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ASPAS
RESCALDO DE UM SEQÜESTRO
Mauro Chaves
"O Brasil é um espetáculo", copyright O Estado de S. Paulo, 8/09/01
"O País se transformou numa formidável encenacão, que vai ocupando todos os espaços. Parece que a linha divisória entre ação política e texto de novela, realidade e espetáculo, paisagem real e telão pintado se vai diluindo rapidamente, a ponto de as pessoas e os grupos sociais não conseguirem mais distinguir o concreto do imaginário. Tem-se a impressão de que alguma força misteriosa impele à substituição do que ‘é’ pelo ‘como se fosse’. O ato verdadeiro cede lugar à simples representação (não no sentido de poder delegado, mas no de papel interpretado). A classe política cabocla dedica-se a um permanente jogo de cena, como se lhe interessasse somente mostrar, em lugar de ser. Mudou-se o velho ditado romano para deixar claro que a mulher de César não precisa mais ser honesta: basta parecer.
No anseio de esconder ‘o que é’ e exibir o ‘como se fosse’, nossos deputados federais vão transformando seu ‘pacote ético’ original num pífio embrulho moral. Vão descobrindo bons jeitos e esfarrapados pretextos de burlar a tardia tentativa (de dez anos) de moralização legislativa, deixando longe do acesso público uma das informações de maior interesse público, para a avaliação ética dos políticos (especialmente nestes tempos em que autoridades lá fora descobrem as centenas de milhões de dólares de figuras públicas brasileiras, depositados em paraísos fiscais), qual seja, os rendimentos e bens dos representantes do povo, declarados à Receita Federal.
No campo sucessório e na projeção futura das carreiras políticas, o jogo de cena se permite a quaisquer histrionices. Nenhum pretendende ou pré-candidato se dispõe a apresentar o rol do que já fez na administração pública (e há quem não tenha feito nada) ou as idéias que pretende pôr em prática (se é que as tem). Procura-se, em vez disso, ‘ganhar espaço na mídia’ por meio de pretensas jogadas de marketing ou da criação de pseudofatos políticos. Sem nenhum fundamento em sua biografia, afinidades político-partidárias ou eventuais (e raras) idéias, políticos ‘presidenciáveis’ encenam estranhos pactos. Tenta-se a pose da convicta unidade de três profetas - embora só se chegue à descosida cumplicidade dos Três Patetas.
Nessa mistura galopante de realidade com ficção, o País passou a viver em estado de frenesi permanente, diante das câmeras de televisão. Assim como as novelas e os nossos atores profissionais - geralmente com muita competência - vão transpondo para a telinha a realidade doce ou amarga do dia-a-dia brasileiro, às vezes até nela introduzindo um saudável espírito crítico, há um batalhão imenso de figurantes, emergindo dessa mesma realidade, que parece ter trocado o sonho de conquistar um lugar ao sol pelo de ocupar um foco junto ao refletor. Nossos jogadores de futebol jogam cada vez pior, mas, diante das câmeras, falam cada vez melhor. E nisso imitam seus treinadores, que substituem a tática em campo pela tática de sair-se bem nas entrevistas e nas enérgicas gesticulações durante o jogo (só quando as câmeras mostram).
Os bandidos, sejam assaltantes, assassinos ou seqüestradores - os ladrões de galinha são excluídos do vídeo, talvez por questões de fotogenia -, comportam-se ante as câmeras como se fossem personagens de novela ou pregadores evangélicos. Suas falas denotam um enredo prévio, como se as ações criminosas obedecessem a um script dramatúrgico destinado a produzir determinado efeito na TV - daí a seqüestradora comunicar ao País que só pretendia arranjar dinheiro para distribuir cestas básicas aos pobres. Até as vítimas, chorando desesperadas diante das câmeras, parecem fingir que é dor (parafraseando o poeta) a dor que de fato sentem.
Nas votações sindicais - para a deliberação sobre uma greve, por exemplo -, os participantes das assembléias costumam levantar o braço exatamente na hora em que são focalizados pelas câmeras. Nas manifestações populares de protesto - às vezes para expressar a legítima indignação das pessoas em relação a seus direitos desrespeitados ou a violências de quaisquer espécies -, vêem-se os ‘indignados’ cidadãos se desmanchando em sorrisos ou produzindo animados batuques e rebolados na frente das câmeras, gestos que dificilmente se poderiam associar ao sofrimento gerado pela causa do protesto.
Não resta a menor dúvida de que é o gosto pelo espetáculo televisual que tem levado ao sucesso - seja eticamente conseqüente ou apenas cenicamente eficiente - das comissões parlamentares de inquérito (CPIs) . Nelas os nossos parlamentares - tanto quanto, em certas ocasiões, nas tribunas dos plenários, graças às transmissões das TVs das Casas Legislativas ou das repercussões nos telejornais das TVs abertas - se sentem absolutos protagonistas de papéis heróicos, de grande brilhantismo retórico, como se encarnassem o personagem Marco Antônio discursando para o povo junto ao cadáver de Júlio César, na tragédia de Shakespeare.
É claro que, dentro de todo esse contexto de mistura de realidade com ficção, de política com animação, de vida real com cena de televisão, de busca do lugar ao sol com corrida para o refletor, o ‘caso especial’, ao vivo e em cores, de um duplo seqüestro envolvendo o maior apresentador de televisão do País, além de ingredientes altamente emocionantes, como assassinatos à queima-roupa, fuga rocambolesca, grandes aparatos policiais, eufórico misticismo religioso e, de quebra, a participação do governador do Estado mais importante do Brasil, só poderia, mesmo, ter-se tornado uma grande síntese do grande e permanente espetáculo em que se transformou nosso país.
No entanto, desse espetáculo há muitos milhões de excluídos, tanto dos palcos quanto das platéias. Estes já se aglomeram do lado de fora das portas fechadas, imprensados e espremidos. Mas podem, a qualquer momento, arrombá-las, entrar aos magotes pelas coxias, passar pelos urdimentos, rebentar os praticáveis, mudar os cenários, assumindo o palco, a platéia, os camarins, os saguões, os corredores e as bilheterias, passando a encenar um novo espetáculo, sem tanta canastronice. (E sem devolver os ingressos ao distinto público.) (Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor e produtor cultural)"
Nelson de Sá
"Super-Homem Eleitoral", copyright Folha de S. Paulo, 6/09/01
"O espetáculo já se esgotou, mas a televisão, sem alternativa, não consegue parar mais.
Jennifer foi perseguida pelas ruas de São Paulo como uma estrela pop. Na Record e em outras, helicópteros acompanharam seus menores movimentos. Da locução:
- É este primeiro carro. Você vai ver que ela está no meio de dois policiais. Lá. No banco de trás. Ela aí, ó.
Para deleite da TV, Jennifer seguiu no personagem.
Em certo momento, ela garantia que o dinheiro do sequestro era para distribuir à população carente. Foi manchete do Jornal Nacional.
Em outro, um telejornal contava da ‘ironia de Jennifer’, que teria sido vendedora do Baú da Felicidade.
Em outro, a sequestradora respondia agressivamente aos repórteres, que perguntavam, segundo ela, sempre as mesmas coisas -queriam saber de amor, paixão, sexo.
Já se escreveu que quem mergulha -e sobrevive- em tal ambiente de super-exposição encarna o ‘super-homem’ nietzschiano.
Boris Casoy parecia ecoar tal alegoria, ao falar de outro protagonista desse drama tornado farsa:
- A história do resgate que nos foi vendida era de que o sequestrador exigia, com revólver na cabeça de Silvio Santos, a presença do governador. Agora, a história é outra. O governador Geraldo Alckmin se dispôs a ir. Sua presença não era exigida pelo sequestrador. Isso piora as coisas. Além de criar um precedente, parece ter sido um golpe de promoção de Geraldo Alckmin, que desnecessariamente quis pegar carona numa gigantesca cobertura, de amplitude nacional e até internacional, de televisão. Deu uma de super-homem eleitoral.
Volta e meia, aí está ela, a campanha eleitoral extemporânea -em toda parte.
Nos intervalos, os comerciais da ala de Itamar Franco no PMDB anunciam que ‘o Brasil precisa de alguém que acredite nesta gente’.
O PFL, de seu lado, anuncia que vai ocupar os programas políticos estaduais com a imagem de Roseana Sarney. E Lula protagoniza mais uma coletiva para os telejornais.
Nem Paulo Maluf parece se levar mais a sério. Dele, no Jornal Nacional, sobre a cobertura da imprensa suíça ao escândalo das contas:
- Só pode ser coisa de um petista suíço."
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"Sequestros e campanhas", copyright Folha de S. Paulo, 4/09/01
"Começou com Lula dizendo no Jornal da Record, sexta-feira, em meio a uma visita ao cantor e compositor Herbert Vianna, que a atitude de governador Geraldo Alckmin poderia abrir um perigoso precedente.
Era a ação, era o conflito que faltava para os programas de auditório animarem seu domingo.
Na própria sexta-feira, lá estava Silvio Santos ligando para a rádio Jovem Pan, para dizer que a decisão do governador paulista, de ir até a sua casa para garantir que o sequestrador não sofreria represálias, havia salvo a sua vida -a vida dele, Silvio Santos.
Na Globo, o próprio governador tucano dizia, de seu lado, que não estava arrependido e faria tudo de novo.
O conflito deu um inesperado colorido eleitoral ao drama midiático, que era tudo o que os programas de domingo estavam esperando -a bem da verdade, era o que esperava o programa de Gugu Liberato, no SBT de Silvio Santos.
Como se sabe, o apresentador Liberato, além de liderar a audiência aos domingos, é garoto propaganda dos comerciais políticos do PSDB.
E não fez outra coisa anteontem. Além de elogiar o mais que podia a ação de Geraldo Alckmin e reunir ‘populares’ para repetir os elogios no ar, chamou o ministro da Saúde, José Serra, para opinar.
José Serra, o presidenciável, opinou.
Não foi o único feito de mídia de José Serra, o presidenciável, nos últimos dias.
Naquela mesma sexta-feira, um dia depois do grande evento de televisão que foi o sequestro, o Jornal Nacional dedicava ao ministro da Saúde a sua primeira manchete, não mais a Silvio Santos:
- Ação e reação. O governo anuncia a quebra da patente de um remédio -e o laboratório aceita reduzir o preço do remédio em 40%.
Em uma semana é o ministro Pedro Malan. Na outra, o ministro Serra.
E ontem era o próprio presidente FHC quem polemizava com Lula, rebatendo declarações relativas ao racionamento e garantindo, no registro do Jornal da Record:
- Fernando Henrique diz que combate a corrupção e o clientelismo e que quer ser lembrado por sua obra na saúde e na educação.
Um ano e meio antes da hora, é campanha para não suportar mais."

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