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RESCALDO DE UM SEQÜESTRO
Falta análise, falta reflexão
Ana Lúcia Amaral (*)
Os episódios envolvendo a família do apresentador/empresário Silvio Santos/Senor Abravanel expôs de forma alarmante o grau de insanidade de uma sociedade.O aparato estatal que deveria dar suporte à vida em sociedade merece ter decretada a sua falência.
Se a ação criminosa parecia estar contida em áreas da cidade, nos setores ditos subalternos a choldra, a patuléia , a facilidade com que se deram os eventos criminosos revelam que sequer os que detêm poder econômico, social ou político podem se considerar a salvo, ainda que em casa.
Diante do desmonte dos serviços públicos em geral, e em especial os da segurança pública, a parte da sociedade com capacidade econômica achou que se protegia (dispensando a atuação policial) ao adquirir e instalar em suas casas ou veículos "equipamentos de segurança" quer materiais, quer humanos. Em alguns casos poderiam ter outra saída: o aeroporto internacional mais próximo.
Para boa parte da sociedade que se acreditava a salvo da delinqüência que se viu surpreendida com os episódios de extorsão mediante seqüestro e seqüestro/cárcere privado , revelou-se que sequer a notoriedade é capaz de distinguir e proteger celebridades em momentos como os que se assistiu ao vivo e em cores.
Ocupemo-nos, no momento, tão-somente da consideração sobre a falência do aparato estatal destinado à segurança pública. Foi localizado o esconderijo dos seqüestradores e presos alguns deles. Dentre as primeiras declarações, vindas da própria polícia, destaque-se aquela que atribuiu inexperiência ao grupo de seqüestradores, circunstância essa reforçada pelo fala emocionada da jovem Abravanel, que descreveu a convivência amistosa entre seqüestradores/seqüestrada. Em sua fala pareceu ver nos criminosos as "grandes vítimas" do sistema, da corrupção na política etc. e tal. Apesar de compreensivelmente emocionada, a jovem fez considerações de natureza política um tanto quanto óbvias, quando não incoerentes, não parecendo ser fruto apenas da emoção. Há o componente religioso, mas não se distancia muito do contexto de alienação no qual boa parte da população com recursos ou não se desenvolve.
Retomando a classificação do grupo de seqüestradores como "inexperientes", parece que os cuidados que se faziam necesários em tais circunstâncias foram em muito relaxados. Tanto é que os policiais que não integravam a unidade encarregada do caso se lançaram na captura do outro"inexperiente" seqüestrador "para ficarem famosos" segundo o policial sobrevivente , quando foram surpeendidos por alguém que estava superiormente armado e preparado para o confronto para resistir à prisão e empreender a fuga. E lá se foram duas vidas... De anônimos...
O "inexperiente" seqüestrador, contando com a falta de perspicácia da polícia, voltou ao local onde morava a vítima. Não havia qualquer vigilância externa ou interna por parte da polícia. A "segurança privada" que seria o caso de passar a existir depois do evento, também não funcionou. Para sorte do sr. Silvio Santos, a imprensa ainda não relaxara sua vigilância. A repórter que continuava de plantão, com algum esforço conseguiu convencer o vigia sobre a entrada de alguém. O "espetáculo" que se seguiu foi visto em rede nacional. A gravação feita pela própria polícia, no interior da residência do apresentador, revelou o bom uso que fez o seqüestrado de seu talento em comunicação. E por ser quem é, deu-se ao luxo de chamar pelo governador do estado que, obviamente, lá compareceu prontamente.
Do que foi noticiado, a convocação do governador não foi exigência do seqüestrador, mas do seqüestrado talvez para dar maior tranqüilidade ao seqüestrador que, não nos esqueçamos, foi considerada a "grande vítima", pessoa dotada de inteligência ímpar que muito impressionou o apresentador/seqüestrado, segundo suas declarações à imprensa. Mereceu, por isso, toda a consideração e respeito. Só falta o seqüestrador aparecer na revista Caras para completar-se a glamourização.
A glamourização do que não tem qualquer "glamour" fez com que a polícia mal equipada, despreparada e, na maioria das vezes, considerada violenta chegou às raias da candura. A seqüência que se assistiu pela captura de "Jennifer", a integrante do grupo seqüestrador, foragida até então, nem em cinema se vê. Bem possivelmente encantada com tudo que viu acontecer pela TV, pela possibilidade de ter os seus minutos de glória, apresentou-se perante o distrito policial onde se encontrava na cidade do interior da Bahia. Não foi felizmente tratada da forma padrão para as circunstâncias. A polícia não agiu com violência de praxe, não atingiu a integridade física e moral da detida, e parece que entendeu que fazia parte do devido respeito à pessoa do detido dar espaço a entrevistas para rádios e TV, antes mesmo de seu interrogatório perante a própria polícia.
O discurso de "Jennifer" não destoou muito do tom antes usado por sua a vítima, a "Princesa" seqüestrada. A procupação social, sob inspiração religiosa, as fez muito mais próximas do que poderia ser esperado naquelas circunstâncias. "Jennifer", talvez sem perceber, e com a ajuda da imprensa que contou com incomum boa vontade da polícia , teve tempo de organizar alguns argumentos para tentar justificar a sua ação criminosa. A exposição da imagem da seqüestradora teve requintes de tolice: o repórter global que
acompanhou a seqüestradora, na viagem do interior da Bahia para Salvador, indagou o que estava achando da sua primeira viagem de avião!!! Do discurso da jovem Abravanel, passando pela polícia polida e cortês, para se chegar às cestas básicas de "Jennifer" não foi necessário muito esforço.
Situação miserável
A tudo junte-se as "falas"da autoridades: o secretário da Segurança, dentre tantas pérolas que o episódio ensejou, declarou que vão aprendendo com cada ocorrência. Se tivermos que esperar da empiria para termos uma polícia na qual possamos confiar, pobre de nós! Outra pérola ficou por conta do ministro da Justiça, que, além do descuidado comentário sobre a ausência de vítimas, candidamente cumprimentou a polícia e a coragem do governador do estado. Coragem no quê? Não teve de encarar o seqüestrador; não teve de negociar, ficou a salvo sob a proteção dos policiais com escudos, em ambiente distinto onde estava o seqüestrador.
A imprensa parece que perdeu, mais uma vez, a grande oportunidade de prestar o serviço que lhe é próprio: além de contar o fato, pensar sobre ele, refletir, analisar, fazer críticas e, quem sabe, provocar a discussão que possa trazer esclarecimentos sobre os caminhos para a solução dos problemas.
Atrás de possíveis temas a serem considerados como o comportamento da imprensa diante da orientação da polícia em casos com esses , parece que o mais importante era a questão concorrencial: atacar a concorrente porque, seguindo sua "própria ética", insistia em querer informação que não havia.
A discussão sobre se o governador do estado deveria ou não atender as exigências do seqüestrador não atentou para o fato de sua presença ter sido exigência do seqüestrado, que tinha "cacife"para fazê-lo. Como o próprio secretário da Segurança afirmou, em uma de suas notáveis declarações, o sr. Silvio Santos não era uma pessoa comum. O precedente é grave.
Não ocorreu a ninguém naquele momento ponderar ao seqüestrado que o seqüestrador já possuía garantia plena de incolumidade pela simples presença do próprio apresentador, e das redes de TV que a tudo assistiam do lado de fora? O seqüestrador contou com a popularidade do seqüestrado para se proteger. E a polícia a tudo assistiu, deixando ao seqüestrado a condução das negociações, que foram feitas em base muito superiores que
o seqüestrador poderia pretender. Se outro fosse o seqüestrado...
Que a imprensa não perca a oportunidade de provocar aqueles que por não precisarem diretamente dos serviços públicos básicos supunham-se a salvo da ineficiência dos mesmos serviços. Isso servirá para que compreendam que podem influir, decisivamente, no esforço pela mudança, no estabelecimento de prioridades das políticas públicas e conseqüente distribuição de recursos orçamentários.
Cabe lembrar o desfecho do romance O Germinal, de Émile Zola, quando os donos da minas de carvão só se deram conta da situação miserável dos mineiros após acidente que vitimou muitos dos trabalhadores. Os sobreviventes revoltaram-se e um velho mineiro, enlouquecido pela beleza da filha do dono da mina, pôs fim à vida da bela jovem. Não é
necessário imitar a arte.
(*) Procuradora regional da República, associada ao IEDC Instituto de Estudos Direito e Cidadania

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