|
PORTUGUÊS DE MENAS
Angola quer mais
Sou jornalista do Jornal de Angola, em Luanda <www.jornaldeangola@com>. Li com atenção o artigo sobre erros de português. Estou plenamente de acordo, por isso, espero outros sobre o assunto. Parabéns!
Augusto
Alfredo
Preocupação exagerada
Achei um tanto – ou muito – exagerada a preocupação do jornalista Raphael Perret Leal sobre os dois "atentados" à língua portuguesa, já que nenhum deles implica uma "falta de sentido" à frase. No primeiro, "Você está assistindo ‘Doces poderes’", o que ocorre é evidente: a regência do verbo ‘assistir’ tem, nos últimos anos, passado por uma transformação – ainda não adotada pela gramática normativa. O uso desse verbo no sentido de ‘ver’ está passando de transitivo indireto a transitivo direto, sendo que essa transformação se dá antes na fala e, depois, na escrita. No segundo caso, a confusão da crase é totalmente explicável. Ao contrário do que acontece em Portugal, em que a crase é pronunciada (/â/), os falantes de português brasileiro não a pronunciam.
É claro que os meios de comunicação têm de usar da gramática normativa em seus textos, mas dar extrema importância a pequenos detalhes como os citados pode ser irrelevante.
José
Luiz Águedo Silva, estudante de
Letras, Unicamp, SP
Pobre tia Maricota!
Se o Observatório da Imprensa tratasse jornalismo da mesma maneira como trata questões de linguagem, acharia o lide uma contravenção imperdoável. Incrível como Raphael Perret Leal, no texto "Horror a acidentes ortográficos", usa expressões como "corretude" e "perfeição" sem questionar o que determina tais características e, talvez mais importante, quem as determina.
Achar que usar o verbo "assistir" sem a preposição "a" é coisa de quem não concluiu o Ensino Fundamental revela preconceito, ou pelo menos falta de atenção (ou falta de leitura científica sobre o assunto, o que está claro). Qualquer ouvido atento percebe que falantes cultos no Brasil dizem, na grandíssima maioria das vezes, "assistir o filme", por exemplo.
Tendo a crer que Raphael Perret Leal é de fato alguém preocupado com o "descaso com a informação", como salienta no último parágrafo do texto. Sugiro-lhe, portanto, que se informe melhor sobre questões de linguagem e vá além das aulas de gramática da tia Maricota.
Ricardo
Meirelles, São Paulo
Raphael Perret Leal responde
Caro Ricardo, o jornalista deve usar uma linguagem acessível ao leitor/ouvinte/telespectador/internauta, nem muito coloquial, nem extremamente formal. Porém, deve seguir a norma culta da língua portuguesa. Existem regras que devem ser cumpridas. Não se preocupe, porque não fico apenas nas aulas de gramática da tia Maricota para embasar minhas opiniões. Sei que muitas palavras e expressões usadas hoje eram consideradas erradas há algum tempo e o uso popular as consolidou. Concordo em que muitos usam "assistir" como transitivo direto. Entretanto, isso não justifica o erro cometido pela Bandeirantes, que ainda se pauta (ou deveria se pautar) pela norma culta. Fala-se assim, mas não se deve escrever assim, a menos que a norma culta mude. Se não houver uma regra básica e uniforme, cada veículo vai escrever do jeito que quiser, prejudicando a comunicação. Tem razão quanto ao meu "preconceito" (por que "preconceito"? Alguém que trabalha com redação e escreve errado porque nunca aprendeu regras ensinadas antes de entrar na faculdade deveria voltar à escola. Ou continuar escrevendo errado?). Eu me enganei: regência é um tema ensinado no Ensino Médio. Não se trata de um assunto difícil (pelo menos no caso do verbo "assistir"). Porém, mesmo assim, as pessoas erram, o que deveria ter sido consertado ainda na escola. Fruto de um sistema educacional deficiente. Quanto à minha falta de leitura científica (não sei por que isso está "claro", já que o missivista não me conhece) e à sua sugestão, não se preocupe, sinto-me muito bem-informado sobre questões da linguagem e continuo achando absurdo que um veículo jornalístico cometa erros graves de regência ou de crase. O povo fala assim? Nós entendemos assim? Ótimo. Mas a norma culta existe e deve ser respeitada, principalmente por um serviço público que lida com mensagens e informações.
Caro José Luiz: boas observações, concordo quanto ao uso da gramática normativa, mas discordo da suposta irrelevância do tema. Poupar "detalhes" pode ser um perigoso precedente para novos erros. Os programas citados já são veiculados em rede nacional. Imagine se a freqüência das falhas aumenta: teremos mensagens repletas de erros de português. É preciso, portanto, que os veículos sejam mais atentos e cuidadosos. (R.P.L., mestrando em Sistemas de Informação NCE-UFRJ, jornalista diplomado free-lancer)
|
|