HOJE EM DIA
Cinismo e descaso
Daniel Pereira de Barcelos
Fico indignado ao notar a irresponsabilidade, e muitas vezes a covardia, com que agem os veículos de imprensa no Brasil. Fico até sem graça de dizer que no fim do ano me formo, e passarei a fazer parte da categoria. Enfim, venho contar um episódio acontecido em Belo Horizonte, no qual infelizmente me envolvi. É um assunto delicado, que envolve criminosos potencialmente perigosos. Por isso, tentarei explicar o ocorrido poupando, ao máximo, a identidade das pessoas mais diretamente envolvidas.
É o seguinte: eu e minha mãe, Ana (que, indignada, me pediu que escrevesse, portanto o faço também em seu nome ), conhecemos uma pessoa, "X", cujo companheiro está preso em penitenciária paulista. Por coincidência, ela o estava visitando quando houve as rebeliões simultâneas nos presídios do estado. Foi refém, como muitos outros visitantes.
Na quarta-feira seguinte à rebelião, ela contou a Ana coisas que acontecem no sistema penitenciário – seu parceiro está envolvido com facções fortes do crime organizado. Ao saber que "X" toparia falar sobre a questão dos direitos humanos nos presídios, minha mãe me ligou oferecendo a pauta. Como eu não tenho meios de publicação, liguei para a redação do Hoje em Dia – um dos principais jornais de BH – e sugeri a matéria. É aí que a estória fica suja...
Uma repórter foi à casa de Ana fazer a entrevista. Ficou acertado que a identidade da fonte seria preservada. Foi feita a matéria com o enfoque direcionado para a questão inicialmente proposta: direitos humanos. O fotógrafo do jornal tirou foto contra a luz para velar o rosto da testemunha. No entanto, a foto ficou nítida. Segundo a própria repórter, o sentido do texto foi alterado sem que ela fosse consultada, mudou-se o enfoque da matéria. O texto publicado enfatizou as denúncias de corrupção do sistema carcerário, que inicialmente apareciam discretamente. Para vender mais jornais, a foto nítida foi publicada em primeira página, com direito a letras vermelhas e tudo mais.
Sem nenhuma mentira, mas a maneira como a matéria foi apresentada comprometeu, e muito, a segurança da testemunha.
Ao receber um telefonema de "X", apavorada, Ana ligou para a repórter, que também estava chocada. Minha mãe ligou para o jornal. O secretário de redação que a atendeu, Rogério Peres, mostrou-se um canalha:
Ana: "Vocês estão fritando sua fonte e a repórter. "X" pode estar correndo risco de morte."
Peres: "Eu não estou fritando ninguém... Não sou cozinheiro! Foi um acidente, era para terem escurecido a foto, mas não deu..."
Eles (Peres e Lindenberg, o editor) posteriormente deixaram claro que poderiam até providenciar, com a Secretaria de Segurança, proteção para a repórter. Mas, quanto a "X", que se virasse e procurasse o sistema de proteção a testemunhas. E ainda que o jornal sabia que cometera um erro mas não se retrataria publicamente.
Com medo de expor ainda mais "X", demoramos a tomar alguma atitude. Escolhemos o Observatório da Imprensa como meio de protestar, por acreditarmos na idoneidade do jornalismo aqui praticado. O Hoje em Dia agiu com irresponsabilidade e má fé. As decisões foram tomadas visando apenas um objetivo: vender mais. O cinismo e o descaso por parte do Hoje em Dia é revoltante.
Aceitamos sugestões para colocar este jornal na berlinda, sem prejudicar ainda mais "X" e sua família
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