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ASPAS
JORNALISMO E CINEMA
Jorge Henrique Cordeiro
"Exercício jornalístico no cinema", copyright Jornal do Brasil, 16/03/01
"Muitos definem jornalista como sendo um generalista. Taylor Hackford, ex-repórter investigativo de uma TV pública em Los Angeles, levou esse princípio para o cinema como diretor e produtor como poucos. De dramas românticos (A força do destino) a thrillers religiosos (Advogado do diabo), documentários musicais (Chuck Berry - o mito do rock ) e esportivos (Quando éramos reis, sobre uma luta histórica de Muhammmad Ali na África) a filmes sobre música (A sombra de um ídolo e La bamba), Taylor sempre pulou de tema em tema, cavucando em busca de boas histórias. Agora chegou a vez de um thriller de ação, Prova de vida , com Russel Crowe e Meg Ryan), que trata de um assunto delicado: - a indústria do seqüestro mundo afora, que gerou outra indústria, a das seguradoras que oferecem seus serviços a grandes empresas que atuam em regiões de risco. Com estréia marcada no Brasil para o próximo dia 6 de abril, Prova de vida talvez tenha sido o filme em que o diretor americano mais tenha usado sua habilidade jornalística.
‘Usei essa minha formação em todos os níveis nesse filme, porque ninguém queria falar sobre o assunto. As vítimas queriam privacidade, as empresas preferiam o silêncio, as seguradoras definitivamente não queriam falar com ninguém, porque não queriam que o mundo soubesse. Tive que derrubar portas em cada caso para ter a história. Conversar com um contato que te leva a outro contato’, conta o diretor, que esteve esta semana em São Paulo para divulgar a produção orçada em US$ 80 milhões e rodada na Inglaterra, Polônia e Equador.
Em Prova de vida, Meg Ryan faz o papel de Alice, mulher de Peter Bowman, um engenheiro americano (David Morse - Dançando no escuro, À espera de um milagre) que trabalha na construção de uma barragem num fictício país andino (Tecala, uma referência direta a Colômbia, considerada a capital mundial dos seqüestros). Peter é seqüestrado por guerrilheiros do Exército de Libertação de Tecala (outra referência, desta vez às Forças Armadas Revolucionárias Colombiana, a Farc), que exigem um resgate de US$ 5 milhões. A seguradora da empresa para qual Peter trabalha envia Terry Thorne (Russel Crowe, indicado este ano para o Oscar de melhor ator pelo filme Gladiador) para negociar sua libertação. O problema é que a empresa de Peter está falindo e não pagou o seguro, e Terry é chamado de volta. Ele, no entanto, acaba cedendo aos apelos de Alice e decide resgatar Peter, que está escondido num acampamento guerrilheiro nas montanhas, por conta própria.
A decisão de fazer Prova de vida aconteceu depois de Taylor Hackford ler, há três anos, um artigo da Vanity Fair sobre o assunto. ‘Achei muito interessante, era algo que eu não sabia nada a respeito. Devido a minha natureza investigativa, decidi me informar mais sobre os seqüestros e sua indústria. Hoje, seqüestrar pessoas gera US$ 1 bilhões em todo o mundo’. Mas o fator que talvez tenha sido fundamental na escolha do tema foi a possibilidade de Hackford fazer algo que nunca tinha feito antes. ‘Nenhum dos meus filmes anteriores são iguais uns aos outros, em estilo ou assunto. Não gosto de andar na mesma estrada sempre’, diz o diretor, que adoraria fazer um faroeste e que já está trabalhando em um novo roteiro, desta vez, um filme de época, com história passada na Europa do fim do século 19. ‘É uma história de amor, estranha e perversa, quase grotesca. Já tenho alguns bons atores para o filme e vou para Hollywood na próxima semana ver se consigo o dinheiro, mas boa parte da verba vem da Europa. O problema é que se acontecer a greve geral em Hollywood, que está para estourar, o projeto terá que ser cancelado’, lamenta Hackford."
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"Publicidade negativa", copyright Jornal do Brasil, 13/03/01
"Durante as filmagens de Prova de vida no Equador, Taylor Hackford enfrentou diversos problemas, entre avalanches, erupções vulcânicas e até um golpe de Estado. Mas a catástrofe que realmente afetou o seu 11° trabalho foi o interesse geral da mídia sobre o relacionamento amoroso entre os dois principais astros do filme: Meg Ryan e Russel Crowe.
O affair detonou o casamento de Meg com Dennis Quaid, ganhou as manchetes nos Estados Unidos e provocou um problema estratégico para Hackford: tanto Meg Ryan, quanto Russel Crowe se recusaram a promover o filme em entrevistas e programas de TV. ‘Entendo o problema deles, mas foi muito duro para mim e para o filme. Dizem que qualquer publicidade é boa publicidade, mas agora, definitivamente, não acredito nisso’. Hackford afirma que o público americano descontou no filme a sua desaprovação do romance entre Meg e Russel. ‘Apesar de termos uma sociedade liberal e uma grande indústria pornográfica, os Estados Unidos foram colonizados por puritanos e permanecem puritanos como nunca’.
Hackford garante que, quando soube da decisão dos dois atores, não se incomodou, mas admite hoje que o silêncio de Meg e Russel foi um dos principais fatores para o fracasso de Prova de vida nas bilheterias americanas - o filme foi lançado em dezembro passado nos Estados Unidos e em seguida na Europa. ‘No início, pensei que só o fato de o filme ser bom seria o suficiente para ele ir bem nos cinemas, mas não foi o que aconteceu’.
O atual discurso diplomático de Hackford contrasta com o bate-boca que ele e Russel Crowe tiveram durante o lançamento de Prova de vida na Europa. ‘A ligação entre os dois teve um efeito altamente destrutivo’, disse o diretor em entrevista realizada, janeiro passado, em Londres. Russel foi rápido e rasteiro na resposta. ‘Acho que Taylor está sendo indelicado e imbecil ao afirmar isso’."
Cynara Menezes
"Obra liga cinema brasileiro a regime militar", copyright Folha de S. Paulo, 13/03/01
"Uma parte pouco nobre da cinematografia nacional volta à cena com o lançamento hoje, no Rio, do livro ‘Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe’, da jornalista Denise Assis. Uma fita de vídeo acompanha o livro e traz filmes esquecidos por 30 anos nas prateleiras do Arquivo Nacional.
São 14 curtas em preto-e-branco assinados pelo produtor Jean Manzon, sob os auspícios do Ipês (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), entre 1962 e 1964, com o objetivo de alertar o Brasil para a ameaça do comunismo e mostrar o ‘bom caminho’ a ser seguido.
Para a jornalista, os filmetes fizeram mais: prepararam o terreno para o movimento militar de 1964. ‘Ninguém supõe a importância que teve o Ipês’, diz Denise. ‘O golpe foi gerado, urdido, planejado, executado e concretizado pelo Ipês. Afirmo hoje que não foi um golpe militar. Foi um golpe da elite burguesa em defesa do capital privado.’
No livro, o Ipês aparece como uma espécie de precursor das ONGs (Organizações Não-Governamentais), defendendo a democracia e fixando diretrizes para o país, mas com o objetivo oculto de propagandear a ação da sociedade contra a ‘ameaça’ do comunismo.
Os textos dos filmes não trazem mensagens diretas contra o presidente João Goulart nem preconizam qualquer ação relacionada aos militares, mas seu anticomunismo convoca à mobilização, sobretudo em ‘O Que É o Ipês?’, em que se esclarece o que o instituto quer do país e dos brasileiros.
As imagens de Fidel Castro e da revolução cubana são alternadas com as de Adolf Hitler na Alemanha, e logo Kruschev, Stálin e Lênin, todos sobrepostos em seguida com a suástica nazista. ‘Não há Fidel Castro sem (Fulgêncio) Baptista que o preceda’, diz o locutor Luiz Jatobá, que narrou todos os filmes, alertando para que não se crie no Brasil situação propícia ao surgimento do comunismo. No final, sugere: ‘Ação!’.
‘Como fachada, era um instituto que pensava o país, que aprofundava as grandes reformas, que dava palestras, que formava os executivos da época, que importava as teorias econômicas e de gestão de grandes empresas norte-americanas para cá’, diz a autora. ‘Mas, no bastidor, esses senhores sabiam muito bem o que queriam, a conspiração era feita na encolha.’
O instituto era financiado por empresas privadas. As mais importantes delas, listadas no livro, foram as Listas Telefônicas Brasileiras, a Light, a empresa de transporte aéreo Cruzeiro do Sul, a Refinaria União e a Indústria e Comércio de Minerais (Icomi).
O autor dos roteiros não aparece nos filmes e a revelação, por Denise Assis, do nome por trás dos textos é responsável pela maior polêmica em torno do livro. Seria o escritor Rubem Fonseca, que na época integrava o comitê executivo do Ipês.
O nome do escritor não aparece muitas vezes, e a jornalista até teme que seu trabalho de pesquisa seja ofuscado por esse dado, que considera secundário. Afirma a autoria, com base em um bilhete em que são citadas as iniciais ‘JRF’ (de José Rubem Fonseca) como sendo o responsável pelas modificações nos roteiros e no testemunho de um sobrevivente do instituto. ‘Tenho certeza de que foi o roteirista, mas o verdadeiro papel de Rubem Fonseca nos filmes quem deve dizer é ele’, diz Denise.
Rubem Fonseca, que não dá entrevistas, procurado pela Folha por meio de sua editora, a Companhia das Letras, não se pronunciou sobre o assunto. Há duas semanas, em um fax enviado ao programa ‘Fantástico’, da Rede Globo, ele não negou nem confirmou a autoria dos roteiros, mas desmentiu qualquer ligação com os que tramaram o movimento militar de 1964.
‘Já ouvi histórias de que eu teria colaborado com o governo militar, o que é uma deslavada e estúpida falsidade. Se algum papel desempenhei durante a ditadura militar, foi o de vítima’, afirma Fonseca no fax. Segundo ele, como um dos diretores da instituição, que deixou depois do golpe, atuava com o objetivo de ‘oferecer ao governo subsídios que contribuíssem para a solução dos problemas que o país enfrentava, ao mesmo tempo em que buscava mobilizar a opinião pública no sentido do fortalecimento dos valores democráticos’.
Para o escritor José Louzeiro, que analisa os filmes do Ipês no livro, o roteirista fez bem mais do que isso. ‘O jornalista que funcionava como roteirista era um profissional competente e tinha muito cuidado com a sua imagem: nunca aparecia nos créditos’, escreve Louzeiro, para quem a objetividade do roteirista era sua maior qualidade.
‘Seus curtas batem na tecla do ‘é preciso mudar’, do contrário, os ‘vermelhos’ assumirão o comando do navio. E como mudar? Aí reside o talento do roteirista que, trabalhando num tempo limitadíssimo, conseguiu passar mensagens que, sem dúvida, tiveram o efeito que desejavam os patrocinadores.’ (Livro: Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe Autora: Denise Assis Editora: Mauad/Faperj Quanto: R$ 24 (100 págs.) Lançamento: hoje, às 19h, no Museu do Catete (r. do Catete, 153, tel. 0/xx/21/ 533-0161, Rio)"
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