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REFORMA DA PREVIDÊNCIA
Tema crucial vira "tititi"
Jefferson Guedes Oliveira (*)
Estou impressionado com a péssima cobertura que a Rede Globo vem fazendo sobre a reforma da Previdência. No dia 8 de abril, o Jornal da Globo informou que alguns parlamentares do PT se recusam a endossar a proposta que o governo vai encaminhar ao Congresso. "E dizem até que o argumento é mentiroso", afirmou Ana Paula Padrão, na abertura da matéria.
Na seqüência, o Jornal da Globo mostrou uma passeata de funcionários públicos contra a reforma e abriu o microfone para a senadora Heloisa Helena. "Qualquer pessoa que esteja apresentando o debate da reforma da Previdência reproduzindo a velha cantilena enfadonha e mentirosa de rombo da Previdência e responsabilização do servidor público está mentindo perante a nação brasileira", disse ela ao Jornal da Globo.
Em vez de explicar os motivos que levavam a senadora a fazer tal afirmação, o Jornal da Globo limitou-se a ouvir, superficialmente, o outro lado – no caso, o ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, que, evidentemente, ficou com a última palavra. Disse o ministro: "Quem faltou com a verdade são exatamente aqueles que dizem que os números que nós apresentamos não estão contendo as informações corretas. Eles são transparentes e fazem parte de toda a documentação que o parlamentar tem no Congresso, e é com base neles que estamos elaborando as propostas".
Ou seja, o Jornal da Globo transformou este assunto em mero tititi.
Problemas estruturais
** Por que a reportagem não lembra ao ministro que 86,4% do total do "déficit" do Regime Geral da Previdência Social em 2002 estão relacionados à decisão da Constituição de 1998 – corretíssima, aliás – de se pagar um salário mínimo a trabalhadores rurais que nunca haviam contribuído para o sistema previdenciário? A despesa, que totalizou R$ 14,7 bilhões no ano passado, deveria ser coberta por recursos orçamentários correntes, e não com recursos previdenciários.
** Por que a reportagem do Jornal da Globo não lembra ao ministro que sucessivos governos vêm desviando recursos da Previdência Social para outras finalidades?
** Por que a reportagem não lembra ao ministro a dívida gigantesca das empresas com a Previdência?
E, finalmente, a maior injustiça contra o funcionário público está em ocultar a natureza do regime que lhe garante a aposentadoria integral . Um funcionário público que recebe, por exemplo, R$ 2 mil, recolhe 11% do seu salário integral, ou seja, R$ 220. Já o trabalhador da iniciativa privada, ainda que receba os mesmos R$ 2 mil, desconta até 11% sobre o valor do seu salário, mas até o teto de R$ 1.516,56. Sua contribuição máxima é de R$ 171,77 e, por isso, sua aposentadoria estará limitada ao teto de R$ 1.516,56.
Ou seja, o funcionário público tem aposentadoria integral porque pagou por ela! Não caiu do céu!
Quando é que a Rede Globo vai fazer uma cobertura decente sobre o assunto? Quando vamos discutir os problemas, e não mascará-los com um tititi fútil que, ao que parece, tem como objetivo ocultar os verdadeiros problemas estruturais da economia brasileira?
(*) Jornalista, 41 anos, Rio de Janeiro
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