familiarizar a presença do negro no interior de uma situação qualquer, seja dramática, seja na construção da notícia de fatos transgressivos, onde ele é sempre fenotipicamente identificado. Mais ainda, pode ajudar a entender a importância de mecanismos que favoreçam a inserção de afrodescendentes em instituições propiciadoras de oportunidades de boa realização social, a exemplo da universidade. Isto, aliás, já parece evidente para alguns jornalistas. Um exemplo está na coluna de Ancelmo Góis (O Globo, 1º/10/2003), que elogia um anúncio do Banco do Brasil por "naturalizar" a presença de um empresário negro numa agência bancária.

O registro de Ancelmo Góis é oportuno, pois aparece dias depois que o mesmo jornal O Globo publicara um artigo conjunto de Carlos Henrique Araújo, diretor de Avaliação Básica do Inep/MEC, e Ubiratan Castro de Araújo, presidente da Fundação Cultural Palmares/Ministério da Cultura, segundo o qual "o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) tem revelado um quadro de qualidade educacional nada confortador e um aumento das desigualdades no sistema de ensino, especialmente a racial. A primeira constatação é que os alunos negros são excluídos prematuramente da escola". A segunda constatação é que "os alunos negros que sobrevivem na escola são vítimas de uma sistemática queda de desempenho".

Um passo a mais

O grande interesse desse artigo reside principalmente na suspeita levantada pelos autores no sentido de que – mesmo considerando-se que há uma estreita relação entre a pobreza e as representações sociais sobre a cor da pele – a diferença de desempenho está associada à reprodução de um ambiente de hostilidade, "fundamentado na cristalização de representações negativas do estudante negro". Ou seja, o convívio respeitoso, necessariamente oriundo de uma "familiarização com a diferença" ou de uma representação positiva da alteridade, é tão ou mais educativo do que conteúdos e métodos escolares. Não se trata, portanto, de apenas entronizar no país o sistema de quotas, como se fosse uma solução absoluta ou definitiva para a inserção social dos negros (embora as quotas possam funcionar temporariamente como alavanca simbólica no espaço de reivindicações civis), e sim de compreender que a questão racial continua sendo um eixo de análise para o problema da perpetuação das desigualdades de classe e de educação.

A familiarização com a cor de pele diferente, base para a aceitação sincera do indivíduo negro por parte daquelas posições de classe que experienciam a pele branca como uma inata vantagem patrimonial, é fundamental no que se concebe como verdadeira luta social por representações positivas. A figura normalizada, a imagem adequada e a boa palavra são instrumentos modeladores da consciência social. O ator negro pode perfeitamente interpretar numa peça de teatro, num filme ou numa telenovela um personagem com posição de classe socialmente valorizada – afinal de contas, a arte ou a ficção não tem nenhum compromisso com as limitações do real-histórico. E o jornalismo pode muito ajudar nessa esfera de sentido.

Daí, o interesse das estratégias de familiarização que acontecem aqui e ali, a exemplo de O homem que copiava ou do anúncio do BB, comentado na coluna de Ancelmo Góis. Evidentemente, a representação é sempre apenas um passo a mais na direção das transformações reais. Tanto que, no dia seguinte ao da nota, a mesma coluna de Ancelmo registrava o recebimento de uma mensagem em que alguém concordava com o acerto do anúncio, mas com a ressalva de que seria ainda melhor se na diretoria real do BB houvesse cidadãos negros. O debate deve continuar, e para isso a imprensa deve abrir-se ainda mais, cedendo espaços. É preciso de fato fazer entender que cor da pele, ao contrário do que pensa a mentalidade economicista, é variável independente na perpetuação da desigualdade social.

(*) Jornalista, professor-titular da UFRJ e escritor


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