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MÍDIA & SOCIEDADE
A nau pirata
Ana Lúcia Amaral (*)
Há alguns anos, uns seis anos mais ou menos, ao ler os noticários a respeito da administração pública federal sou assaltada pela imagem de uma nau pirata, retirada de filmes de capa e espada que assisti na infância. Desses guardei a idéia de pessoas com histórias pessoais conturbadas, não raro por delitos uns maiores, outros menores que "em fuga" lançam-se na aventura de embarcar numa nau pirata. A idéia é assaltar todas as outras as embarcações e portos, formando "tesouros" que lhes darão lastro para virem a instalar-se em algum canto, e com muito poder, obtido exatamente junto de quem tem o poder que, para manter-se nele, precisa de muitos recur$o$.
Assim, volta e meia, percebo a nau pirata singrando nossos mares. Foi assim ao ser anistiado Humberto Lucena, pelo então recém-empossado presidente da República, anulando condenação de uma corte superior por crime eleitoral. Foi assim com o Proer cuja medida provisória, editada num sábado, já tinha na segunda-feira seguinte um beneficiário um banco com um acionista coincidentemente aparentado do chefe do Poder Executivo. Foi assim com a nomeação para o Supremo Tribunal Federal de um ex-ministro da Justiça que para lá correu para garantir o não julgamento de uma ação direta de inconstitucionalidade contra ato que o próprio, já agora como ministro do STF, anteriormente assinara. Assim foi quando da votação da emenda constitucional pela reeleição, quando foi reabilitado o "é dando que se recebe" tão ao gosto do "Centrão" do governo Sarney. Assim foi no socorro aos bancos Marka/FondeCidam, depois de mantido por anos um câmbio estelionatário. Foi assim quando o ex-secretário da presidência da República não soube como explicar numerosas ligações telefônicas com o juiz Lalau. Foi assim quando da exoneração de dois ministros de Estado, não por serem incompetentes, mas por serem da cota do aliado ex-presidente do Senado, surpreendido em revelações comprometedoras com procuradores da República. Mais uma vez foi assim com a operação abafa da CPI da Corrupção.
Quando pensei que a nau pirata tinha feito todas as peripécias possíveis, ela se lança em outro assalto. Novamente contra as mesmas vítimas, os seus prisoneiros: nós, o povo brasileiro.
Cínica e patética
Com a maior caradura "e lá pirata tem escrúplulos!", diria o leitor o comandante da nau pirata, com pose (ele adora fazer pose) de almirante de esquadra, vem a público dizer que foi pego de surpresa pela falta de recursos para fazer a nau continuar em sua viagem. Vai então diminuir a alimentação dos prisioneiros, que terão que remar muito mais depressa sob pena de serem mortos pela fome, como sanção por não terem remado com mais empenho por estarem com fome. Nem Kafka ou Ionesco imaginariam tanto!
O espetáculo de cinismo protagonizado pelo presidente da República na fala de 18/5, para anunciar o plano "mirabolante"de salvação nacional em rede nacional de TV, nem conseguiu surpreender. O povo demonstrou que, não podendo contar com seu governo e antecipando-se a qualquer inciativa governamental, já tomou suas providências para economizar energia, pois sabe que é sobre ele que recaem as mais sérias e drásticas conseqüências da falta de governo.
A incúria e desídia da administração pública federal, a grande nau pirata, entorpecida pela arrogância do poder, atingiram níveis insuportáveis. E agora vem exigir do cidadão inocente que pague muito caro para se submeter à pena que lhe é injustamente imposta. Faz lembrar a prática chinesa que cobra da família do condenado à morte as despesas pelo fuzilamento.
Dilapidado o patrimônio público via descuidadas privatizações, deixando o Estado de cumprir uma das obrigações que reservara para si fiscalizar os prestadores de serviços por intermédio das ditas "agências" e, por outro lado, deixando de executar obras que só a ela competiam, a pretexto de conter gastos públicos, vem lançar a sociedade numa volta ao
passado e ao atraso.
A pronta reação da população deve ser creditada à imprensa. Muitos podem dizer que há uma histeria fabricada pelos meios de comunicação, para ter pauta cheia sem muito trabalho. Pode até ser isto. Mas o fato é que a população, ainda que de forma desarticulada, mas com o velho e bom senso comum do simples cidadão, tratou de ir modificando hábitos e condutas para poupar energia e não ser lançada aos ameaçadores apagões, seguindo as repetitivas sugestões do jornais impressos e televisivos. As situações cogitadas nos telejornais e outros veículos da mídia, em uma cidade como a de São Paulo, no horário de pico e na mais completa escuridão não é bom nem parar para pensar no que pode acontecer capazes de levar a população ao pânico, levaram-na a tomar providências para economizar o consumo de energia. A redução do consumo já foi verificada, antecipado em mais de uma semana à cínica, quando não patética, fala presidencial.
Poder do voto
Não arriscaria afirmar que a imprensa fez o alarde por bem acompanhar a administração federal, e por desconfiar de sua competência. Muito pelo contrário. Aqui e ali surgiam matérias sobre a crise enérgica que se prenunciava. Todavia, para não parecer campanha contrária à privatização (o que não seria politicamente correto), e que viria contra o pensamento hegemônico cujo grande arauto é o arrogante tucanato , a imprensa chapa-branca ficou no laissez passer.
Mas o fato é que, em meio à operação abafa da CPI da Corrupção, movimento pela cassação de dois senadores pegos com a mão no voto sigiloso, e um presidente do Senado que mais leva jeito para as páginas policiais, uma crise enérgica até que viria bem. E aí a imprensa, talvez meio sem querer, presta inestimável serviço à população: faz tamanho alarde que a população, já calejada, toma a frente do processo para contornar a crise.
O povo brasieliro, ao se antecipar às medidas governamentais, parece que já amadureceu muito em relação à fase na qual era fiscal do Sarney. Agora o povo está de olho no governante. O resultado das eleições do ano passado para a Câmara Municipal de São Paulo, por exemplo, é expressiva manifestação de amadurecimento político. Nesse episódio o papel da imprensa foi fundamental, não dando trégua diante de todas as manobras para livrarem os vereadores corruptos de julgamento político.
Neste caso, o fato é que a população foi alertada e mobilizada. Parabéns para imprensa! Entretanto, esta parece ter deixado para as páginas interiores, com fontes menores, assuntos como a cassação de senadores; a possibilidade de uma outra iniciativa pela CPI da Corrupção, sem falar na violência perpetrada pela polícia baiana dentro da Universidade Federal da Bahia há poucos dias.
Se alguns avanços democráticos foram conquistados, muito ainda se tem a fazer. A imprensa precisa estar vigilante, pois séculos de patrimonialismo e corrupção endêmica não são encerrados em tão pouco tempo.
Ainda que exagere nas cores dos problemas, a imprensa não pode deixar "sair da pauta " os temas fundamentais ligados à construção da democracia. O controle incansável e implacável da administração pública, nos três poderes e nas três esferas, é o único meio de evitar que outras "naus piratas" aportem. Como acontecia nos filmes aos quais me referi, o comandante da nau pirata desta vez vai se dar mal... Espero que esta seja a última. Faço fé nas próximas eleições.
(*) Procuradora regionalda República, associada do IEDC Instituto de Estudos Direito e Cidadania
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