|
AJUSTE ÉTICO
O bem, o mal, o moral e o torpe
Muniz Sodré
Este texto foi publicado na web há quase dois anos, com o título "Por um ajuste ético", por ocasião do espancamento de dois jornalistas no réveillon do Forte de Copacabana, no Rio. O noticiário recente sobre atividades militares clandestinas, plenas de sigilo e de bisbilhotice ilegal, dá margem a que se evoquem as advertências contidas naquele texto, reeditado abaixo. A conexão entre os dois episódios distantes no tempo demanda uma reflexão mais extensa da imprensa sobre a permanência do arbítrio antidemocrático na vida brasileira.
Quintiliano, mestre de retórica e um dos maiores preceptores na Antiguidade, aconselhava aos autores que deixassem "dormir" por algum tempo os seus textos, para depois então revisá-los criticamente. A pausa é, sempre foi, boa professora.
O mesmo princípio se aplica a situações ou eventos penosos, desses que se oferecem como sintomas de algo talvez maior e que é preciso ler nas entrelinhas, como a trama de um texto. Por exemplo, o incidente do réveillon no Forte de Copacabana. Não que esteja por inteiro adormecido, já que se ouve falar de um inquérito em curso. Mas exceto pelos ecos jornalísticos do primeiro momento, a gravidade sintomática do episódio – confirmada por recentes acontecimentos paralelos – passou despercebida.
Não é tanto o fato físico da agressão que permanece na obscuridade, mas algumas das circunstâncias de sua incidência. Para começar, foi sem lei e sem causa. Dois profissionais de imprensa, homem e mulher, devidamente credenciados pelos organizadores da festa presidencial, tentavam registrar a queda de um toldo por ação da ventania. Simples assim, um evento banal que resultaria, se tanto, numa fotografia curiosa. Bastou a palavra de uma funcionária melindrada para que a violência se desencadeasse, sem controle, como num pesadelo.
A escalada do que se seguiu – e aí está a gravidade sintomática – pode esclarecer-nos sobre fenômenos preocupantes na realidade brasileira atual. Primeiro, os soldados que arrastaram para uma sala escondida os jornalistas e neles bateram, por pura descarga física, aparentemente sem saber mesmo porquê; depois, o general que testemunhou a violência, sem interferir; finalmente, a autoridade máxima da República, que diz à moça agredida: "Deixa pra lá, afinal isto é uma festa!"
Televisão em festa
Onde está o sintoma? De saída, a cena inteira evoca, como num acting out perverso, familiar aos psicanalistas, o arbítrio nos porões do regime militar. Sem lei e sem causa: num determinado estádio do terror, a tortura já não diz respeito apenas à obtenção de informações, ou seja, não é apenas um meio violento, mas um fim em si mesmo, o desejo de atingir o ser do outro. No limite, o torturador quer arrancar a alma de sua vítima. Nem sempre a alma individual, mas a de uma idéia, de uma condição temida e odiada, porque é visceralmente outra.
Em seguida, a cena reflete toda a dificuldade atual de se fazer a distinção ética entre o bem e o mal, o moral e o torpe. Fatos posteriores, ligados à quase guerra civil do tráfico e à insensibilidade social de figuras públicas, apontam para a arriscada promiscuidade entre cidadãos e bandidos, para a alarmante fraqueza moral e cívica de nossas elites.
Alarmante, porque nelas se concentra cada vez mais, junto com a renda, a mais-valia decisória responsável pela alocação dos recursos públicos e pela gestão do patrimônio nacional. É bom parar para pensar sobre como as elites soviéticas, assessoradas por "gênios" da economia norte-americana, desmantelaram em pouco tempo, vendendo a preço de banana para a máfia, todo o seu parque produtivo. Aqui entre nós, origina-se na frieza das elites tecnoburocráticas e na voracidade corporativista dos acordos de liderança a indiferença para com a coisa pública, retransmitida para a classe média de alto poder de consumo e para os estratos inferiores da população, pelas telemáquinas festivas.
Somos todos ética e politicamente responsáveis pelo que nos atemoriza quando lemos os jornais. O tráfico de drogas – crime em que a suposta vítima é cúmplice do delinqüente – tem como co-autores os estratos médio e alto de consumidores, assim como os fornecedores de armas no asfalto; teleguiados, os eleitores afundam-se cada vez na indiferença partidária e no jogo cosmético da classe política; a consciência coletiva torna-se dormente pelo continuado simulacro de festa da televisão e seus derivados. Tornada publicitária, a vida pública periga morrer de tanto riso espasmódico. Só a nostalgia nos reconcilia conosco mesmo – talvez por isto se escreva e se venda tanto livro sobre o que já passou.
Episódio miúdo
Ética não se entende como projeto metafísico de boas intenções, mas como partilha comunitária das regras de ocupação e governo de um território. Não é, portanto, uma carta de bom-mocismo em que se faz a opção coletiva pelo bem, e sim o lugar onde se constituem o bem e o mal, onde o indivíduo se mede pela radicalidade da condição humana e, assim, a visão do que o grupo chama de "mal" conforma o "bem". Daí advém a necessária consciência moral. E aí deita raízes o profundo da crise que perpassa a sociedade brasileira neste momento: mais do que um ajuste fiscal, a Nação carece de um ajuste ético, que só pode ser alcançado por meios políticos, econômicos e educacionais mais sérios.
Sem este ajuste, não é de espantar que nos sintamos todos em desamparo diante do apequenamento da coisa pública. Cresce aos nossos olhos apenas aquilo que nos mete medo: o desemprego, os preços, os impostos, a insegurança urbana, a indiferença do Estado, o perigo dos acting outs autoritários; cresce o poder da festa, embora embalada por uma alegria fake, televisiva; cresce, sem dúvida, a anestesia da sensibilidade coletiva em face dos sintomas da violência visível e invisível do país. Talvez por este último motivo não tenhamos podido perceber de imediato toda a gravidade do incidente na festa presidencial da passagem de ano: episódio miúdo, mas especular, reflexivo, como um holograma ou como o ovo da serpente.

|
|