01/07/2003

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Edição de Marinilda Carvalho

Com exceção da carta de Jack Soifer, que trata diretamente do Caso Banestado, vários leitores falam do assunto em meio a outros, cobrando da imprensa investigação profunda sobre esse escândalo que, ao que se sabe, desviou pelo menos 10% da dívida externa brasileira, como informou a IstoÉ Dinheiro.

Não estarão os leitores cobertos de razão? Não causa realmente estranheza que nossa imprensa, tão apegada ao denuncismo barato, relute tanto em mergulhar num assunto de tamanha gravidade?

O leitor Sidney Borges, da primeira carta do caderno, indica alguns porquês dessa relutância.

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Nota da Redação: O Observatório da Imprensa não publica mensagens assinadas com pseudônimo ou iniciais. Cartas só serão acolhidas quando claramente identificada sua autoria.

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DEMISSÕES NA MÍDIA
Apurem o Caso Banestado

A imprensa brasileira vive momento delicado. Os jornais vêm demitindo profissionais, enxugando os quadros, encolhendo as redações, tudo sendo justificado pela crise. Em outros momentos da história, deu-se o oposto, a crise serviu para consolidar empresas e afirmar a condição profissional do jornalista. Depois do golpe de 64, a política econômica adotada pelo governo arrochou os salários e enxugou o meio circulante para combater a inflação. O resultado foi uma crise braba, com desemprego e tudo o mais que acontece em crises. Duas publicações surgiram nesse período e marcaram época na história do jornalismo brasileiro.

A primeira foi a revista Realidade, da Editora Abril, que nasceu contrapondo o modelo decadente de O Cruzeiro. Desta, Realidade pinçou o que havia de melhor, as grandes reportagens autorais. A diferença, fundamental no sucesso da revista, foi a escolha das pautas, focadas principalmente nos jovens. Discutiam-se tabus, costumes e posturas arraigadas na vida brasileira. Havia anseios por mudanças e Realidade soube, com rara sensibilidade, traduzir em matérias jornalísticas os temas que habitavam o imaginário coletivo. Some-se a isso a felicidade na escolha de uma equipe de jornalistas de rara competência. Nunca mais houve um sucesso editorial comparado ao de Realidade, a revista era esperada nas bancas e esgotava-se em horas.

Outra publicação que marcou os anos sessenta foi o Jornal da Tarde, irmão caçula do Estadão, criado para trazer modernidade ao estilo conservador do jornalão da família Mesquita. Foi adotado como "o jornal" por toda uma geração, era moderno, bonito, inovador, tinha tudo o que os jovens queriam formalmente de um jornal. O sucesso não foi maior por causa da linha editorial, conservadora, que fazia contraponto ao modernismo gráfico. De qualquer forma, o JT será sempre referência na história da imprensa brasileira do século 20.

É sabido que em épocas de crise as pessoas com pouco dinheiro procuram nas publicações, revistas e jornais uma forma de compensar as agruras da vida. Hoje, parece que isso não está acontecendo, a televisão foi adotada como meio de entretenimento e informação pela maioria, e os jornais não se mostram atraentes. As tiragens dos impressos minguam, revistas fecham e jornais capengam para sobreviver. Essa é a realidade, mas se os jornais tivessem outra postura editorial conquistariam os leitores que estão faltando, com crise ou sem crise.

Abro diariamente os dois jornais que assino, e depois, leio outros na internet. Com pequenas diferenças formais é uma mesmice só. Não encontro temas relevantes sendo repercutidos, apenas factóides, como uma frase infeliz do presidente Lula, por exemplo: dela tiram-se páginas e páginas, comentários, repercussões, sem que nada de concreto surja disso. Os fatos maiores que poderiam trazer algo de positivo ao país, esbarram em interesses políticos.

Se eu fosse editor de algum jornal já teria criado uma editoria para apurar o caso Banestado. Teria enviado os meus melhores repórteres para ouvir o que há, da boca do cavalo, e ficaria atento, no pé da CPI. Há interesses maiores envolvidos, quem enviou o dinheiro ilegalmente – há mais dinheiro envolvido nesse caso do que todo o dinheiro roubado no país – é criminoso, deve ser apontado, deve responder criminalmente e deve ser preso, se condenado. Tirando uma figura pública sobejamente conhecida, e cujo nome é sinônimo de ladrão, os outros envolvidos estão cercados por uma muralha de contra-informação, há consenso em livra-los de qualquer apontamento, mesmo sabendo-se de seu envolvimento.

Não estou falando de sensacionalismo barato, estou falando de uma quadrilha que surrupiou quase 10% da dívida externa brasileira. Esse dinheiro poderia estar sendo usado em obras de infra-estrutura, tão esquecidas nos últimos anos por alegada falta de dinheiro. Os escroques de colarinho branco enviaram ao exterior merenda escolar, creches, hospitais, escolas, estradas, portos, salários, enfim o sangue e o suor desse povo. O dinheiro, sujo na origem e convenientemente lavado antes de chegar ao destino, vai se transformar em elegantes apartamentos em cidades como Paris ou Nova York, será gasto em jantares nos mais caros restaurantes do mundo, será transformado em jóias e roupas das melhores grifes, enfim, será usufruído por essa malta que sem o auxílio da mídia continuará a dilapidar o país e freqüentar colunas sociais, quando deveria estar em outras páginas.

O jornalismo baseado apenas em serviços não vai sobreviver. Os meios eletrônicos vão mais e mais se incumbir disso, o jornalismo que sobreviverá deverá pautar-se pelas grandes questões, e não tentar criar grandes questões, pecado comum a muitas redações. Se um dia um jornal trouxer as provas do envolvimento e apontar quem são os donos do dinheiro do affair Banestado a tiragem se esgotará em horas, filas se formarão nas bancas. O esquema da revista Realidade será repetido. Enquanto as manchetes forem do tipo Lula falou, Lula disse, o professor da USP comenta, os jornais vão continuar encalhando, não trazem nada de novo do front.

Sidney Borges

Sentados à espera

Se os jornalistas profissionais estão preocupados e transtornados com a atual situação da imprensa brasileira, imagine um estudante do primeiro ano de Jornalismo! A imprensa está, como disse Alberto Dines, caindo em buraco sem fundo. Os jornais do interior apenas copiam as notícias das agências Estado e Folha. As televisões estão sendo vendidas a conglomerados que fazem severas demissões. Enfim... O que pensar da imprensa brasileira? O que fazer um estudante? Só nos resta esperar... sentados.

Bruno Mestrinelli Paranhos, estudante de Jornalismo da Unesp de Bauru


Paraíso sem riscos

Sobre o artigo "Lula faz gols, mídia engole frangos", dois comentários: 1) irreprochável no global; 2) imperfeito num único detalhe: "Isto sem falar na reação dos chamados ‘setores de vanguarda’ que até hoje implicam com o Proer, apesar dos inegáveis resultados positivos." (sic)

Mas que imperfeição! Implicam com o Proer? Então, bilhões do meu dinheiro de impostos visíveis e invisíveis, que a mim me faltam como dinheiro de sobrevivência, assim como a milhões de brasileiros, foram para o bolso corrupto de inúmeros banqueiros mutreteiros, só por necessidade de "manter a aparência sadia do Sistema Financeiro Podre", e sai essa de "implicar"? Inegáveis resultados? Quais? E ainda positivos? Para quem, exceto os próprios interessados? Que vergonha, pactuar com isso! Depõe contra o resto do brilhante artigo, que passa a ser exatamente isso, apenas resto.

Até o Primeiro Mundo, hoje, espalha aos quatro ventos o paraíso sem risco que é a área bancária no Brasil, e justo Dines faz um comentário desses, aceitando o tal Sistema Financeiro saneado com nosso dinheiro, dizendo-o bom e positivando os resultados do Proer? Para contrastar com o colega Tognolli, que nos brindou com o artigo "O presidente parabólico", que deveria ser outro, "O jornalista paradoxal"... De qualquer forma, valeu pelo "geralzão". Mas no detalhe...

Luiz Ribeiro Cordioli, engenheiro, São Carlos, SP


Conhecimento minúsculo

Considerando a forma criminosa como se faz jornalismo no Brasil, tomara que fiquemos sem jornalistas... Aí talvez alguém se lembre que a função do jornalista é somente informar, e não formar. Guardem suas opiniões infundadas e leigas para vocês mesmos ou discussões de "boteco" como todo mundo. Seu treinamento foi apenas para noticiar. O papel de ensinar é do professor, cada um em sua área. É bom que alguém lhes diga que seu conhecimento é minúsculo e que quase sempre, ao emitir opinião, além de estar influindo na maneira de pensar de quem não tem formação sólida, eles estão se expondo ao ridículo. Isto é uma vergonha (copiando uma dessas figuras folclóricas).

Orlando Abreu

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