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POLÍTICA DE COTAS
Militantes contra a apatia
Marcos Marques de Oliveira (*)
Em seu artigo "Educação e a política de cotas", o professor Nilson Lage acerta em cheio nos três primeiros problemas que identifica nas políticas de cotas instituídas pela Uerj, principalmente no que diz respeito à tendencial preferência dos filhos das elites econômicas em privilegiar cada vez mais o acesso às instituições privadas de ensino superior – um efeito direto das políticas de desmonte do ensino público superior promovidas nos últimos anos pelo governo federal.
No entanto, os dois últimos itens, no meu modo de ver, merecem algumas considerações.
No que se refere ao item 4, acredito que seja cedo para afirmar que haverá "rebaixamento do nível de qualificação do corpo docente", pelo fato de que não existe uma correspondência direta entre a nota do vestibular e o desempenho no curso de graduação. Ainda que houvesse, bastaria a exigência de uma nota mínima para eliminar a possibilidade de ingresso de pessoas ainda não aptas para os estudos superiores.
Em relação ao item 5, o "nivelamento por baixo" do ensino médio da rede pública, das quais as medidas de aprovação automática seriam um exemplo, é, na realidade, produto de políticas, ou melhor, da falta de uma política de expansão correspondente ao aumento do acesso (ainda não satisfatório) dos estratos sociais mais baixos. Além disso, o "show de horror" no ensino público se deve a causas infra-estruturais, e não necessariamente ao suposto mote ideológico de professores que afirmariam "preparar o aluno para a vida, e não para o vestibular".
Por fim, gostaria de ressaltar que o justo enfrentamento destas questões depende efetivamente dos grupos militantes, que mesmo quando "erram" cumprem seu papel de mobilizar a geralmente apática sociedade civil para problemas sociais latentes – com exceção, é claro, dos estratos sociais mais favorecidos. Estes, apesar de viverem sob o jugo do individualismo competitivo, base ideológica do cotidiano mercado de vidas, quando têm seus interesses contrariados rapidamente se mobilizam para utilizar seus aparelhos ideológicos, como a imprensa, e assim perpetuar seus privilégios.
(*) Jornalista, cientista político e pesquisador da UFF; autor de O desenvolvimento da ação sindical do ensino privado brasileiro (Preal/Fundação Getúlio Vargas, 2001) e Os empresários da educação e o sindicalismo patronal (Edusf, 2002)
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