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PERNAMBUCO
Patrões negam reposição da inflação

Leonardo Guerreiro (*)

Os deputados estaduais de Pernambuco foram porta-vozes da luta que jornalistas e radialistas pernambucanos vêm travando na campanha salarial em curso. Na sessão plenária de hoje à tarde, o deputado Sérgio Leite (PT) fez pronunciamento denunciando a intransigência dos empresários de comunicação que se negam a repor as perdas salariais de seus empregados. Em seu discurso, Leite frisou a importância da natureza do trabalho desenvolvido por estes profissionais que merecem salários e condições de trabalho dignos.

Ele foi aparteado por três deputados. O primeiro, o deputado José Queiroz (PDT), que é radialista, enfatizou que, como qualquer trabalhador, os jornalistas e radialistas têm direito a se expressar, o que lhes é negado pois, "enquanto eles noticiam as lutas das outras categorias, as suas são desconhecidas da sociedade". Seguindo este raciocínio, o deputado Gilberto Marques Paulo (PSDB) parabenizou a iniciativa de Sérgio Leite, mas criticou o fato de que a discussão do plenário desta tarde não será notícia em qualquer jornal, rádio ou televisão de Pernambuco. O último a falar foi o deputado Paulo Rubem (PT). Ele lembrou que enquanto o Brasil se prepara para desenvolver relações mais progressistas, elegendo a política do pacto social, os empresários de comunicação em Pernambuco ainda se comportam como senhores feudais. Veja a íntegra dos discursos no site da Assembléia legislativa de Pernambuco: <www.alepe.pe.gov.br>.

Com data base em 1º de setembro, os radialistas reivindicam 9,46% de reposição das perdas salariais, mas a oferta patronal até o momento é de ínfimos 2%, além de extinção de qüinqüênio e corte de outras conquistas.

Para os jornalistas que têm data-base em 27 de agosto, a situação é ainda mais miserável. Sem reposição das perdas salariais desde 2000, os profissionais acumulam perda de 16,49% no período (2001 e 2002), mas as empresas de comunicação só querem dar 5% para o segmento de Rádio e TV e 4% para os jornalistas que trabalham em jornais, fora ridículos abonos de R$ 150/R$ 160, que seriam pagos em fevereiro. Também exigem a redução do adicional de horas extras, extinção de qüinqüênio, não-remuneração das jornadas dos domingos e feriados, a serem trocados por folgas, só para citar algumas conquistas ameaçadas. Para ambas as categorias, o índice teria descontada qualquer antecipação. No caso da Rede Globo Recife, por exemplo, se os jornalistas aceitassem o índice de 5%, só receberiam 1%, uma vez que a empresa já antecipou 4%. Outro detalhe acintoso é que a proposta patronal é que a reposição das perdas não seja retroativa.

Os jornalistas apresentaram uma pauta de reivindicação com 17 itens. Ao longo da campanha salarial, a categoria abriu mão de 12 pontos, deixando apenas quatro propostas na pauta: piso salarial de R$ 860, salário contratual nunca inferior ao piso, reposição integral das perdas salariais pelo ICV do Dieese – pagando o retroativo –, correção da compensação de jornada de trabalho para que não ultrapasse o limite legal de sete horas/dia, garantindo a não-compensação de domingos e feriados. Ainda assim, as empresas mantêm a postura de intransigência, e a única contraproposta é a reposição em índices irrisórios.

O discurso dos empresários de comunicação de Pernambuco é uníssono. Alegam queda de receita, alta do dólar, crise na Argentina e chegaram ao cúmulo de dizer, durante uma negociação, que os jornalistas pernambucanos recebem salários mais altos do que merecem, uma vez que são maiores do que os praticados em Salvador e Fortaleza. Uma balela. Em Salvador, por exemplo, o salário contratual dos jornalistas é de R$ 1.200 no jornal A Tarde, R$ 800 no Correio da Bahia e R$ 600 para os jornalistas do jornal A Tribuna. A verdade é que em Pernambuco, embora a categoria tenha definido um salário de referência de R$ 860, as empresas não aceitam adotá-lo como piso salarial. Só para dar um exemplo pernambucano, no jornal Folha de Pernambuco tem profissional contratado como trainee há quatro anos.

Mas há outro lado da verdade. A verdade que as empresas não querem falar. Que se negam a abrir suas contas para os trabalhadores que geram a informação do povo pernambucano. No jornal Diário de Pernambuco, por exemplo, o mais antigo em circulação na América Latina, foi construído um parque gráfico onde a empresa, que pertence ao grupo Diários Associados, investiu US$ 15 milhões. Outras empresas, como Sistema Jornal do Commercio, Rede Globo, TV Tribuna vêm realizando investimentos.

Acompanhando essa onda, os jornais praticaram dois aumentos no preço de capa de junho de 2001 para cá, totalizando 50%. As tabelas de veiculação de anúncios também crescem bastante, para cima, em jornais, rádios e TVs. Principalmente nos últimos meses de campanha eleitoral. No entanto, os empresários adotam uma postura intransigente de sequer repor as perdas salariais, muito menos repassar uma pequena fatia desse lucro, fruto do trabalho de seus empregados.

(*) Diretor de Formação Sindical do Sindicato dos Jornalistas de PE; artigo publicado no Jornal da Intercom

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