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DESERTO FÉRTIL
Algum otimismo sobre ética na mídia
Luiz Martins (*)
...quando dou pão aos pobres,
chamam-me de santo, quando
pergunto pelas causas da pobreza,
me chamam de comunista.
Dom Hélder Câmara
A televisão é certamente um dos maiores inventos já produzidos pelo ser humano. Cinco décadas de seu uso, no entanto, demonstraram também que a TV é um dos piores lixos culturais já estabelecidos. De resto, no entanto, toda a mídia é assim: boa por um lado, ruim por outro. Ademais, não é só a mídia que se enquadra nesse maniqueísmo – mas a ciência, a tecnologia e tudo que a Humanidade foi capaz de conceber, material e culturalmente. É como se em tudo estivesse presente o livre-arbítrio, essa prerrogativa inerente à concepção do próprio gênero humano, esse crédito de confiança que Deus deu à sua principal criação. Sem o livre-arbítrio, o ser humano não o seria, mas tão-somente um autômato, uma criatura menor, incapaz de fazer o seu próprio caminho, sua própria subjetividade, sua própria emancipação.
Com a internet não podia ser diferente. Já foi até considerada um Novo Renascimento, tal o prodígio que representou. Mesmo cientistas e tecnólogos dos mais avançados laboratórios ficaram de queixo caído com a emergência brusca e o crescimento astronômico da rede mundial de computadores. E logo a Unesco constatou em seus relatórios que já havia 2 milhões de fotos de pedofilia circulando pela web. Ou seja, sempre aparecem os espíritos de porco (não seria uma ofensa aos suínos?). A pomposa super-data-highway bem cedo se revelou mais uma rota de comércio, de prostituição, de narcotráfico, de neonazismo, de crimes e sabe-se lá mais o quê.
Entretanto, também na internet a Humanidade tem realizado prodígios e dignificado o ser humano. Também na internet avançam iniciativas de engrandecimento social, cultural e moral. Inegavelmente, a internet tem servido à cidadania, à promoção do ser humano e tem facilitado imensamente o trabalho dos movimentos sociais, das ONG’s, da imprensa e do Estado. E é por isso que não podemos desanimar e ficar batendo cabeça nesse espesso muro das lamentações em que se tem transformado a literatura produzida sobre mídia e sobre imprensa, como se tudo estivesse dominado e nada do mundo mediático valesse a pena.
Feliz o momento em que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento (Ibrades) e o Centro Cultural de Brasília (CCB) resolveram premiar os sítios de internet que mais se tem destacado na promoção à cidadania – premiação a ser anunciada durante o II Seminário Internacional de Comunicação de Brasília, que ser reunirá de 7 a 9 de novembro próximos. O evento deste ano terá como tema central "Jornalismo e cidadania na internet". Pretende analisar as mudanças provocadas pela informação ao vivo e em tempo real sobre a concepção clássica do jornalismo e focar a participação do cidadão como provedor de informação. Será realizado no Centro Cultural de Brasília, Av. L2 Norte Quadra 601-B - Brasília, DF. Inscrições até 4/11/02. Informações: (61) 426-0413 e (61) 426-0415. Para indicar o sítio "Cidadania 2002", entre na página <http://sicom.ccbnet.org.br/> .
Feliz o momento em que tal prêmio foi instituído em homenagem ao saudoso arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara (1909-1999), este apóstolo brasileiro da liberdade e da justiça social e também do otimismo. Mesmo em momentos de grande obscurecimento, de grande pessimismo, de grande opressão (quando o chamavam de "o bispo vermelho"), Dom Hélder foi tão confiante na Humanidade quanto Jó em nenhum momento deixou fraquejar a sua confiança em Deus. Foi, então, que Dom Hélder pregou em uma homilia a parábola "O deserto é fértil", argumentando acerca da fertilidade de um país chamado de Brasil, desde que regado com o insumo da educação.
Práticas exemplares
Bem-aventurados, portanto, os que não ficam pelo deserto afora a lamentá-lo, mas a vislumbrar possibilidades de resultados da semeadura. Abençoado seja, portanto, o trabalho daqueles que na rede mundial de computadores encontraram meios para prestar serviços ao ser humano e à Humanidade; espalhando ainda mais pela civilização e pelo planeta a glória de Deus e a repartição de seus benefícios. Pode-se dizer, agora, que no mundo, e em particular no Brasil, a internet tem fornecido mostras de bons serviços prestados à cidadania, tal como podemos constatar, neste momento, tanto pelas indicações feitas pelos jurados, como pela votação do público nos sítios pré-qualificados pela comissão julgadora.
O Prêmio Dom Hélder Câmara é mais uma iniciativa que se vem somar àquelas tantas que têm distinguido a ética na comunicação, sobretudo ao que se poderia chamar de macroética, na expressão de Karl Otto-Apel, e de antropoética (a ética do gênero humano), segundo o neologismo criado por Edgar Morin para profetizar o advento de uma cidadania planetária. Está em vigor uma ética maior, que vai além de um profissional atuar corretamente em seu campo de trabalho. É preciso ir mais adiante e rapidamente. Não basta ser correto e justo, é preciso aproveitar as ferramentas de multiplicação e de difusão da boa prática. Este é o sentido de uma nova razão prática, uma razão coletiva que resulta em ações comunicativas – comunicativas porque cooperativas e voltadas para o coletivo. É a ultrapassagem esperada na evolução do ser humano, já comprovadamente capaz de pensar e agir descentradamente e altruisticamente, o que implica a realização da máxima das máximas (maximum maximorum): amar ao próximo como a si mesmo. Agir segundo princípios, o que implica colocar o coletivo acima dos interesses e inclinações particulares, atingindo-se, assim, verdadeiramente o uso da vontade, algo muito maior que os desejos.
Esta nova ética está presente também na mídia, na imprensa, na publicidade, no jornalismo e na internet. São manifestações com que nos deparamos a cada momento de uma nova prática, aquela segundo a qual o papel da mídia não se restringe a comunicar, a difundir, a convencer, a entreter e a noticiar. Não basta ater-se aos valores mediáticos mercadológicos; aos valores-notícia tradicionais; não basta transmitir a informação. É preciso produzir a notícia-cidadã; a publicidade cidadã; o cinema-cidadão. Isto não significa estreitar tudo segundo uma ótica cívica, mas importa, sim, em jamais perder de vista a dignificação e a promoção do ser humano. Se não for assim, para que servirá a Comunicação? Tão-somente para encher os cofres dos magnatas da mídia. Mas, ainda que fiquem ricos, será uma riqueza sem sentido, sem lastro humano – estúpida, portanto. Se a mídia não cumprir uma função social, para que servirá? A quem servirá?
Certamente, haverá argumentos contra premiações. É como se reconhecêssemos tal estado de coisas depressivo, a ponto de se ter de premiar o que deveria ser o padrão normal. Uma premiação, no entanto, pode ser encarada como uma espécie de ação afirmativa, com o propósito de difundir práticas exemplares. É como expandir um know how que bem serve e que, por isso, serve ao bem. Bem-aventurados, portanto. Que os abençoe este brasileiro exemplar que foi Dom Hélder.
(*) Professor da UnB, coordenador o projeto de Extensão SOS-Imprensa; membro da Comissão de Ética do Sindicato de Jornalistas Profissionais do DF; presidente da Comissão Julgadora do Prêmio Dom Hélder Câmara de Imprensa.
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