EDUCAÇÃO E PREVENÇÃO
No coração da favela

Carmen L. B. Fusco (*)

Este projeto é uma contribuição à redução da contaminação pelo HIV entre mulheres jovens e adolescentes do sexo feminino, e consiste em uma pesquisa operacional integrada a uma ação comunitária. Partimos dos seguintes pressupostos: o aumento alarmante nos últimos anos do número de mulheres infectadas pelo HIV, caminhando a proporção homem/mulher rapidamente para uma distribuição igualitária. Ao mesmo tempo ocorreu no país um aumento assustador do número de gestações na adolescência coexistindo com um grande número de gestações indesejadas – e tendo surgido, a partir de 1986, a Transmissão Vertical (mãe-filho), que ocupa agora o terceiro lugar entre os meios de transmissão do HIV.

Escolhemos, então, para pesquisa e atuação em campo uma comunidade carente da periferia da cidade de São Paulo,a favela da Inajar, cujo perfil tem como características uma população local jovem, com cerca de 2.000 pessoas, e virgem de intervenção de educação em saúde. Após o levantamento do perfil e da demanda dessa população, realizamos o treinamento de monitoras (agentes comunitárias) por meio de aulas, grupos, oficinas e técnicas apropriadas, para trabalharem junto à população-alvo (mulheres entre 12 e 49 anos) na transmissão dos ensinamentos básicos.

As monitoras optaram por um sistema de trabalho em duplas, com visitas domiciliares, inicialmente à população que havia participado do levantamento de dados para a composição do perfil (cerca de 150 visitas em 7 meses).

Após a realização desta primeira etapa, aplicamos outro instrumento de avaliação, semelhante ao primeiro, sob a forma de entrevista, pelo mesmo grupo de entrevistadores inicial.

Temos a ressaltar os seguintes resultados positivos desta fase:

** um grande aumento do nível de conhecimentos corretos sobre AIDS e sua transmissão;

** um aumento considerável da auto percepção de risco;

** o aprendizado correto do que sejam DSTs, que antes era praticamente nulo;

** o entendimento da existência da transmissão vertical (mãe a filho) e sua importância por 57% das entrevistadas;

** o conhecimento adquirido da CE (pílula do dia seguinte) e sua aceitação como fator inibitório do aborto provocado e como prevenção da transmissão vertical, por 70% dessa população;

** a admissão do uso de drogas, ao menos no passado, por 15% das pessoas entrevistadas (denotando também um aumento da confiança da população para se abrir).

Essa experiência alcançou o sucesso esperado e temos como material comprobatório do mesmo as tabelas comparativas entre os momentos anterior e posterior à intervenção, além de um vídeo de demonstração do impacto sobre as monitoras. Como partimos da premissa de que para a mudança efetiva de comportamentos e posturas desejáveis à eficácia da prevenção sobretudo da AIDS há a necessidade de no mínimo 3 anos de trabalho de campo em uma comunidade, daremos continuidade ao processo iniciado visando agora a aprofundar as questões relativas à mulher, como a promoção de direitos humanos e cidadania

Este trabalho foi realizado como contribuição do Serviço de Saúde Mental ao Serviço de Prevenção do CRT/AIDS. Surgiu de uma bolsa de estudos, com estágio e treinamento, na França, após concurso prestado junto ao Ministério da Saúde/Coordenação Nacional DST/AIDS/ Cooperação Técnica Brasil-França, e posterior aprovação do trabalho.

(*) Médica psiquiatra, e-mail <carmenlbf@uol.com.br>



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