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DISCURSOS SEDICIOSOS
Algumas observações
Sylvia Moretzsohn (*)
Foi com prazer que li, neste Observatório, uma resenha da seção "mídia" do último número de Discursos Sediciosos. Prazer especial por perceber que nossa publicação despertou o interesse de uma estudante de Jornalismo, pois esta é uma parcela do público que visamos com o incremento dessa seção. Mas, justamente em nome desse interesse, cabe esclarecer alguns pontos abordados na resenha.
Em primeiro lugar, parece-me que o essencial do artigo de Nilo Batista, "Mídia e sistema penal no capitalismo tardio", é a identificação da solidariedade entre mídia e sistema penal no contexto do neoliberalismo, de vez que a mídia é controlada hoje por grandes corporações, co-autoras, portanto, do projeto neoliberal de Estado mínimo e direito penal máximo. Com um detalhe fundamental a se destacar, pois as grandes corporações de mídia estão numa posição privilegiada para divulgar e legitimar esse projeto através de sua programação jornalística ou de entretenimento, especialmente porque atuam aparentemente em nome do "interesse público", o que esconde o sentido ideológico dessa programação.
Da mesma forma, em meu artigo sobre o caso Tim Lopes, é importante ressaltar que o "mito da mídia cidadã" referido no título tem a ver justamente com a mistificação em torno do velho conceito de "quarto poder", acrescido agora da "responsabilidade social" que as empresas passam a assumir numa conjuntura em que os conflitos de classe se diluem. Tomando a si a tarefa de "promover a cidadania", a mídia então passa a transitar por todos os campos da vida social com absoluta autoridade, desqualificando particularmente a instância jurídica, e utilizando quaisquer meios para "revelar" ao público o que ele (supostamente) precisa saber. A propósito, cabe retificar uma referência, para evitar mal-entendidos: considero que a mídia tem função eminentemente política, algo bem distinto do que seria o evidente equívoco de se falar em uma função unicamente política.
Por fim, o artigo de Maurício Caleiro parte do sucesso da novela O clone para apontar a enorme mistificação promovida pela mídia em seu discurso politicamente correto sobre a questão da droga, e associa a hegemonia desse discurso à omissão dos "intelectuais à sombra do poder", que, por isso mesmo, abdicam do dever da crítica.
(*) Professora da Universidade Federal Fluminense e colaboradora da revista jurídica Discursos Sediciosos
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