Envie para um amigo  Imprima esta página  Procure no arquivo

ESCOLA BASE
O (pavoroso) exemplo não foi suficiente

Deonísio da Silva (*)

"Só após a condenação, com sentença transitada em julgado, é que se pode apontar, com certeza infalível, a culpabilidade de alguém. O exemplo da Escola Base ainda não foi o suficiente?", perguntou a leitora Neli Aparecida de Faria, no Painel do Leitor da Folha de S.Paulo (16/11/02).

No caderno Cidades do Estado de S.Paulo (25/11/02), a resposta: não. Em reportagem de Biaggio Talento intitulada "Acusada de tramar morte da mãe é inocente", enviada de Salvador (BA), a prova de que a lição não fora aprendida:

A estudante de zootecnia Fabiany Guimarães, de 21 anos, e seu namorado, o tatuador Joésio Ferreira Alves, de 26, foram libertados ontem por determinação da juíza de Itapetinga, Cristina Britto. Fabiana era suspeita de tramar com Alves a morte da mãe, a empresária Jussara Guimarães, em julho.

Os dois, detidos desde o dia 10, sempre negaram o crime. Na sexta-feira, foram presos os assaltantes Eduardo Pereira, o Nego Du, de 19 anos, e Reginaldo Coelho, o Raposão, de 26, que confessaram ter assassinado Jussara.

"Suzane Louise von Richthofen, de 19 anos, acusada de matar os pais já foi julgada? Já. Pelo Judiciário? Não. Pela imprensa, o quarto poder, mas em muitos casos o primeiro, como sabemos, e contra o qual dificilmente cabe algum tipo de recurso". Essa tinha sido a abertura do artigo que o signatário publicou neste Observatório [edição 198, remissão abaixo], comentando o caso Richthofen.

A conclusão: "A versão pode até ser verdadeira. Mas por enquanto é exclusiva da polícia e da promotoria. A imprensa tem o dever de aprofundar suas pesquisas para que os leitores exerçam o direito de saber mais, de outros mirantes, à luz de mais relatos, por certo diferentes e discrepantes do monobloco que foi apresentado até agora".

Se aparência e essência fossem a mesma coisa, a ciência seria desnecessária. E não precisaríamos do Judiciário. Ah, como precisamos da Justiça! Ela demorou um pouco, tem seus ritos, seus prazos, garante defesa aos acusados, examina provas recolhidas. Mas chegou. E foi estampada, no caso da Escola Base, no Estado de S.Paulo (19/11/02), em reportagem de Mariângela Galucci:

Os ministros da 2ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) aumentaram de R$ 100 mil para R$ 250 mil o valor da indenização a ser paga pela Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo a cada um dos três ex-donos da Escola de Educação Infantil Base. O estabelecimento foi depredado pela população e fechado após a divulgação de notícia falsa, segundo a qual alunos da escola teriam sofrido abuso sexual.

E a relatora do recurso no STJ, a ministra Eliana Calmon, concluiu que a imprensa veiculou a notícia após o delegado responsável pelo caso ter dito que houve violência sexual contra os estudantes, informou o tribunal. Os ex-proprietários da escola, Icushiro Shimada, Maria Aparecida Shimada e Maurício Monteiro de Alvarenga foram quase linchados. Durante o julgamento, o ministro Franciulli Neto disse que, quem acompanhou os fatos na época, com certeza se lembra do linchamento moral e dos abusos cometidos contra os ex-donos da Escola Base. (...) Em uma decisão anterior, desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo tinham limitado a R$ 10 mil o valor que poderia ser cobrado do delegado Edélcio Lemos, que presidiu o inquérito policial. Agora, o STJ resolveu acabar com essa limitação, informou o tribunal.

A Escola de Educação Infantil Base foi fechada em 1994. "Minha vida acabou", disse Icushiro Shimada, em matéria assinada por José Maria Mayrink, publicada no Estado de S.Paulo (24/11/02). "Sentiu ódio das mulheres que difamaram os professores de seus filhos, pensou em vingança, mas agora tenta esquecer", continua o texto. As denúncias de pedofilia eram falsas, como a investigação comprovou, mas o delegado Edélcio Lemos ia passando todas aos jornalistas, à medida em que chegavam à delegacia. Icushiro Shimada deixou escapar uma frase preocupante: "Tenho nojo de jornalista".

Mayrink registrou os versos iniciais do salmo 23, exibidos na parede cada residência de Shimada, ao lado de um quadro de São Benedito: "O Senhor é meu pastor, nada me há de faltar". Seu autor é Davi, um rei genocida, adúltero – hoje seria popularmente conhecido como um dos maiores galinhas, na gíria brasileira para mulherengo – capaz de enviar para a frente da batalha um de seus generais, Urias, para ficar com a mulher dele, Betsabéia, que veio a ser mãe de Salomão. Mas o controvertido rei Davi marcou sua vida com arrependimentos insólitos. Reconhecido o erro, cobria-se de cinza, humilhava-se, mostrava a auxiliares e súditos que tinha reconhecido o erro. Esta atitude admirável contribuía para que o respeitassem e temessem.

A imprensa precisa tirar as devidas lições da Escola Base. Tem razão a leitora que perguntou se ainda não foi suficiente o exemplo. Que os jornalistas mirem-se nas purgações do rei Davi (1015-975 a.C.). Erraram? Arrependam-se! Com efeito, freqüentemente, no desejo incontido por mulheres-manchetes, estampam com destaque as notícias-maridos, destruindo reputações. Arrepender-se, entretanto, vale apenas para quem se arrepende, porque às vezes as vítimas já estão mortas. O próprio Icushiro teve três enfartes no período. Antes de Inês, Urias é morto. Mas a memória lembra que poderemos evitar novos crimes, vez que para os já atingidos sobram apenas, e assim mesmo eventualmente, compensações por danos sofridos, de todo modo difíceis de avaliar.

(*) Escritor e professor da UFSCar, escreve semanalmente neste espaço; seus livros mais recentes são A Vida Íntima das Palavras e o romance Os Guerreiros do Campo



Leia também

A imprensa e a versão da polícia – D. da S.

Cinco anos do caso da Escola Base – Francisco José Karam (rolar a página)

Dinâmica da verdade vence malícia do Sistema – Alberto Dines

Justiçamento e selvageria – Luís Nassif, no Entre Aspas

Estado terá de indenizar donos da Escola Base – Thélio de Magalhães, no Entre Aspas


  Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe