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MULHERES
Iara Bernardi
"Um tapa na cara das mulheres", copyright Folha de S. Paulo, 12/03/01
"‘O homem tem o compromisso de atender à esposa pelo menos uma vez por semana. Se, por acaso, ela não quiser, é porque está te enganando. Se é assim, não saio para procurar outra, mas a mulher leva, pelo menos, uma boa surra.’ Essas palavras, ditas por um dos homens entrevistados pelo MNDH (Movimento Nacional dos Direitos Humanos), na pesquisa que deu origem ao livro ‘Primavera Já Partiu -Retrato dos Homicídios Femininos no Brasil’, indicam que vivemos uma realidade ainda muito primitiva em relação ao respeito às mulheres. E essa situação independe de classe social, região, religião ou raça.
Por isso a luta das mulheres brasileiras se dá num nível anterior àquela que ocorre nos países mais desenvolvidos. Ainda lutamos pela nossa integridade física, lutamos para continuar vivas.
A mulher, no Brasil, continua a ser vista como uma extensão ou uma propriedade masculina, o que confere ao homem o pretenso direito de dispor de sua liberdade, de seu corpo e de sua vida. De acordo com dados da referida publicação do MNDH, coletados em 15 Estados, em 1996 e 1997, em cerca de 70% dos homicídios de mulheres, os autores foram homens com alguma relação de parentesco ou de proximidade com as vítimas, como marido, ex-marido, companheiro, namorado, vizinho, pai, irmão etc.
A agressão contra o sexo feminino, portanto, na grande maioria das vezes, parte de quem é próximo. E isso sem contar os crimes de natureza sexual.
Por todas essas razões, tomamos um susto quando, recentemente, ouvimos no rádio músicas que vêm fazendo sucesso e foram hits no Carnaval. Falam que ‘tapinha não dói’ ou que a mulher gosta de levar ‘tapa na cara’.
Infelizmente a mulher brasileira tem muito espaço na mídia como corpo, como objeto, como bunda, cada vez mais siliconada e aspirada. No Carnaval, não poderíamos esperar algo diferente. Mas dessa vez a coisa foi longe demais. A bunda já não basta, é preciso agredir a mulher. E isso de forma natural, com sorrisos, dança, cerveja e descontração. As coreografias encenam o homem estapeando a mulher.
Como é tristemente evidente, letras de músicas como essas refletem o cotidiano de violência contra a mulher, no qual a agressão é encarada como algo intrínseco às relações entre os sexos. Tanto que tais canções pretensamente falam do tapa sem que isso signifique perversão, desrespeito ou agressão. O que reforça a gravidade da questão é que tais músicas são sucesso em rádios e programas de auditório, ou seja, a mensagem não surpreende, ao contrário, diverte.
Fico pensando, entretanto, no enorme contingente de mulheres que convivem ou conviveram em ambientes de violência e ameaça. Em meio a um ritmo alegre e dançante, tais letras devem soar como um grandioso e irônico escárnio. Para elas, essas melodias são um tapa na cara. Um tapa desrespeitoso, injusto e lamentável.
Talvez mais grave ainda seja o fato de que, ao serem veiculadas em larga escala pelos meios de comunicação, as letras dessas canções configurem estímulo para a legitimação e a manutenção dessa situação degradante, especialmente para crianças, adolescentes e jovens, que ainda não têm formação suficiente para elaborá-las criticamente.
O sucesso de refrãos do quilate do ‘tapinha não dói’ ou do ‘tapa na cara’ reforçam, adicionalmente, o questionamento sobre o poder da mídia e o seu papel numa sociedade com tantos problemas. Estamos saturados de músicas de baixo nível, filmes violentos, programas de TV que exploram a perversidade, novelas com conteúdo erotizante em horários inadequados, programas infantis que estimulam a erotização precoce, propagandas, como as de cerveja, que exploram o corpo feminino e outros inúmeros exemplos de desrespeito, de racismo ou de violência contidos na mídia. Parece que ficamos, a cada dia, com mais dificuldades em discernir as coisas. Quase tudo é visto como normal, a maior agressão parece normal.
Quero crer que o lixo cultural despejado em nossas mentes, com consequências sociais inimagináveis, não seja insuperável. Quero crer que haja a chance, por meio de conscientização e de pressão, de modificar esse estado de coisas. É a nossa esperança e a nossa luta.
Em relação a essas músicas que falam de tapas, não podemos ficar caladas. É um atentado. Lamentamos que a violência contra a mulher, uma temática tão cara para todos aqueles/aquelas que lutam pela igualdade de gêneros em nosso país, tenha tido um estandarte negativo dessa magnitude.
Temos de protestar. Temos de ficar atentas quanto ao retrato da mulher feito pela mídia. Uma barreira pode ter sido quebrada. Depois do tapa, o que mais virá? Estupro, esquartejamento, chicoteamento, queima na fogueira? (Iara Bernardi, 48, professora, é deputada federal (PT-SP) e vice-líder do partido na Câmara dos Deputados)"
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