MERCADO & ESTÁGIO
Nenhum coleguinha é uma ilha
Marcelo Salles (*)
"A mais bela de todas as certezas é quando os fracos e desencorajados levantam suas cabeças e deixam de crer na força de seus opressores." (Bertolt Brecht, teatrólogo e escritor alemão, 1898-1956)
"Eu?! Largar meu emprego porque o João foi demitido?!" (Estagiária de um pequeno jornal de Niterói, RJ).
Por egoísmo ou falta de confiança em sua capacidade, a maioria dos profissionais se esquece da solidariedade com os colegas e tende a escolher o lado do patrão. Esquece também que, numa leva posterior, pode acabar entrando para o barco dos excluídos.
João foi mandado embora sem justa causa, simplesmente porque seu editor dissera não ter gostado de um determinado lide. A estagiária pensa que isso nada tem a ver com ela. Poderia levantar numerosos argumentos no intuito de mostrar que qualquer demissão afeta a vida dos outros funcionários. No entanto, ficarei apenas com um trecho do poema Meditation XVII, escrito em 1624 pelo filósofo e poeta inglês John Donne:
"Nenhum homem é uma ilha isolada (...) Portanto, não pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti."
Essa questão, que se delineia no horizonte das redações, será mais bem-analisada se levarmos em consideração o modelo econômico vigente e o alto índice de desemprego registrado no Brasil. Este, em grande parte, vem em decorrência daquele.
Solidariedade e respeito
O caso particular de João ilustra com muita propriedade a situação. Se, por um lado, o modelo econômico impõe – até com certa naturalidade – sua força opressora, ao incentivar a competitividade e individualidade entre os funcionários, por outro deixa transparecer sua fragilidade, pois tão poucos são os que continuam empregados que, se resolvessem abandonar o emprego juntos, causariam sérios problemas à empresa.
A situação se agrava quando a mentalidade submissa dos empregados chega aos estagiários, que ganham, no exemplo em questão, 150 reais por mês e estão sendo obrigados a trabalhar cerca de oito horas por dia, o que prejudica, sobremaneira, seus estudos. E eles aceitam isso naturalmente; não entendem que são ainda estudantes e que, agindo dessa forma, além de se prejudicarem, estão contribuindo com o desemprego no país. Claro, pois se um estudante aceita trabalhar nessas condições, por que a empresa contrataria um profissional pagando o piso estabelecido em lei?
Mas o estagiário pensa que é esperto. Acha que vale a pena se sujeitar ao esquema por um tempo, na expectativa de ser efetivado. De fato, alguns até conseguem. Mas a maioria não. E assim o egoísmo vira regra pela esperança, sabiamente estimulada pela empresa.
A solidariedade com os outros e o respeito consigo mesmo parecem ter sido esquecidos em algum ponto da história. A pergunta que se faz é simples: ainda é possível resgatá-los?
(*) Estudante de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense