09/12/2003

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VIOLÊNCIA JUVENIL
Pouco debate e muita especulação

Cláudia Rodrigues (*)

Os debates sobre assuntos polêmicos e de interesse público não são feitos pela mídia porque não cabem no molde engessadíssimo do jornalismo atual. Descobriu-se uma fenda no cérebro dos consumidores e só se trabalha aí. Na tal fenda fecundam as perversões, as invejas e a ignorância – esta, claro, a placa-mãe da fenda.

Cabe aos jornais investirem cada vez mais nos assuntos chulos, nas fofocas e na especulação, não importando se o assunto é econômico, político ou culinário. Por aí caminha a televisão, o rádio e as revistas, essas últimas cada vez mais com cara de Caras.

Não há debate porque especular é o que interessa, é o que vende. Quando os repórteres foram pautados para ouvir as autoridades eclesiásticas e políticas sobre a tragédia de Embu-Guaçu, certamente escutaram dos seus editores a frase-chavão: "especula sobre a maioridade penal, tem uma questão aí que engancha". Óbvio que esse tipo de questionamento só pode trazer como resultado frases espantosamente incríveis, como a do rabino Henry Sobel.

Agora, jornalisticamente imperdoável foi a falta de interesse dos colegas de plantão para resposta pacifica – imprevisível – da mãe de Filipe, uma das principais envolvidas, que teria motivos de sobra para destemperos e mergulhos em sentimentos contraditórios. Evangélica ou católica, judia ou umbandista, a mãe do rapaz assassinado deu uma lição de humanidade e elegância que poderia ter puxado um pouco as pautas para outros lados, o que daria um equilíbrio à opinião pública, que não teve a menor chance de contrabalançar informações. A mãe do rapaz, tão sábia em suas poucas palavras, tão pacífica, foi explorada para mostrar correspondências de amor dos namorados, ficou até mesmo como uma coitada ignorante diante do público. O pai da moça interessou mais e também o que ele disse, com quem trocou idéias e assim, em poucos dias, já estava destinado o tom das matérias: bandidos vs. mocinhos.

Fontes sociais

O jornalismo é uma montagem de ganchos, gracinhas e de um faz-de-conta enjoativo por causa das especulações em cima de temas que renderiam debates e conseqüentemente soluções para problemas, com um mínimo de erros e com a maior quantidade possível de casamentos de idéias.

A especulação torna tudo muito claro muito rápido e em quatro ou cinco dias o Brasil inteiro decidiu fazer justiça com as próprias mãos, ou algo assim.

O debate nem começou na mídia mas se ensaiou nessa tribuna. O OI levantou bem a bola mas agora, com a última cortada do mestre de cerimônias, o jornalista Alberto Dines, acaba de jogar um balde de água gelada no que estava emergindo.

Emergia um bom debate mas o primo-irmão da especulação, o bate-boca, apareceu e sepultou o que precisava ficar vivo quando o jornalista saiu com quatro pedras na mão atacando aqueles que indignaram-se com as declarações absurdas do rabino Sobel. Absurdas, diga-se de passagem, não porque esse ou aquele não concorde, mas porque Sobel, antes de ser judeu, é um religioso e um homem público que sempre se vendeu como democrata, pacifista.

Caberia ao editorial do OI entrar numa questão muito mais urgente, que seria a de questionar porque nossa mídia só ouve esse rabino no país e só essa ou aquela outra autoridade eclesiástica. O Sobel errou feio, tanto que se desculpou, errou como nunca errou antes em defesa de qualquer cristão injustiçado. E o Dines errou por perder o foco da questão, como não perde costumeiramente.

Ao leitor do OI não interessa saber se o Dines gosta ou não do Sobel, se são ou não da mesma congregação e muito menos importa entrar nessa baixaria de ser contra ou a favor de quem é contra ou a favor do que disse o Sobel em sua mal-pensada declaração. Debate é polêmica, especulação é doutrinação e bate-boca é coisa nenhuma quando não é coisa pior.

Enfim, parece que a nossa mídia está mal de fontes eclesiásticas, sobretudo porque sempre ouve o que pensam as mesmas pessoas, mas principalmente porque em um caso desses não foram atrás das fontes sociais; somente das eclesiásticas e políticas. Daria mais debate entrevistar a mãe do rapaz assassinado. Além de se compadecer da Liana, que ela nem conhecia, por ter sofrido mais do que seu filho, ainda roga a Deus que receba em seu reino o Champinha e que só Ele faça a justiça com as próprias mãos.

(*) Jornalista


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